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Moçambique

“Não morremos porque não calhou”. Relatos dos portugueses repatriados de Moçambique

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"Os incêndios limparam-me tudo o que tinha cá, agora foi a vez de o ciclone me limpar tudo o que tinha lá", contou Carlos Miroto, um dos 7 portugueses que pediram para voltar para Portugal.

O chefe da diplomacia portuguesa sublinhou que as autoridades portuguesas irão continuar a trabalhar para localizar os cidadãos portugueses

ANTÓNIO PEDRO SANTOS/LUSA

Sete portugueses (cinco homens, uma mulher e um rapaz de 15 anos) desceram as escadas do avião fretado pelo Estado português que chegou na madrugada desta segunda-feira à base militar de Figo Maduro, em Lisboa. Emocionados, alguns contam que perderam tudo e que não morreram “porque não calhou”.

“Os telhados foram todos. Vocês não imaginam o vento levar tudo pela frente… Tudo. Até as paredes começaram a partir“, contou Maria Lopes aos jornalistas, acrescentando que “a cidade da Beira está destruída”.

Maria Lopes, natural de Lamego, relatou que “começou a chover. Depois, durante a noite, até à meia-noite [foi] muito agressivo e parecia que aquilo ia abrandar, mas depois, até perto das quatro da manhã não dá. O vento virou ao contrário, era só levantar tudo, telhados, tudo”, contou a mulher que vivia em Moçambique há cinco anos.

A sua casa ficou sem água e sem luz. “A solução foi virmos embora para aqui, para o nosso país. Ficámos sem nada”, declarou Maria Lopes, que regressou com o marido e com o neto, de 15 anos.

Os três tinham familiares à sua espera. Aos jornalistas, depois de abraçar os repatriados, uma delas, Liliana Rodrigues, afirmou muito emocionada: “Tínhamos muitas saudades, mas o que interessa é que eles estão bem”.

Carlos Miroto, que trabalhava com madeiras e com transportes, relata que perdeu “a empresa, a casa, o parque dos camiões, a quinta onde tinha o gado”. “Desapareceu tudo. Não fiquei com um muro”, conta visivelmente emocionado, o homem que já tinha sido vítima dos incêndios de 2017 em Portugal. “Os incêndios limparam-me tudo o que tinha cá, agora foi a vez de o ciclone me limpar tudo o que tinha lá”.

O ministro dos Negócios Estrangeiros português, que esteve em Figo Maduro para receber os sete portugueses, afirmou esta segunda-feira que não há portugueses entre as vítimas mortais constantes no último balanço relativo ao ciclone Idai, acrescentando que o número de cidadãos nacionais por localizar “é inferior a dez”.

A boa notícia é que continuamos sem nenhum registo de portugueses entre as vítimas, que infelizmente, como sabem, são na ordem das centenas, registadas e confirmadas oficialmente”, disse Augusto Santos Silva à imprensa na Base Aérea de Figo Maduro, em Lisboa, antes da chegada do avião que trazia sete portugueses que residiam em Moçambique e que pediram o seu repatriamento.

O ministro dos Negócios Estrangeiros referiu que até agora não foram registadas vítimas mortais portuguesas em Moçambique ou no Zimbabué, “onde também onde também há uma comunidade portuguesa significativa”.

Segundo o balanço mais recente, a passagem do ciclone Idai por Moçambique, Maláui e Zimbabué provocou a morte a pelo menos 761 pessoas, 447 das quais em Moçambique.

Augusto Santos Silva referiu que o número de portugueses por localizar, que “tem vindo sistematicamente a diminuir”, é, atualmente, “inferior a dez”.

O chefe da diplomacia portuguesa sublinhou que as autoridades portuguesas irão continuar a trabalhar para localizar “todos aqueles cujos familiares, amigos e colegas identificaram como carecendo de ser contactados”.

Os sete portugueses que pediram auxílio ao Estado e que esta segunda-feira aterraram em Portugal constituem “todos aqueles que quiseram ser repatriados”, mas o responsável das relações externas assegurou que o Governo vai continuar a trabalhar no apoio às populações.

Nós vamos ter necessidade de apoiar as populações, agora para evitar epidemias, para proceder a apoio médico e sanitário, e depois, numa fase seguinte, tratar-se-á de ajudar, também, na reconstrução”, disse o ministro dos Negócios Estrangeiros português.

Os sete portugueses, que chegaram à Base Aérea de Figo Maduro pouco depois das 01h00, foram recebidos pelo ministro dos Negócios Estrangeiros e por equipas do Instituto Nacional de Emergência Médica de Portugal (INEM) e da Segurança Social.

De Portugal já chegaram a Moçambique dois aviões C130 e um avião comercial alugado. Ao todo chegaram seis toneladas de recursos, entre alimentos, redes mosquiteiras e material de higiene.

Na Beira, vindos de Portugal, já estão bombeiros, elementos da GNR, do Serviço Nacional de Proteção Civil, do Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM), das Forças Armadas e da EDP.

No início da próxima semana chegará à Beira o secretário de Estado da Proteção Civil.

O ciclone afetou pelo menos 2,8 milhões de pessoas nos três países africanos e a área submersa em Moçambique é de cerca de 1.300 quilómetros quadrados, segundo estimativas de organizações internacionais.

A cidade da Beira, no centro litoral de Moçambique, foi uma das mais afetadas pelo ciclone, na noite de 14 de março.

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