Durante a investigação sobre a carreira de Avy Kaufman, é fácil encontrar uma série de entrevistas online. Há poucas palavras sobre como trabalha, desenvolve pouco os seus sentimentos. Num certo sentido, é muito pragmática, as suas palavras são ótimas a dizer-nos que não tem tempo a perder. Mas há um fator que sobressai numa conversa com Avy Kaufman: a constante sensação de que ela nos está a avaliar.

Avy Kaufman é diretor de casting há trinta anos. No seu currículo aparecem filmes como “O Sexto Sentido”, “Brokeback Mountain”, “Dancer In The Dark”, “Inimigos Públicos”, “Lincoln” e uma invejável sequência de séries: “The Night Of”, “The Alienist”, “Maniac” e “OA”. Isto é só para nomear alguns, tanto trabalha com grandes produções como em produtos mais independentes e é um dos nomes mais importantes nesta profissão. Vem a Portugal para a edição 2019 do Passaporte, um encontro entre atores portugueses e diretores de casting internacionais: além de Kaufman, estarão presentes nomes como Monika Mikkelsen (diretora de casting da Paramount Pictures), Julie Schubert ou Lucy Hellier.

O Passaporte é uma iniciativa idealizada por Patrícia Vasconcelos, uma da grandes diretoras de casting nacionais, com vista à internacionalização de atores portugueses. Este ano, 10 atores foram selecionados para o evento, entre eles Maria Leite, Edgar Morais, Dinarte de Freitas, Rita Martins ou Inês Aires Pereira. O Passaporte decorre entre 9 e 12 de Maio, com um uma série de workshops. Ao telefone, Avy Kaufman foi pragmática e precisa como se esperava.

[o trailer de “Sexto Sentido”:]

O que vem fazer a Portugal? Conhecer os atores?
Sim e ter algumas sessões com atores. Nunca estive aí antes.

Mas sabe alguma coisa sobre a indústria portuguesa?
Vi alguns filmes portugueses, que gosto bastante. E conheço alguns atores.

E tem alguma expectativa de trabalhar com eles no futuro?
Alguns dos filmes em que trabalho são internacionais. E também seleciono atores internacionais para filmes norte-americanos. É sempre bom e revigorante ter nas minhas opções atores europeus. Uma vantagem de estar aí é que dá para ouvir os sotaques e perceber se conseguem fazer uma cento norte-americano, e que margem temos com isso.

Nos últimos anos tem trabalhado mais em televisão do que no passado…
Não faço mais televisão, faço a mesma quantidade de cinema e televisão…

Referia-me a fazer mais televisão agora do que no passado.
Ah, porque o mundo mudou. Existe muito material riquíssimo. Acho que o mundo mudou com a televisão. Não concorda?

Sim, claro. É por isso que estou a perguntar. Mas como é que é para si? Quando está à procura de um elenco para uma série de televisão, tem de pensar a longo prazo. Ou só pensa para uma temporada?
Sim, temos isso em conta.

E como percebeu isso?
Há pessoas que trabalham comigo que sabem mais das regras de como tudo funciona. E eu estou a aprender. Mas tenho alguns associados que já fizeram televisão e isso possibilita-me a continuar criativa.

Qual a maior dificuldade quando junta um elenco para uma série ou uma televisão?
Quando temos bom material… é difícil quando é preciso um talento específico ou um certo nível de talento. Nessas alturas, tens de ter a certeza de que é tudo equilibrado. Mas neste trabalho sabemos que nada é fácil.

[o trailer de “Brokeback Mountain”:]

Vem a Portugal conhecer atores que não conhece. O que é que procura quando conhece alguém novo. Qual é a primeira característica que procura num ator?
Olho para a situação como alguém novo na minha vida. Alguém novo em quem tenho de pensar. Para que eu me possa lembrar e o possa colocar em algum trabalho que estou a desenvolver.

Então, é como se fosse uma conversa normal?
Eu vou conhecendo as pessoas. E com o tempo tens um instinto para perceberes no que elas serão boa. Não tenho perguntas específicas para os atores.

Mas que sensação recebe de pessoas novas que a façam pensar que quer trabalhar com essa pessoa. Ou que será bom para este trabalho que irei desenvolver no futuro.
Acontece o seguinte: quando conheço um ator, lembro-me dele na próxima vez que estiver a desenvolver algo. “Aquela pessoa que conheci em Portugal seria perfeito para isto.” Não conheço alguém e projeto logo um plano.

Quais as diferenças entre trabalhar com um grande estúdio e com produções independentes?
Aqui está a diferença: um filme mais pequeno tem menos orçamento e é preciso trabalhar de forma diferente. Mas nem sempre é assim, por vezes… não consigo pensar de um exemplo para te explicar as diferenças. Obviamente que o orçamento é a grande diferença.

Como percebe que existe química entre dois atores? A experiência dá-lhe um sexto sentido?
Neste trabalho, é preciso ouvir e acreditar o teu instinto. E os realizadores e produtores vêm ter connosco na esperança que saibamos o que estamos a fazer.

Como é que sabia que era boa neste trabalho?
Foi tudo uma questão de confiança.

Mas queria fazer este trabalho ou apareceu na sua vida?
Apareceu na minha vida.

[o trailer de “Suspiria”:]

Como aconteceu?
Vim para Nova Iorque para ser uma bailarina, descobri que não iria ser. Conheci uma pessoa que trabalhava em publicidade, contrataram-me e uma coisa levou à outra. Foi mesmo assim que aconteceu.

Na primeira vez que o fez, percebeu que era boa nesta trabalho?
Sim. Ganhas mais confiança à medida que as coisas se desenvolvem.

Que memórias tem?
A primeira vez que trabalhei com o Ang Lee, por exemplo… Foi uma grande alegria para mim. Tenho trabalhado com muitos realizadores talentosos. É sempre uma grande experiência.

Quando estava a trabalhar em “O Sexto Sentido”, alguma vez pensou que o filme tivesse o sucesso que teve?
Nunca. E lutei por aquele elenco. A Tony Collette tinha vindo para uma reunião e eu contactei os produtores a dizer… ela nem tinha lido nem nada, mas percebi logo que ela iria ser fabulosa naquele papel.

Toda a informação sobre o Passaporte Lisboa’19 aqui.