As qualificações para Campeonatos da Europa ou do Mundo colocam normalmente frente a frente seleções que são verdadeiros habitués das fases finais das competições e seleções que raramente conseguem carimbar os apuramentos — e até algumas que nunca o alcançaram. Esta terça-feira, na qualificação para o Euro 2020 do próximo verão, Inglaterra enfrentava o Kosovo, França recebia Andorra e Portugal viajava até Vilnius para encontrar a Lituânia. Quem é como quem diz, três seleções que já conquistaram ou um Europeu ou um Mundial defrontavam três seleções que nunca jogaram qualquer fase final. Contas feitas e um otimista — ou pessimista, dependendo do lado da barricada — diria que tal situação é totalmente favorável para as principais seleções. Mas nem sempre é assim.

No primeiro jogo pós-vitória no Euro 2016, Portugal perdeu com a teoricamente inferior Suíça. Nos primeiros dois jogos do apuramento para o Euro 2020, Portugal empatou com as teoricamente inferiores Sérvia e Ucrânia. No passado sábado, novamente contra os sérvios, a Seleção Nacional espantou alguns fantasmas e agarrou os primeiros três pontos da qualificação ao vencer em Belgrado (2-4) — mas mais do que isso, a equipa orientada por Fernando Santos pareceu dar sinais de que os tempos dos jogos com poucos golos, de que os tempos dos jogos com alguma posse e poucas oportunidades, de que os tempos dos jogos tirados a ferros com vantagens mínimas, tinham terminado. Numa segunda parte frenética, a seleção portuguesa marcou três golos, os três homens da frente inscreveram o nome na ficha de jogo e a eficácia parecia começar a fazer parte do léxico nacional.

Mostrar Esconder

Ficha de jogo

Lituânia-Portugal, 1-4

Qualificação para o Campeonato da Europa 2020

LFF Stadium, em Vilnius (Lituânia)

Árbitro: Bas Nijhuis (Holanda)

Lituânia: Setkus, Mikoliunas, Palionis, Girdvainis, Andriuškevičius, Šimkus, Slivka, Vorobjovas, Kuklys (Zulpa, 69′), Verbickas (Kazlauskas, 77′), Laukžemis (Petravicius, 66′)

Suplentes não utilizados: Zubas, Cerniauskas, Klimavičius, Jankauskas, Vaitkunas, Golubickas, Matulevicius, Baravykas

Treinador: Valdas Urbonas

Portugal: Rui Patrício, João Cancelo, José Fonte, Rúben Dias, Raphael Guerreiro, Rúben Neves, William, Bruno Fernandes (Rafa, 56′), Bernardo Silva (Pizzi, 89′), Cristiano Ronaldo (Gonçalo Guedes, 79′), João Félix

Suplentes não utilizados: José Sá, Beto, Ferro, Daniel Carriço, Mário Rui, Danilo, João Moutinho, Renato Sanches, Diogo Jota

Treinador: Fernando Santos

Golos: Cristiano Ronaldo (7′, 61′, 65′, 76′), Andriuskevicius (28′), William Carvalho (90+2′)

Ação disciplinar: nada a registar

Era neste contexto que Portugal chegava esta terça-feira ao jogo com a Lituânia, última classificada do Grupo B onde a seleção portuguesa também está inserida. Depois da vitória na Sérvia, a equipa de Fernando Santos subiu ao segundo lugar do grupo e deu um passo importante rumo ao apuramento direto: uma segunda vitória consecutiva, perante a seleção lituana, significaria não só o reforçar dessa posição como o reentrar na corrida pela liderança do grupo que é atualmente da Ucrânia. Depois de ter surpreendido ao não incluir João Félix no onze inicial com os sérvios, o selecionador nacional já sabia que iria ter de fazer uma substituição forçada; Nélson Semedo lesionou-se na segunda parte da partida de sábado e era rendido por João Cancelo, que tinha então uma oportunidade para mostrar que também é uma opção bastante válida para a direita da defesa. Além da mudança de lateral, Fernando Santos decidiu ainda trocar Danilo Pereira por Rúben Neves no meio-campo e lançar João Félix no lugar de Gonçalo Guedes, claramente numa ótica de observar todos os jogadores que têm possibilidade de ser titulares de forma regular.

O principal obstáculo para os portugueses, talvez um obstáculo superior àquele imposto pela própria seleção lituana, era o estádio que esta terça-feira recebia o encontro. O LFF Stadium, em Vilnius, tem um sintético e não o habitual relvado natural, numa superfície que é próxima aos jogadores lituanos mas não aos portugueses. A relva sintética, além de ser mais propícia a lesões, é totalmente diferente na hora de reagir à bola, principalmente na forma como esta salta depois de cair no chão, e um lance menos calculado ou menos ponderado poderia causar dificuldades à Seleção Nacional. Impunha-se, por tudo isto e pela necessidade sempre presente, a vontade de marcar cedo, de marcar primeiro e de não dar grande espaço a aventuras da Lituânia. Algo que nem sempre é intrínseco à seleção portuguesa.

Em Vilnius, porém, o ketchup não demorou a sair — parafraseando Cristiano Ronaldo. Numa altura em que as duas equipas ainda se estudavam mutuamente, João Félix tabelou bem com o capitão português e apareceu dentro da grande área, onde tentou cruzar a média altura para a zona central. A bola bateu na mão de um defesa lituano e Ronaldo concretizou a grande penalidade (7′), marcando o golo 90 pela seleção portuguesa e tornando-se apenas o segundo jogador da história a chegar a esse registo pela própria seleção. A Lituânia respondeu de imediato, com uma jogada rápida que Rúben Dias acabou por aliviar (8′), e a defesa portuguesa mostrou desde logo algumas debilidades na hora de evitar o último passe adversário. Ainda assim, nos minutos que se seguiram ao inaugurar do marcador, Portugal poderia ter ampliado a vantagem várias vezes — primeiro com um remate de Ronaldo (10′), depois por um quase autogolo provocado por João Cancelo (19′) — mas parecia falhar sempre na hora da finalização das jogadas, com muitas dificuldades na altura decisiva de introduzir o último passe.

A falta de eficácia portuguesa acabou por abrir espaço para o empate da Lituânia, que chegou ao golo precisamente da forma que Fernando Santos tinha dito que a seleção de leste seria mais perigosa: de bola parada. Canto batido na direita e o lateral Andriuskevicius foi mais forte do que João Félix nas alturas, cabeceando para o golo (28′). A alta estatura dos jogadores lituanos, que compensava a inegável escassez de qualidade técnica, dificultava um jogo que aos sete minutos parecia decidido para o lado de Portugal. William Carvalho estava a falhar muitos passes, algo que raramente acontece, Rúben Neves estava a ter dificuldades em pegar no jogo, Cristiano Ronaldo ficou algo limitado depois de um lance que o deixou com queixas no tornozelo e João Félix não estava a ter bola suficiente para criar e construir. Neste cenário, o destaque da Seleção Nacional estava no corredor direito, em João Cancelo e Bernardo Silva, a dupla do Manchester City, com especial relevância para o lateral — Cancelo corria, fazia toda a ala e aparecia quase na linha de fundo a cruzar para Ronaldo, Bernardo ou Félix, tendo ainda um lance em que decidiu puxar para dentro e arriscar um remate que não passou nada longe do alvo (31′). Ainda assim, era precisamente a ausência de jogo interior e presença na faixa central que impedia Portugal de chegar ao último terço da Lituânia, já que a seleção portuguesa acabava sempre por lateralizar os lances e afastar-se da zona de concretização.

No início da segunda parte, e depois de uma reta final de primeiro tempo em que Portugal não só não conseguiu encostar a Lituânia no próprio meio-campo como ainda sofreu com algumas investidas em contra-ataque, a seleção portuguesa voltou a mostrar-se algo presa no desenvolvimento ofensivo. Quando o relógio assinalava dez minutos do segundo tempo, Fernando Santos decidiu lançar Rafa Silva no lugar de Bruno Fernandes e colocar João Félix e Cristiano Ronaldo no corredor central, com o jogador do Benfica tombado numa ala e Bernardo na outra, reforçando a faixa central que tinha sido discriminada durante a primeira parte. O impacto foi praticamente imediato e a Seleção Nacional chegou novamente à vantagem através de um lance caricato, com Cristiano Ronaldo a rematar rasteiro de fora de área e o guarda-redes Setkus a ficar muito mal na fotografia, traído pelo piso sintético (61′).

O segundo golo de Portugal mas também de Ronaldo criou uma espécie de vórtice que canalizou todo o jogo para os últimos 30 metros do meio-campo lituano e deixou a equipa de Valdas Urbonas totalmente descoordenada. O terceiro golo, que deixou tudo praticamente decidido, apareceu pouco depois, com Bernardo a surgir em posse na direita e a cruzar em formato chuveirinho para o coração da grande área, onde o capitão português apareceu totalmente sem marcação a confirmar o hat-trick de primeira (65′). A Lituânia entrou num período de substituições consecutivas e descontrolo defensivo que era agudizado pela inegável discrepância individual e global e a Seleção Nacional aproveitou para carimbar a goleada — e o póquer de Cristiano Ronaldo –, com Rafa a aparecer na faixa central e a soltar para o jogador da Juventus na esquerda, que atirou novamente de primeira para o quarto português e para o quarto da conta pessoal (76′).

Ronaldo saiu para dar a lugar a Gonçalo Guedes, Bernardo saiu para dar lugar a Pizzi e o último quarto de hora do encontro acabou por ser um festival de futebol atacante da seleção portuguesa, com João Félix a procurar de forma incessante o primeiro golo internacional e William Carvalho a acabar por marcar pela segunda vez em jogos consecutivos (90+2′), num lance já nos descontos que adoçou uma exibição particularmente desinspirada do médio do Betis. A Seleção Nacional goleou a Lituânia, ultrapassou o sintético, garantiu a segunda vitória seguida e deu um passo importante rumo ao apuramento direto para o Campeonato da Europa do próximo verão, estando agora numa posição em que a chegada ao primeiro lugar do Grupo B (ocupado pela Ucrânia, que tem mais um jogo) parece totalmente exequível. Portugal tremeu na primeira parte, principalmente depois do golo do empate, mas realizou uma segunda parte de gala que não permitiu quaisquer avanços lituanos — vistas bem as coisas, a seleção portuguesa poderia ter o jogo controlado logo ao intervalo e não ter sofrido aquilo que já parece um tradicional período em que desliga dos acontecimentos.

Por fim, Cristiano Ronaldo. O capitão da seleção portuguesa chegou aos 93 golos, é o melhor marcador da história dos apuramentos para Europeus, é o melhor marcador europeu em seleções, é o segundo jogador da história a chegar aos 90 golos pela própria seleção e é ainda o primeiro português a marcar dois póqueres por Portugal. Esta foi ainda a oitava vez que Ronaldo marcou mais de três golos pela seleção e nesta altura, com 34 anos, o recorde do iraniano Ali Daei — que é o melhor marcador de sempre em seleções, com 109 golos — parece não ser um objetivo assim tão surreal. Até porque o ketchup está a sair como nunca.