Uma manta impermeável, agasalhos e mantimentos é tudo o que precisa para passar uma noite ao relento a ver uma “chuva de estrelas” — neste caso, uma chuva de meteoros das Perseidas. De preferência escolha um local afastado dos centros urbanos, para as luzes das localidades não ofuscarem as estrelas. E, depois, é só esperar até às 22h quando elas começarem a cair apesar de a hora ideal para observar o fenómeno, ser mesmo de madrugada, às 3h, segundo o Observatório Astronómico de Lisboa.

A melhor altura para ver a chuva de meteoros das Perseidas, que vão caindo amiúde de 17 de julho a 24 de agosto, é precisamente na madrugada de 12 para 13 de agosto. A atividade máxima será entre as 3h e as 16h, mas naturalmente que durante a noite cerrada será mais fácil ver as riscas brilhantes que atravessam o céu.

O problema é a Lua, que está quase cheia e só vai desaparecer do céu noturno às 4h39. Se tiver o azar de apanhar um céu nublado, será ainda mais difícil observar esta “chuva de estrelas”, que pode chegar aos 110 meteoros por hora.

Os meteoros que dão origem a este fenómeno são os restos de poeiras e pedaços de cometa da cauda do cometa Swift–Tuttle que passou junto ao Sol em 1992. Quanto a Terra atravessa a órbita do cometa, estes pedaços entram na atmosfera e ficam incandescentes. O resultado são as linhas brilhantes traçadas no céu pelas “estrelas cadentes”.

O cometa tem uma órbita de 133 anos e só se espera que volte a passar perto do Sol em 2125, até lá, todos os meses de agosto, podemos ver uma chuva de meteoros que parece sair da constelação de Perseu — daí o nome.

As constelações de Perseu, Andrómeda e Cassiopeia são centrais nesta história de amor contada pelas estrelas — Observatório Astronómico de Lisboa

Perseu, o herói que salvou Andrómeda

Perseus, Andrómeda e Cassiopeia são três constelações próximas no céu de verão. Mas são também três personagens da mitologia grega, cujas histórias se cruzam: Perseu casou com Andrómeda, filha de Cassiopeia.

De Perseu, um semideus filho de Zeus, diz-se que, a pedido de um rei, cortou a cabeça à górgona Medusa — o monstro que tinha serpentes em vez de cabelos e transformava em pedra quem a olhasse nos olhos.

Quando voltava para casa com a cabeça da Medusa na mão, ouviu uma bela donzela em apuros, Andrómeda. Para a salvar petrificou o monstro Ceto, que a mantinha prisioneira, apresentando-lhe a cabeça decepada. Andrómeda era filha de Cassiopeia e tinha sido feita prisioneira por Posídon — o deus supremo dos mares. Um castigo porque Cassiopeia ousou dizer que a filha era mais bela que as nereidas, as ninfas do mar.

Perseu segura a cabeça da Medusa enquanto ajuda Andrómeda a descer da rocha, no meio do oceano, onde estava presa — Icas94 / De Agostini via Getty Images

As lágrimas de São Lourenço

A chuva de meteoros das Perseidas também são chamadas de lágrimas de São Lourenço, desta vez numa alusão à tradição cristã, mas com uma história bem mais trágica que a do herói Perseus. O pico desta “chuva de estrelas” acontece sempre depois da festividade que assinala a morte de São Lourenço, a 10 de agosto.

Lourenço de Huesca era um diácono que tomava conta dos bens da Igreja. Quando o imperador romano lhe exigiu que entregasse os bens da Igreja, o padre apresentou perante o imperador os fiéis cristãos. Foi condenado à morte pelo imperador furioso. Reza a lenda que enquanto era queimado vivo terá dito: “Podem virar-me agora, deste lado já está bem assado”.

A chuva de meteoros de Perseidas é observada há cerca de dois mil anos. São Lourenço morreu, aos 33 anos, no ano 258. Os dois acontecimentos próximos numa Europa que abria portas ao cristianismo foi a combinação perfeita para se afirmar que o que se via no céu eram as lágrimas do mártir queimado.

Mas até os católicos sabem que tudo isto não passa de uma lenda. “A tradição cristã chama-lhes [às Perseidas] precisamente ‘lágrimas de S. Lourenço’, mas para nós, astrónomos, são meteoros e poeira cósmica”, disse o frei Guy Joseph Consolmagno, diretor do Observatório do Vaticano, citado pelo Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura.