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Greve dos motoristas. Como o país se está a preparar para a falta de combustíveis

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Regulador dos combustíveis monitorizará preços “nas próximas semanas” e a APETRO garante não haver falta de combustível nos postos de abastecimento. Acompanhe aqui medidas das empresas.

O Governo e o sindicatos dos motoristas convocaram a greve para a próxima segunda-feira, dia 12 de agosto

JOSÉ SENA GOULÃO/LUSA

*Este artigo vai estar em permanente atualização até à greve de dia 12.

O Governo e o sindicatos dos motoristas convocaram a greve para a próxima segunda-feira, dia 12 de agosto. Enquanto as conversas entre os sindicatos e os governantes não chegam a uma conclusão, vários setores deram conta dos preparativos em curso para minimizar os eventuais impactos.

O Aeroporto de Lisboa, gerido pela ANA, declarou que não vai cessar as operações. Já a Transtejo e a Soflusa, concessionárias dos transportes fluviais na região de Lisboa, disseram que têm combustível suficiente para cinco dias de paralisação. As associações agrícolas apresentaram estimativas de prejuízos (que estimam poder chegar aos 21 milhões de euros) e as Seguradoras de transportes manifestaram preocupação com a possibilidade de não entrarem nos serviços mínimos para atenderem colisões e perturbações nas vias.

Suinicultores alertam para “catástrofe” nas explorações caso falte ração

A federação de associações de suinicultores alertou que a greve dos motoristas pode provocar “uma catástrofe” nas explorações, se a alimentação animal não for assegurada, e afetar o processo de exportação de porcos para a China.

“Vemos esta greve com muita preocupação, na medida em que [o stock] das fábricas de rações é relativamente reduzido. Apesar de percebermos que o despacho garante que nos serviços mínimos está incluído o transporte de alimentos e até o de animais vivos, é necessário que este acautele a chegada de matéria-prima às fábricas”, afirmou, em declarações à Lusa, o vice-presidente da Federação Portuguesa das Associações de Suinicultores (FPAS), David Neves.

Apesar de defender ser “prematuro” fazer uma estimativa do prejuízo que a paralisação dos motoristas, com início previsto para segunda-feira, poderá ter para o setor, este responsável indicou que o abate semanal de porcos corresponde a cerca de 12 milhões de euros.

No entanto, “o que nos preocupa e bastante é o impacto que isto poderá ter se os animais estiverem a passar fome. Poderemos estar perante uma catástrofe muito grande nas explorações”, alertou.

Por sua vez, no que se refere aos serviços mínimos decretados pelo Governo, David Neves defendeu que “tudo o que tem a ver com a alimentação animal não é excessivo”, uma vez que em causa está “a sobrevivência e o bem estar dos animais”.

O vice-presidente da FPAS lembrou ainda que, quando se reduz a alimentação aos porcos, estes entram em “stress” que, por sua vez, provoca “lesões, muitas vezes, irreparáveis”.

Paralelamente, esta greve pode ainda afetar o processo de exportação de porcos para a China, fazendo com que não sejam cumpridos alguns prazos, previamente acordados, penalizando a economia portuguesa.

“Esperamos que haja bom senso. Há um conjunto de circunstâncias, de um lado e de outro, que devem pesar, independentemente do direito à greve”, concluiu.

Regulador dos combustíveis monitorizará preços “nas próximas semanas”

A Entidade Nacional para o Setor Energético (ENSE), supervisor do setor petrolífero, vai monitorizar “de forma aprofundada” a “evolução dos preços” dos combustíveis nas próximas semanas devido à possível greve dos motoristas, foi divulgado esta terça-feira.

De acordo com um comunicado da ENSE no seu site oficial, o regulador informa que “no âmbito das suas funções de fiscalização e supervisão do setor petrolífero nacional, nas próximas semanas efetuará a monitorização de forma aprofundada da evolução dos preços médios de venda ao público dos combustíveis rodoviários registados junto do balcão único”.

O regulador do setor petrolífero acrescenta que toma esta medida “tendo em conta o pré-aviso de greve, que prevê a paralisação dos motoristas (…) a partir do dia 12 de agosto”.

“Esta realidade não pode fundamentar, por si só, o aumento dos preços dos combustíveis, sendo exigível, por parte da ENSE, o especial acompanhamento sobre a evolução deste importante indicador para os consumidores”, considera o regulador.

A ENSE adianta que “nesse sentido (…) procederá, adicionalmente, à monitorização dos preços médios por distrito e uma avaliação diária dos preços praticados pelos postos de Portugal continental”.

O regulador vai ainda identificar no seu site os “postos de abastecimento que procedem ao aumento de preços, sem qualquer justificação que não sejam as condições de mercado”.

A ENSE considera que se for decretada a crise energética, “tal implica a implementação de condições excecionais para abastecimento dos postos de combustível em território nacional”.

APETRO garante não haver falta de combustível nos postos de abastecimento

A Associação Portuguesa de Empresas Petrolíferas (Apetro) afirmou nesta terça-feira que “é verdade e é notória” uma maior afluência aos postos de abastecimento em Portugal, mas garantiu que “não há razão para alarme”, pois “não há falta” de combustível.

“Não há postos de abastecimento, que pertençam aos nossos associados, que estejam sem combustível”, garantiu à agência Lusa João Reis, assessor para a Comunicação da Apetro, adiantando que “há sim uma maior afluência” e isso “é notório e verdade”, mas “não há razão para alarme”.

E prosseguiu: “Do lado da procura, para minimizar os efeitos da greve dos camionistas, quaisquer que sejam os setores, e para que as perturbações sejam mínimas, estão a ser mantidos os ‘stocks’ no máximo e as empresas petrolíferas estão a fazer o planeamento dos postos de combustíveis [da rede dos associados da Apetro]”.

Neste período de férias, os postos de combustíveis no país, por exemplo no Algarve, “estão a vender mais”, pelo que “há um maior reforço” do abastecimento na região, explicou o responsável à Lusa, lembrando que em Lisboa se poderá “vender menos”, ou seja, nesta altura do ano existe “um fluxo migratório e sazonal normal”.

Do lado da oferta, “está-se a vender um pouco acima do normal, mas há um maior reforço do abastecimento. Que saibamos, não há rutura de ‘stocks’”.

A logística e distribuição na área dos combustíveis “é atualmente ajudada pela indicação dos ‘stocks’ nos postos de combustíveis”, disse à Lusa José Reis, adiantando que, para já, na situação que se vai viver até dia 12 de agosto, data do início do pré-aviso da greve dos motoristas das matérias perigosas não se esperam “razões para alarme”.

O ministro das Infraestruturas, Pedro Nuno Santos, por sua vez, disse esta terça-feira que a greve dos motoristas ainda pode ser desconvocada e que, se os sindicatos “não querem efetivamente a greve”, devem recorrer ao mecanismo de mediação, em que o Governo apresenta uma proposta de convenção coletiva de trabalho.

No entanto, reiterou o ministro, e apesar de acreditar que ainda há tempo para cancelar a paralisação com início marcado para 12 de agosto, o Governo continua “a trabalhar para o cenário de greve”.

CTT têm preparado plano de contingência interno para assegurar distribuição postal

Os CTT “têm preparado um plano de contingência interno” para assegurar a atividade de distribuição postal caso avance a greve dos motoristas na próxima segunda-feira, disse à Lusa fonte oficial dos Correios de Portugal.

Questionada pela Lusa sobre que medidas é que os CTT estão a tomar para minimizar eventuais impactos da greve, fonte oficial afirmou que, “procurando minimizar qualquer incómodo que a paralisação em causa possa causar aos clientes”, os Correios de Portugal “têm preparado um plano de contingência interno, adequado às necessidades da frota e que assegure a atividade de distribuição postal”.

Empresas privadas de águas e resíduos querem inclusão em rede prioritária

As empresas privadas do setor de abastecimento de água e saneamento e resíduos reivindicaram esta terça-feira a inclusão numa rede prioritária de abastecimento em caso de greve das empresas de transporte de combustíveis.

Num comunicado, a Associação das Empresas Portuguesas para o Setor do Ambiente (AEPSA) diz que é imperativo que os serviços de fornecimento de água (abastecimento e saneamento de águas residuais) e de recolha, tratamento e valorização de resíduos sólidos urbanos sejam integrados na rede prioritária de abastecimento.

A falha destes serviços é “uma séria questão de saúde pública”, avisa a associação.

Sindicatos de motoristas de combustíveis marcaram uma greve por tempo indeterminado a partir de dia 12, o que pode provocar perturbações no abastecimento de combustíveis. Há, no entanto, uma rede prioritária de abastecimento definida pelo Governo, que inclui por exemplo forças de segurança e serviços de saúde.

A AEPSA alerta no comunicado para as graves consequências da falta de acesso a combustíveis das empresas associadas, que “asseguram serviços públicos essenciais”, quer no ciclo urbano da água quer no setor do lixo.

A AEPSA diz ainda que desde dia 19 de julho que salienta junto do Governo a necessidade da inclusão das empresas na rede prioritária de abastecimento, mas até agora não teve uma resposta conclusiva. Por isso a associação “manifesta a sua extrema preocupação e solicita uma resposta política urgente”.

É que, justifica a associação no comunicado, apesar de as empresas estarem a precaver-se, os mecanismos e planos de contingência não são suficientes para assegurar os serviços.

“Na época de verão, com o acréscimo da sazonalidade turística e com o aumento da temperatura, a premência de um sistema eficiente de recolha de resíduos é absolutamente vital para garantir a boa qualidade de vida dos cidadãos, proteger a saúde pública e o ambiente”, diz-se no documento.

Eduardo Marques, presidente da AEPSA, acrescenta, citado no comunicado, ser inadmissível que os operadores privados dos dois setores não estejam incluídos na rede prioritária.

A AEPSA integra quase meia centena de empresas de todo o país que asseguram serviços de água e saneamento a 20% da população portuguesa e serviços de recolha e tratamento de resíduos a 17% da população.

Seguradores preocupados com a assistência em estrada durante a greve

A Associação Portuguesa de Seguradores (APS) manifestou nesta segunda-feira, em comunicado, “preocupação pela perturbação” à assistência em estrada a veículos e pessoas durante a possível greve.

De acordo com o comunicado da APS, a preocupação dos seguradores está relacionada com a “perturbação” que a greve pode causar na atividade “no que respeita à prestação de assistência a veículos e a pessoas, nomeadamente em caso de acidente ou avaria, devido à falta de combustível dos veículos rebocadores e dos veículos de transporte de pessoas que necessitam de assistência”.

No mesmo comunicado, a APS informa que vai solicitar ao Governo “que confira aos veículos de reboques/pronto-socorro o estatuto de veículos prioritários no acesso ao combustível durante aquele período”, caso a greve avance.

Este pedido deve-se a um possível “delicado cenário de acumulação de veículos imobilizados nas bermas ou na própria via das autoestradas e estradas nacionais e municipais”, segundo a APS.

“A manter-se a greve, as empresas de seguros lamentam o sucedido e pedem a especial compreensão dos seus clientes para esta situação de força maior com que se veem confrontadas e relativamente à qual são completamente alheias”.

No entanto, e dado o processo negocial em curso, a APS apela “às partes envolvidas que consigam ultrapassar este diferendo pela via do diálogo”.

Tanques da Transtejo e Soflusa asseguram serviço por cinco dias

A administração da Transtejo e Soflusa informou que os tanques de combustível das empresas apenas asseguram o transporte fluvial por cinco dias, mas dispõe de um plano de contingência caso a greve dos motoristas se concretize.

Numa resposta escrita enviada à agência Lusa, a administração das duas empresas esclareceu que “tem mantido os seus tanques totalmente abastecidos”, cuja capacidade garante a prestação do serviço de transporte fluvial no Tejo “durante cerca de cinco dias úteis”.

Ainda assim, os passageiros não devem sair prejudicados porque a Transtejo e a Soflusa garantem que “têm preparado um plano de contingência”, que será ativado se a greve dos motoristas de matérias perigosas se efetuar.

A administração não revelou, no entanto, se o abastecimento será efetuado por via marítima, como aconteceu na última paralisação destes profissionais, iniciada em 15 de abril.

Nessa ocasião, a greve causou a falta de combustível em vários postos de abastecimento em todo o país e os tanques da Transtejo e Soflusa acabaram mesmo por esgotar, levando a administração a acionar o plano de contingência para assegurar a normalidade do serviço.

A Transtejo assegura as ligações fluviais entre o Seixal, Montijo, Cacilhas e Trafaria/Porto Brandão, em Almada (distrito de Setúbal), a Lisboa, enquanto a Soflusa é responsável por fazer a ligação entre o Barreiro e Lisboa.

Portugal Fresh aponta prejuízos diários diretos de 21 milhões de impacto da greve dos motoristas

A Portugal Fresh, associação para a promoção das frutas, legumes e flores, estimou um prejuízo diário direto de 21 milhões de euros com a greve dos motoristas.

Em comunicado, a Portugal Fresh salienta que “a greve dos motoristas terá um impacto muito negativo para o setor e para a economia” portuguesa, “afetando drasticamente as suas exportações”. A entidade sublinha que o setor, que registou um volume de negócios de 2.790 milhões de euros, exportando mais de 1.500 milhões em 2018, “teme que o crescimento dos últimos anos possa estagnar ou regredir”.

“O mês de agosto é de capital importância devido a concentração de pico de colheitas. Este mês tem um peso estimado de 23% no valor da produção nacional” de frutas, legumes e flores, refere o presidente da associação, Gonçalo Santos Andrade, citado no comunicado.

“Estimamos um prejuízo diário direto de 21 milhões de euros que pode crescer substancialmente se a paralisação se prolongar”, salienta, apontando que se a paralisação se prolongar por mais de quatro a cinco dias “muitas áreas de produção terão de ser abandonadas e alguns cliente chave serão perdidos, já que a geografia de produção nacional será substituída por outras geografias produtoras”.
Caso tal aconteça, o prejuízo poderá atingir 350 milhões de euros em cinco dias e irá colocar em risco os empregos.

Por isso, associação defende que é urgente tomar “medidas vigorosas que viabilizem o normal funcionamento das atividades de colheita, processamento e transporte, garantindo a liberdade de trabalhar para quem o queira fazer sem constrangimentos ou pressões por parte daqueles que, no exercício dos seus direitos, eventualmente venham a insistir em fazer greve”.

O setor defende que “tem de existir uma estratégia prioritária para o setor agrícola”.

ANA garante que aeroportos vão ter combustível durante greve dos motoristas

Segundo garantiu ao Jornal de Negócios, a ANA — Aeroportos de Portugal e a Associação Portuguesa de Empresas Petrolíferas (APETRO), possui planos de contingência preparados para garantir que nenhum voo seja cancelado, por exemplo (link disponível para assinantes).

“De alguma forma, desde a última greve foi criada uma melhor rede de comunicação, de modo a que a operacionalização dos planos de contingência fluam da melhor forma”, assegurou ao Negócios João Reis, presidente da APETRO, referindo-se à paralisação de abril. As gasolineiras, diz, “já estão a trabalhar para tentar que os postos de abastecimento estejam na sua capacidade máxima antes da greve”.

Isso significa que os postos de combustível terão capacidade para responder à procura durante os primeiros dois ou três dias da greve, explica o jornal. Para lá disso, “não é possível saber”, admite João Reis.

Os voos marcados, contudo, estarão assegurados. Isso mesmo confirmou a própria ANA ao económico, expressando convicção de que os serviços mínimos deverão abranger esta área. E se não vierem a ser cumpridos pelos motoristas, a empresa responsável pelos aeroportos portugueses tem uma alternativa.

A ANA, as companhias aéreas e os outros atores do setor têm planos para mitigar as consequências de todo o tipo de contingências”, afirmou fonte oficial da empresa.

“Pela natureza, e para garantir a sua eficiência, estes planos não são públicos”, acrescentou a ANA.

A somar-se a esta preparação estão os próprios planos de contingência do Governo. O secretário de Estado da Energia, João Galamba, já tinha garantido em julho, em entrevista à TSF, que está a ser preparado um plano de ação. O Executivo comprometeu-se à altura, relembra o Negócios, com a criação das “condições para, se necessário, montar um sistema logístico alternativo de distribuição de combustíveis no caso de não haver o cumprimento de serviços mínimos”.

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