O primeiro-ministro, António Costa, esteve nesta quinta-feira, enquanto leitor, à conversa com o escritor colombiano Juan Gabriel Vásquez, em Lisboa, a quem confessou que na política a melhor maneira de escapar do dia-a-dia é lendo romances.

A conversa do leitor António Costa com o escritor Juan Gabriel Vásquez, cuja obra conheceu por recomendação do funcionário de uma livraria em Cartagena das Índias, como recordou, decorreu na Casa da América Latina, ao final da tarde, logo após o final da reunião do Conselho de Estado.

O escritor começou por querer saber qual é para António Costa “a relação que pode haver entre política e literatura”.

O primeiro-ministro, lembrando que começou a ler “muito antes de ser político”, contou que quem anda na política tem “sempre de se libertar do quotidiano, do dia-a-dia, da realidade” e que “a melhor maneira de o fazer é pelos romances”. “Senão, ficamos escravos da realidade”, disse.

Fã assumido da literatura latino-americana, que “tem sempre uma forte tendência de misturar realidade e ficção”, António Costa sublinhou que “a leitura é algo muito importante na formação das pessoas”.

Na literatura latino-americana, António Costa destacou “a importância da memória na construção da ficção sobre a realidade”, com Juan Gabriel Vásquez, que tem três obras traduzidas para português, a referir que “nos romances recordam-se coisas que não se recordam de outra maneira” e que um dos pilares da sua escrita é que “o passado na realidade não é passado”, mas antes “uma dimensão do presente”.

“O romance sempre foi um lugar de memória, tratamos de recuperar o passado, o que nos formou como cidadãos e países através do ato de contar uma história. Estamos num mundo em que muitas forças querem esquecer, para esconder algo. Na América Latina, a literatura existiu sempre para impedir que se esqueçam as coisas importantes”, defendeu.

Para o escritor, em países como a Colômbia, “o passado acompanha-nos todos os dias”. “Ao implementar-se um processo de paz, a Colômbia está a recordar o que foram 50 anos de guerra”, afirmou.

Durante a conversa, os dois falaram sobre dois Nobel da Literatura, um colombiano e um português: Gabriel García Márquez e José Saramago.

Juan Gabriel Vásquez quis saber qual é a relação de António Costa com o escritor colombiano que lhe “meteu na cabeça a ideia de ser escritor” e com o escritor português, de quem é “grande leitor”.

Para o primeiro-ministro português, García Márquez existiu na sua vida desde sempre. “Quando comecei a ler, o livro de García Márquez já estava na biblioteca dos meus pais. Sempre ouvi falar nele e um dia li. Foi algo mágico”, partilhou, referindo que leu “quase tudo o que ele escreveu” e destacando Cem Anos de Solidão, uma obra “tão poderosa, um marco na literatura mundial”.

Sobre Saramago, António Costa disse que conheceu o escritor na vida política e só depois chegou aos seus livros.

O primeiro-ministro recordou também a altura em que era presidente da Câmara de Lisboa e que “fez tudo” para que a Fundação do Nobel da Literatura fosse para a cidade e não ficasse em Lanzarote, Espanha, e como isso ter acontecido foi, “de algum modo, a reconciliação de José Saramago com o país [Portugal]”.

Os dois falaram também sobre a situação atual na Colômbia, com Juan Gabriel Vásquez a defender os acordos de paz, mesmo que impliquem fazer cedências aos guerrilheiros.

“Creio que como país a nossa obrigação moral é evitar o sofrimento desnecessário dos colombianos. Quando se decretou o cessar-fogo houve uns meses, um ano, em que na Colômbia deixou de morrer gente. É o que temos de tentar, isso é o que justifica os acordos. Temos de roubar à guerra as vítimas futuras e isso justifica essa negociação”, afirmou.

António Costa contou ao escritor que acompanhou as negociações e que Juan Manuel Santos (ex-Presidente da Colômbia) “fez algo extraordinário ao tentar sentar toda a gente à mesma mesa e tentar um acordo”.

“Depois e 50 anos de guerra não é possível fazer um bom acordo para todos, isso não existe”, referiu o primeiro-ministro português defendendo que “todos os acordos de paz têm uma missão de valorizar a memória coletiva e permitir o perdão”.

Costa defendeu então que não existiria a democracia que existe hoje em Portugal “se não houvesse um perdão coletivo do que se passou durante a ditadura e nos dois anos da revolução”.

“Foi isso que permitiu a reconciliação”, disse, admitindo: “Claro que houve coisas terríveis”.

“Não devemos esquecer, é importante recordar. Estamos a fazer o museu da resistência, é importante para manter a memória, mas também tem de haver perdão”, acrescentou.