O comboio da linha de Cascais vem cheio da fauna costumeira: turistas em busca da praia, utentes habituais a caminho do trabalho, idosos que gritam ao telemóvel que vão fazer análises. Já na estação da CP de Algés, um cosplayer de ar andrógeno tenta passar com as enormes asas junto à zona das cancelas, enquanto uma senhora com idade para ser mãe dele lhe analisa os peitorais à mostra. “Olhe que com essas asas o vento ainda o leva”, alerta a anciã, com aquele ar de quem acha que está a dizer uma piada inovadora. O rapaz sorri, em amarelo mas educado, ciente de que fora dos portões da Comic Con ouvirá muitos comentários do género. Já dentro do recinto, o mote do evento de cultura pop é Be Whatever You Want (sê o que quiseres), pelo que estará como peixe na água. Ou como o Aquaman a resgatar Atlanta.

Décadas de filmes passados em liceus norte-americanos cristalizam-nos o estereótipo: um geek é um adolescente, perpetuamente virgem e socialmente inadaptado, que sobrepõe o seu conhecimento enciclopédico por um qualquer produto de ficção em detrimento de características que o fariam popular – ou, pelo menos, “normal”.  Não é um chavão que já tenha desaparecido completamente – “Big Bang Theory”, por exemplo, chuchou alegremente no mamilo desse filão até há poucos meses. Mas há muito que considerar de mero nicho o culto de certos filmes, séries, livros ou jogo se tornou um pensamento desatualizado e tacanho. Os filmes de super-heróis batem recordes históricos de bilheteira, a maior série de televisão da década envolve dragões, os jogos de vídeo têm direito a campeonatos mundiais. O geek saiu da margem e aterrou no meio da pista, mostrando que todos podemos amar Star Wars ou Naruto ou Minecraft. Do desportista pintas à miúda gira, do gótico à caixa de óculos fofinha. É uma indústria robusta, afinal mainstream e tão, mas tão lucrativa.

E é este lado do lucro que se torna tão visível assim que se entra na Comic Con. Em sete minutos no recinto já me perguntaram se queria tirar uma foto sentada num Cadillac de plástico de uma cadeia de cinemas, se queria berrar para um medidor de decibéis para ganhar uma refeição pré-feita e se estava interessada num voucher de uma clínica dentária. Parte muito considerável do recinto corresponde a uma de duas coisas: stands de vendas (sobretudo T-shirts e action figures, com a febre dos Funko Pops em destaque) ou ações de marcas que oferecem todo um made in China em troca de andarmos a fazer-lhes publicidade grátis. Claro que há uns famosos em tendas de autógrafos e em auditórios não muito lotados (ainda não é dia de Eleven do “Stranger Things”), mas o cerne deste evento não é o amor à cultura: é o consumo. Não somos geeks, somos pessoas com um NIF. É que até um stand de uma marca de cremes depilatórios e gilettes existe, uma espécie de prova de que as mulheres, durante tanto tempo alheadas e ignoradas do mundo da cultura pop, afinal já não são invisíveis. Pelo menos enquanto consumidoras. Com umas pernas impecavelmente sedosas.

A verdade é que o conceito de geek se tornou tão lato e tão elástico que tudo cabe lá dentro: há um destaque à estreia da série da HBO “Watchmen” (baseada numa das mais emblemáticas bandas desenhadas de sempre), há um “Walking Dead” a mostrar que ainda mexe, mas também há um destaque enorme a um filme com a Jennifer Lopez e a Cardi B. As fronteiras esbatem-se, o que não é necessariamente mau, sobretudo se parecer acontecer de um modo orgânico. Não queremos a balbúrdia do Brexit aplicada à cultura pop. Tudo é de todos.

É nesta altura, depois de um primeiro reconhecimento, que mando uma mensagem ao meu editor: “Tiago, já cá estou e isto está a ser um bocado seca”. É certo que não estávamos no prime time do evento, mas a verdade é que sentia que quem não queria comprar uma caneca do Harry Potter ou tirar selfies com um capuz do “Handmaid’s Tale” não tinha muito para fazer. E foi nessa altura que pensei: “abraça este evento como ele é”. E resolvi ir arrecadar o máximo de merchandising à pala que coubesse dentro da minha mochila.

Comecei destemidamente pela maior aglomeração de gente à espera: o stand do “Walking Dead”, série sobre zombies exibida na Fox. Desisti desta série na terceira temporada (nos livros de banda desenhada fui mais insistente, mas também abandonei), porém não vai ser isso que me vai impedir de colocar na fila. Uma fila para quê? Ora nem sei bem. Não estou sozinha: quando a rapariga de 15 anos à minha frente começou a queixar-se de que a fila não andava, acrescentou um “eu nem assisto essa série, mesmo”. Mas, tal como eu, aguentou ali uma hora ao sol. Um lindo sentido de missão. O promotor do stand berra: “quem é que daqui vê Walking Dead?” e ouve como resposta alguém a gritar “eu só ouvi qualquer coisa sobre chocolates!”.

E é, de facto, essa a solução do grande mistério – estamos todos ali para nos fazerem uma réplica 3D das nossas cabeças em chocolate espetadas num pau, naquilo a que chamam os “empaladinhos”, numa menção a uma cena de empalamento de personagens no final da temporada passada. Ou seja, eu esperei uma hora por uma reprodução minha em chocolate de leite que obviamente não aguentou os 35 graus que se faziam sentir. Ainda tive tempo de mandar uma fotografia ao meu marido. “Parece mais o busto do Ronaldo” foi a resposta simpática. Não faz mal, porque esse chocolate foi o meu almoço, juntamente com um gelado preto do upside down do “Stranger Things” e uma mini Coca Cola sem açúcar – todas grátis, claro. Na zona de imprensa só havia paletes de água deixadas ao sol, pelo que havia mais hipóteses de sobreviver à hora de almoço junto a promotoras a recibos verdes.

Na tal fila onde fiquei uma hora (nota-se muito que fiquei birrenta com a seca?), observei com uma atenção digna do David Attenborough alguns profissionais da caça ao brinde. Tinham todos mais chapéus do que cabeças, várias T-shirts, leites com chocolate e até mini desodorizantes. Um deles repara que, ao longe, um canal de televisão está a oferecer sacos de pano. “Ó Coisinha, vai lá buscar sacos para a gente ter onde meter estes brindes todos”. E a Coisinha lá vai a correr, arrebanhar uns sacos que provavelmente irão para o lixo quando aquelas pessoas fizerem arrumações para mudar de casa.

Eu estou, portanto, uns degraus abaixo dos profissionais. Avisto um stand com bonés e aceito tirar a pior foto de sempre e dar autorização para que a usem nas redes sociais porque estava mesmo a precisar de um chapéu para sobreviver ao sol de chapa que estava no Passeio Marítimo de Algés. Mais à frente ganho uma T-shirt que usarei para dormir ou para vestir quando pintar a sala, até começar a perceber o duvidoso padrão. Muitos dos brindes vêm com uma condição um pouco problemática. É que temos sempre de aceitar alimentar-lhes o feed das redes sociais, aceitar sacar a aplicação, aceitar assinar um papel de direito de imagem, aceitar facultar o mail, aceitar arrancar um pedacinho de alma. Não há lei de proteção de dados que resista a um “por favor sê usado por nós em troca de um biberão”. E caso tenham relido a frase anterior: sim, havia mesmo um stand a oferecer garrafas reutilizáveis em forma de biberão.

Na tenda que nos vende o conceito de Oeiras Valley, uma tentativa vagamente parola de elevar o concelho de Isaltino ao nosso Sillicon Valley, oferecem-se os dois bens mais valiosos de todo o recinto: ar condicionado e carregadores de telemóvel. Quase há pilhagens de uns óculos escuros e chapéus de palha de promoção ao município deixados sem supervisão. “Isto é para oferecer num jogo que só vemos fazer mais tarde!”, chora o pobre promotor que tem de arrancar as bugigangas das mãos de raparigas de 13 anos.

Numa sexta à tarde, em horário de expediente, torna-se muito mais notório quantos adolescentes e até crianças vêm até aqui. Este é-lhes um habitat confortável, porque estamos num gigantesco palco para fotografias para o Instagram e o Facebook. É nisso que stands e stands (e até o photobooth oficial do certame, com algumas estrelas) apostam, sem pudor. Não digo isto com desdém ou com julgamento, ainda não sinto a luta geracional assim tão agrestemente. Mas a Comic Con é claramente para se mostrar que esteve, mais do que para estar. Fica a selfie gira, esquece-se a tarde passada ao sol com ar de seca.

A caminho da saída, fraquejo a comprar uma T-shirt. A conversa com o vendedor é dificultada pelos berros no stand vizinho, o tal que oferece comida pré-feita. “Pois, isto é assim o dia todo”. Por curiosidade, vou ver a um site de uma cadeia de supermercados quanto custam aquelas embalagens de ramen instantâneo que levam as pessoas a fazer fila para escangalharem as cordas vocais. Custam 79 cêntimos.

De regresso à estação de Algés, cruzo-me outra vez com o cosplayer da manhã. Está a fazer pose para uma fotografia de uma curiosa, uma senhora que vai apanhar o comboio para ir buscar os filhos à escola. Ambos conversam animadamente. Incha, Brexit. A união é uma coisa muito linda.

Susana Romana é guionista e professora de escrita criativa