O ex-administrador da Caixa Geral de Depósitos (CGD) Armando Vara, que está detido desde janeiro, vai ser ouvido esta sexta-feira na segunda comissão parlamentar de inquérito à recapitalização e gestão do banco, depois dos deputados terem recusado o seu pedido para não comparecer no parlamento.

Em 7 de junho foi dada a conhecer uma carta dos representantes de Armando Vara, que está preso em Évora, em que pedia para não comparecer na comissão parlamentar de inquérito ao banco público, invocando “a situação em que se encontra” e falta de acesso a informação.

“Não pode o exponente deixar de invocar a situação em que se encontra, a qual é do conhecimento público, e de que resulta a sua impossibilidade de acesso a qualquer tipo de informação desde há cinco meses”, podia ler-se na carta dos advogados de Armando Vara enviada à comissão, a que a Lusa teve acesso.

Armando Vara também invocou “a óbvia penosidade, quer física, quer emocional, que a sua deslocação ao parlamento acarretará”, podia ler-se na missiva, bem como o facto de já ter comparecido na anterior comissão parlamentar de inquérito à CGD e ainda estarem a decorrer investigações à gestão do banco “relativos ao período em que o exponente foi administrador daquela instituição”.

No entanto, o pedido de Armando Vara não foi acolhido pelos deputados, o que obrigará a uma deslocação pessoal ao parlamento e não permitirá uma resposta por escrito.

Na terça-feira, o presidente da comissão parlamentar, Luís Leite Ramos (PSD), disse que os serviços da comissão de inquérito analisaram o pedido de Armando Vara e lembrou que, tal como Joaquim Barroca, na qualidade de arguido o ex-gestor poderá invocar o segredo de justiça e remeter-se ao silêncio.

Para além de ser ex-administrador do banco público, Armando Vara está implicado na Operação Marquês, no âmbito do processo de concessão de crédito ao empreendimento de Vale do Lobo, sustentando a acusação do Ministério Público que Vara terá recebido um milhão de euros para favorecer as condições do crédito ao resort.

Em 16 de abril, na sua audição na comissão parlamentar, o antigo diretor de empresas sul da CGD Alexandre Santos disse que recebeu um e-mail de Vara para avaliar o projeto. “Como é público recebi um email do administrador do pelouro à data [Armando Vara] para estudar o dossier, remeti o dossier para estudo da área comercial onde estava o financiamento”, disse. Alexandre Santos disse ainda que “percentualmente, face aos pedidos de financiamento, financiamentos que entram por via dos senhores administradores são ínfimos, comparando com o que é normal, que é serem pela via local, do cliente”.

Armando Vara — que se encontra detido desde janeiro deste ano após condenação no processo Face Oculta – foi nomeado administrador da Caixa Geral de Depósitos em 2006, para a equipa presidida por Carlos Santos Ferreira, tendo ambos depois transitado para o BCP em 2008.

O também ex-ministro Adjunto e da Juventude e Desporto do segundo governo de António Guterres é um dos 28 arguidos da Operação Marquês.

Dos arguidos deste processo, foram já ouvidos na comissão parlamentar de inquérito à CGD Joaquim Barroca (ex-administrador do grupo Lena) e Diogo Gaspar Ferreira (ex-administrador de Vale do Lobo).

Em 29 de maio foi dado a conhecer que o ex-primeiro-ministro José Sócrates, também arguido na Operação Marquês, responderá por escrito às questões dos deputados da comissão.

Na Operação Marquês estão também envolvidos Ricardo Salgado, Carlos Santos Silva, Henrique Granadeiro, Zeinal Bava, Bárbara Vara (filha de Armando Vara), Helder Bataglia, Rui Mão de Ferro e Gonçalo Ferreira, empresas do grupo Lena (Lena SGPS, LEC SGPS e LEC SA) e a sociedade Vale do Lobo Resort Turísticos de Luxo.