O líder da concelhia do PSD de Lisboa, Paulo Ribeiro, demitiu-se esta segunda-feira à noite devido a divergências sobre os nomes a indicar pelo PSD/Lisboa para as listas de deputados à Assembleia da República. A informação foi confirmada ao Observador pelo próprio Paulo Ribeiro que remeteu a justificação para mais tarde. Os problemas com as listas de deputados também estão na origem de outra guerra, desta vez entre a direção do partido e a distrital de Lisboa – que já tem data marcada para ir a votos, 9 de novembro.

Segundo o que Observador apurou, junto de fontes presentes na reunião do PSD/Lisboa, o que provocou a queda do presidente da concelhia foi um desentendimento com um antigo apoiante de Ribeiro na frente anti-Gonçalves nas últimas eleições para a concelhia: Luís Newton. Ribeiro perdeu, Newton ganhou.

Segundo o calendário eleitoral definido por Rui Rio, as concelhias tinham até esta segunda-feira para apontar nomes, que serão depois aprovados (ou chumbados) nas reuniões da distrital. Paulo Ribeiro queria que seguisse uma lista vasta de nomes (no mínimo quatro, mas podiam ser seis) e que se considerasse para a decisão todos os atuais deputados que são militantes na concelhia de Lisboa que se demonstrassem disponíveis para continuar (caso de Inês Domingos, Matos Rosa, Joana Barata Lopes e Nilza de Sena). Já Luís Newton queria que seguissem apenas dois nomes e levou a melhor.

Paulo Ribeiro liderava a concelhia desde janeiro de 2018 (as eleições foram no mesmo dia das diretas), mas a sua direção era aquilo a que se costuma chamar um “saco de gatos”, neste caso da frente anti-Rodrigo Gonçalves – várias fações de Lisboa tiveram que se unir para derrotar aquele que é considerado um dos maiores caciques de Lisboa. E isso teve custos.

Paulo Ribeiro tornou-se líder da concelhia, mas Newton conseguiu manter vários soldados na direção (incluindo a sua protegida Mafalda Cambeta) e na reunião desta segunda-feira à noite fez valer a sua influência. Conseguiu impor a escolha de apenas duas pessoas e houve quatro nomes lançados para a mesa e submetidos a votação: Rogério Jóia (antigo candidato a vereador na lista de Leal Coelho), Maria Emília Apolinário (militante histórica de Lisboa e apoiante de Rio), Joana Barata Lopes (atual deputada e antiga presidente da JSD/Lisboa) e Joana Monteiro, uma escolha de Newton e um nome desconhecido para vários dirigentes e militantes do PSD/Lisboa ouvidos pelo Observador.

Os nomes foram depois votados e passaram os dois que Newton queria: Rogério Jóia e Joana Monteiro. O presidente da junta de freguesia da Estrela só o conseguiu com a ajuda dos votos da fação afeta a Paulo Quadrado (núcleo oriental), que é também avençado na bancada do PSD na Assembleia Municipal de Lisboa (AML), liderada por Luís Newton.

Quanto ao nome de Joana Monteiro — que a maioria dos presentes desconhecia — foi colocado em cima da mesa por Carlos Martins, membro da comissão política concelhia e também avençado no gabinete de apoio à bancada do PSD na AML. O Observador tentou contactar Luís Newton, mas não foi possível até ao momento da publicação deste artigo.

De 25 de junho a 1 de julho vão decorrer as comissões políticas distritais que vão aprovar os nomes que serão depois propostos formalmente à Comissão Política Nacional.

Eleições na distrital de Lisboa a 9 de novembro

A demissão de Paulo Ribeiro é vista no núcleo próximo de Rui Rio como a prova de que há um problema mais vasto que afeta não só a concelhia como toda a distrital, também por causa dos nomes nas listas a deputados. Ao Observador, um dos conselheiros próximos de Rui Rio diz que o líder da distrital, Pedro Pinto, quer impôr Miguel Pinto Luz (atual número dois da Câmara de Cascais e ex-presidente da distrital) como o primeiro nome para deputado em Lisboa. Uma informação que Pedro Pinto não quis confirmar: “Tenho muitos nomes na cabeça, mas não me pronuncio sobre nenhum”, diz ao Observador.

O homem forte daquela que é a segunda maior distrital do país é um nome que nunca alinhou com a atual direção. Foi apoiante de Passos Coelho, de quem chegou a ser vice-presidente, apoiou Santana Lopes nas diretas que elegeram Rui Rio e ainda recentemente esteve ao lado de Luís Montenegro, mais uma vez contra Rio. E recusou-se a assinar um manifesto assinado pelas outras distritais, de apoio à direção.

Pedro Pinto termina o mandato a 1 de julho e tinha, por isso, de convocar eleições. Mas mesmo aí houve tensão com a direção do partido. Rio tinha pedido que se evitassem as disputas internas antes das legislativas, mas Pedro Pinto chegava a admitir em maio, à Visão, que talvez marcasse eleições depois das europeias, à revelia da indicação que vinha da São Caetano à Lapa.

Acabou por não ir em frente com a provocação e, como explica ao Observador, decidiu “aceder à indicação dada pela Direção de só convocar eleições depois das legislativas”. E a data ficou fechada: 9 de novembro. Pinto faz questão de sublinhar que a decisão seria sempre sua, mas que assim não só se cumpre a “deliberação da direção, como se cumprem os estatutos que obrigam a uma antecedência mínima na convocação das eleições”.

Esta sintonia de vontades, contudo, é apenas aparente. Entre os próximos de Rio há a convicção de que foi a insistência – e a alegada falta de apoio – no nome de Pinto Luz que forçou Pedro Pinto a marcar já a data das eleições. Lêem neste gesto um sinal de que o líder da distrital está a ficar sem condições políticas para impôr a sua vontade.

Pedro Pinto tem outra explicação, mais irónica, para a convocação das eleições: “Assim têm muito tempo para pensar nos nomes que querem para concorrer à distrital”. E uma recandidatura? Ao Observador, o ainda líder da distrital admite estar a pensar nessa hipótese mas diz que ainda é cedo: “Depois das legislativas tomarei uma decisão”.

Artigo atualizado às 11h58 de terça-feira com mais detalhes sobre o método de votação das indicações de candidatos a deputados.