Na conversa que teve com vários jornalistas no Seixal na semana passada, Bruno Lage deixou claro que a reconquista do título nacional por parte do Benfica teve início em Guimarães, em janeiro, quando os encarnados venceram os vimaranenses pela margem mínima. Mais do que isso, o treinador confidenciou aquilo que disse aos jogadores e explicou que ficou com a ideia, logo na altura, que tinha conseguido chegar a cada um dos elementos do plantel. “Na altura disse-lhes que a conquista de Portugal tinha começado ali e que a nossa reconquista também podia começar naquele sítio. Senti que ia ser o líder deles”, contou Lage. A profecia do técnico confirmou-se há semana e meia e a ideia de que foi ali que deu início à vitória na Primeira Liga confirmou-se esta quarta-feira, dia em que Rui Costa elegeu exatamente o mesmo momento como episódio fulcral na conquista do título.

Em entrevista ao Record, o diretor para o futebol do Benfica comentou a troca de treinadores a meio da temporada, escolheu os principais momentos da caminhada dos encarnados, confirmou a existência de um projeto europeu e garantiu que João Félix só sai este verão pelos 120 milhões da cláusula. “Em Guimarães, o Bruno Lage foi taxativo numa conversa com os jogadores: ‘Aqui nasceu Portugal, aqui começa a nossa caminhada para o título’. Os jogadores acreditaram em tudo, nas palavras, nos métodos de trabalho e nas ideias que foi defendendo. Posso até fazer uma confidência: eu próprio saí daquele balneário convencidíssimo de que tínhamos então todas as condições para lá chegar”, afirmou Rui Costa, corroborando a ideia passada por Lage de que a reviravolta na classificação começou em Guimarães e no balneário do D. Afonso Henriques.

“Se a ganhar permitir tudo, quando perder também vêm cá partir tudo”. Lage sobre Félix, a promessa a Jonas e a pedagogia

Puxando um pouco o filme atrás, Rui Costa não confirma nem desmente que existiram outras possibilidades para o comando técnico do Benfica depois da saída de Rui Vitória — limita-se a referir que nesse espaço de tempo falou-se de “muita coisa, muitas imprecisões, incorreções e até falsidades” — e garante que a direção encarnada depositou sempre “grande confiança” em Bruno Lage. “O único fator que alimentava dúvidas não era a qualidade que o Bruno demonstrara ao longo destes anos na nossa formação, era se estava pronto para liderar uma equipa profissional, o que fazia pela primeira vez”, ressalva o dirigente, esclarecendo depois que o treinador “superou as expectativas” e confidenciando que o clube não esperava que “estivesse tão pronto como se mostrou para fazer este trabalho excelente”. “Quer as pessoas acreditem ou não, o Bruno convenceu-nos no primeiro dia, porque ficou logo vincado o que podia fazer. O primeiro discurso à equipa, o primeiro treino e a forma como os jogadores reagiram foram impressionantes. Não restavam dúvidas: ele era o líder de que todos precisavam”, acrescentou Rui Costa.

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Ainda assim, o dirigente encarnado assume que mostrou algumas dúvidas em Istambul, quando o Benfica visitou o Galatasaray em jogo a contar para a primeira mão dos 16 avos de final da Liga Europa. Bruno Lage elaborou um onze inicial que integrava Rúben Dias, Ferro, Yuri Ribeiro, Florentino, Gedson e João Félix e Rui Costa não esconde que questionou o treinador sobre a inexperiência de grande parte dos jogadores titulares. “Antes do jogo apercebi-me de qual era a equipa e perguntei-lhe se estava cómodo com as opções. Todos acreditávamos nele, sem reservas. Mas também faz parte do nosso trabalho assumir o papel de advogado do Diabo e tentar perceber se ele estava cómodo. Perguntei: ‘Achas que está toda a gente pronta?’. Estava preocupado com a possibilidade de os miúdos não estarem preparados e até que pudessem ser prejudicados com a opção. Muito sereno mas também muito seguro, respondeu: ‘Calma. Vai correr tudo bem e toda a gente vai ficar contente'”, recordou Rui Costa. O destino encarregou-se de dar razão a Bruno Lage, já que o Benfica venceu por 1-2 e conquistou a primeira vitória de sempre do clube na Turquia.

O dirigente encarnado garante que João Félix faz parte do projeto europeu do Benfica

Na entrevista, Rui Costa realça ainda o facto de o Benfica ter sido campeão nacional com uma equipa com grande peso da formação e garante que essa é a base do objetivo a longo prazo do clube: ganhar a Liga dos Campeões. “O projeto do clube é esse. O presidente já o anunciou e é um objetivo em construção. Tudo iremos fazer para manter os nossos melhores jogadores, cientes de que estamos num momento muito bom, graças à liderança de Luís Filipe Vieira e aos trabalho das estruturas compostos por grandes profissionais”, explica, concluindo depois que João Félix faz parte desse projeto europeu do Benfica — até porque “tem contrato até 2023 e uma cláusula de 120 milhões, se não for por esse valor, nem se põe em causa”. “O João representa o talento, a qualidade mas ao mesmo tempo o compromisso e o respeito. Para nós é um enorme orgulho que tenha sido formado aqui e esteja entre nós. Tem muito para dar ao futebol mundial mas, antes, ainda tem muito para dar ao futebol português e ao Benfica. Faz parte do projeto europeu que estamos a tentar construir”, garante o dirigente encarnado.

Rui Costa sublinhou ainda a importância de Rui Vitória enquanto “pilar desta nova fornada de novos talentos” e que o treinador acabou por sair porque existiam “poucos sinais de retoma”, defendeu que “o esforço” de Jonas “para estar sempre presente foi extraordinário e, em certos momentos, comovente” e que as pessoas “não se aperceberam bem” da importância do brasileiro no balneário e explicou que o próprio clube tentou “evitar” que o casos dos emails entrasse no balneário e que o assunto “revoltou os jogadores, que se indignaram com a subvalorização do que lhes custou tanto trabalho”.