O anúncio de uma conferência de imprensa para as 16 horas locais (menos uma em Portugal) foi uma grande surpresa. O nome de Luis Rubiales, presidente da Real Federação Espanhola de Futebol, até podia representar um assunto extra desportivo – o seu nome apareceu de forma indireta no âmbito da Operação Oikos, por alegadamente ter concedido de forma ilegal um campo ao Huesca. A presença também do diretor desportivo, o antigo guarda-redes de Atl. Madrid e Deportivo, José António Molina, já mudava o caso de figura. E aquilo que muitos apontavam como inevitável aconteceu: Luis Enrique está de saída.

Contratado no final do Campeonato do Mundo de 2018, no seguimento da atribulada saída de Julen Lopetegui que colocou Hierro como técnico interino durante a competição, Luis Enrique, que antes tinha passado por Barcelona B, Roma, Celta de Vigo e Barcelona, fez sete jogos entre Liga das Nações e particulares, com cinco vitórias e duas derrotas – falhando na última ronda a qualificação para a Final Four da nova competição da UEFA conquistada por Portugal, no Porto. Em março de 2019, sem mais detalhes e apenas com a explicação de “motivos de força maior”, o técnico afastou-se do trabalho direto com a equipa apesar de ir monitorizando treinos e jogos a partir de casa, ficando Robert Moreno como treinador de campo.

De acordo com a imprensa espanhola, que avançou o cenário ainda antes do início da conferência de imprensa, foi o próprio Luis Enrique que, em conversa com Rubiales, terá pedido para se afastar em definitivo dos trabalhos da seleção para se focar de forma exclusiva à situação pessoal difícil que atravessa – e que, quase três meses depois, nunca foi tornada pública, por respeito ao técnico. Moreno, adjunto, ficará agora no comando da equipa face a uma saída que surge menos de um ano depois. A Federação manteve-se sempre ao lado do selecionador, permitindo que gerisse a questão como fosse mais conveniente.

“Portou-se de uma forma nota 10 com a Federação. Aprendemos muito com ele, continuamos juntos com ele e já lhe disse que terá sempre a porta da Federação aberta. Esta equipa técnica mostrou honestidade, trabalho, capacidade. Queremos esta equipa. Por uma questão familiar, Luis Enrique teve de sair e decidimos confiar no Robert [Moreno] para prosseguir esse trajeto. O objetivo passa por conseguir a qualificação para o Campeonato da Europa e fazer uma boa campanha. Estamos convencidos que é a melhor solução para todos”, explicou Luis Rubiales no arranque da conferência. “É um dia agridoce, mais amargo do que doce. Sonhava chegar um dia aqui como número 1 mas nunca desta forma. O trabalho que o Luis fez é para continuar e queremos ganhar o próximo europeu”, comentou Moreno, antes do início do período de perguntas e respostas.

Rubiales explicou ainda que, antes da conferência, contactou todos os capitães para que todas as partes se pudessem ajudar numa fase complicada e que “começou numa nova etapa” na seleção. Já Moreno falou numa notícia que foi recebida “com tristeza e responsabilidade”: “Desde os 14 anos que sempre coloquei na cabeça que chegaria aqui, nunca pensei nem queria que fosse assim. O Luis [Enrique] respeita muito todos os códigos do futebol mas se tiver alguma dúvida com ele, sim, vou falar com ele. Estivemos nove anos juntos, aprendi tudo com ele mas sabendo que agora sou eu o número 1”.

Nascido em Barcelona e com 40 anos, Robert Moreno, que se formou em Comércio e Relações Internacionais, começou por estar mais ligado à parte do scouting antes de integrar a equipa técnica de Luis Enrique como adjunto na Roma, no Celta de Vigo, no Barcelona e na seleção ao longo de nove anos. Depois da ausência do técnico no banco, Moreno comandou a equipa em três jogos da qualificação para o Campeonato da Europa de 2020, com triunfos frente a Malta (2-0), Ilhas Faroé (4-1) e Suécia (3-0). “As pessoas felicitavam-me mas não havia nada que felicitar. É o pior dia da minha carreira, espero que não se repita. Tinha que ser o mais profissional possível, transmitir o mesmo que Luis Enrique. Não fui Robert Moreno, fui um representante de Luis Enrique. Tinha de ser uma extensão dele. Não foi fácil meter os jogadores no jogo mas acontecimentos destes tornam o grupo mais forte. Queríamos todos fazer bem as coisas para que ele pudesse ver desde casa”, comentou após o jogo com Malta.

“Devido aos motivos que me impediram de desenvolver com normalidade as minhas funções como selecionador desde o passado mês de março e que continuam no dia de hoje, decidi deixar o cargo. Quero agradecer a todos os responsáveis da Real Federação Espanhola de Futebol pela confiança e compreensão mostradas. Quero agradecer especialmente a todas as pessoas que formam parte do staff e aos jogadores pelo seu profissionalismo, sem esquecer-me dos meios de comunicação social por toda a vossa discrição e respeito pela situação”, resumiu Luis Enrique em comunicado.