Os quadros do expressionismo alemão Emil Nolde que estavam pendurados no gabinete pessoal de Angela Merkel foram todos retirados porque a ainda Chanceler alemã descobriu que o artista era um forte apoiante do nazismo.

De acordo com o jornal El Español, Merkel emprestou as obras em questão à exposição “Emil Nolde: uma lenda. O artista e o nacionalismo”, que estreou em abril, no Hamburger Bahnhof , e termina no próximo domingo. Nessa mesma exposição explicava-se a forte admiração que Nolde tinha pelo nazismo e isso ditou que as obras já não regressassem ao escritório de onde tinham saído — o da alta representante da Alemanha.

As obras (são duas, “Brecher” e “Meer Bei Alsen”) decoravam o gabinete de Merkel praticamente desde o primeiro dia em que a líder alemã assumiu funções. “Brecher” esteve pendurado entre os anos de 2006 e 2013 e “Meer Bei Alsen” até serviu de fundo para um dos retratos da Chanceler que mais foi usado pela imprensa germânica — é uma fotografia de Michael Kappeler, da agência DPA.

Merkel já tinha dito à revista especializada “Art” que nutria uma especial admiração pelos quadros deste pintor expressionista. Há quem diga, até, que Nolde era o seu pintor favorito. “Emil Nolde conseguiu criar uma maravilhosa representação de um espetáculo natural gigante”, disse a Chanceler nessa altura, referindo-se ao quadro “Brecher”, que mostra uma paisagem costeira.

A presença dos quadros na Chancelaria Federal foi algo muito celebrado pelos responsáveis de velar pelo legado artístico de Nolde. Christian Ring, o presidente da Fundação Ada e Emil Nolde, celebrou o destaque dado ao artista, na altura, mas agora foi ele também que passou a ser responsável pela saída das obras do gabinete de Merkel, já que foi um dos responsáveis pelo trabalho de investigação que percebeu as ligações de Nolde com o nazismo. A própria exposição não deixa dúvidas da sua paixão pelo movimento de Adolf Hitler — o pintor inscreveu-se no partido em 1934.

A fundamentação destas alegações devem-se a várias provas encontradas nos últimos tempos como a correspondência que Nolde trocou com a mulher, Ada, algures nos anos 40, durante a Segunda Guerra Mundial, conflito que o pintor descrevia como uma “guerra judia”. Numa carta de 25 de maio de 1943, Nolde escreve o seguinte: “Esta espantosa guerra foi iniciada e financiada por um punhado de judeus sorridentes escondidos atrás dos grandes governos e bancos deste mundo.”

Depois da morte de Hitler, Nolde tentou trocar as voltas ao público passando a dizer que tinha sido uma vítima do nazismo, fundamentando essa definição no facto da sua arte ter sido considerada pelo III Reich como sendo “de degenerado”.

Vários documentos conseguiram sobreviver à tentativa de Nolde de limpar a sua imagem e foram eles que Christian Ring, a partir de 2013, começou a analisar. Hoje eles são tidos como provas contundentes do seu compromisso  com o movimento nazi.

Estima-se que as obras acabem por ir parar à Fundação da Herança da Cultura Prussiana.