Pedro Caetano não gostou de ler, nas páginas do prestigiado diário britânico Financial Times, um editorial altamente elogioso para o Governo, pelos argumentos que foram invocados para explicar as “perspetivas brilhantes” e a “esperança” que António Costa e o seu executivo tinham trazido para Portugal. O português, diretor-global de uma empresa farmacêutica em Oxford, decidiu, então, entrar em contacto com a direção editorial do jornal e enviou uma “carta ao diretor” que foi publicada na edição em papel do jornal.

O Observador falou com Pedro Caetano, que viu publicado esta sexta-feira o texto intitulado “os portugueses merecem uma visão mais clara para o futuro do país” — no qual pretende rebater, com dados oficiais do Eurostat, vários dos argumentos utilizados no texto que foi muito badalado em Portugal, no final de agosto. Uma perspetiva que, neste momento, já foi acrescentada como ligação no fundo do texto de agosto do FT.

No seu texto, Pedro Caetano apela, por exemplo, a que o Financial Times “não se deixe enganar duas vezes”. A primeira terá sido em 2007, quando elogiou José Sócrates por “défices baixos”, assumindo que o então governo socialista iria iniciar várias reformas necessárias. “As reformas só foram eventualmente implementadas pela troika europeia na bancarrota de 2011″, escreve Pedro Caetano.

O autor também aponta vários defeitos à governação de António Costa desde finais de 2015. A saber: dívida pública em níveis altos, crescimento do PIB anémico e muito inferior aos Estados-membros com quem Portugal se deveria comparar, carga fiscal nos mais altos níveis de sempre, investimento público nos mínimos e um poder de compra em Portugal que está perto de ser “o pior da UE”.

A juntar a isto, diz Pedro Caetano, António Costa ” tornou-se primeiro-ministro fazendo uma purga dos reformistas no seu Partido Socialista” e “trouxe para o governo os colegas do Sr. Sócrates, acusado de corrupção mas que nega as acusações, mais os esposos e filhos deles”. “Esse clã de políticos vai minando as reformas e revertendo para um ambiente de negócios do costume; minou reformas da troika que exigiam qualificações e escrutínio nas nomeações feitas pelo governo. Os sem qualificações passaram a mascarar-se como ‘gestores industriais’”, escreveu o português na carta ao FT. E acrecenta que “alguns são iludidos pela possibilidade de um déficit de 0%, obtido à custa de um investimento público negativo de 1,2% do PIB em 2016 (e ainda no fundo da União Europeia), segundo o FMI, pondo em perigo as finanças do país a longo prazo, a segurança das infraestruturas e a saúde pública”. No final, alerta para os “políticos ilusionistas que andam a esbanjar as riquezas do nosso país”, apelando a que “sejam responsabilizados”.

Pedro Caetano diz ao Observador, ao telefone a partir do Reino Unido, que, “para ser publicado, o texto exigiu muitas horas de pesquisa de fontes para cada palavra minha, para cada frase minha. Exigida pelo Financial Times, com vários editores a pronunciarem-se e a verificarem tudo minuciosamente”. E acrescenta: “Curiosamente, ao contrário do elogio falso que tinham feito a António Costa, a 26 de agosto, com base em fontes nenhumas e até contradizendo seriamente dados do Eurostat”.

Um militante do PS que colaborou com Seguro mas que “não precisa da política para nada”

Pedro Caetano é diretor global numa empresa da indústria farmacêutica em Oxford, cidade onde se formou em Finanças. Mas este militante do Partido Socialista também tem formação científica obtida em Harvard, nos EUA. Foi, aliás, para os EUA que se mudou logo aos 22 anos, após a primeira licenciatura, e hoje tem dupla cidadania — portuguesa e norte-americana. E garante “não precisar da política para nada”.

O autor da “carta ao diretor” publicada esta sexta-feira no Financial Times passou, porém, alguns anos em Lisboa como professor na Faculdade de Ciências Médicas na Universidade Nova de Lisboa, entre 2012 e 2014. E foi nessa altura que colaborou com a liderança socialista de António José Seguro, participando num grupo com Álvaro Beleza, que funcionava quase como um “ministério-sombra”, neste caso para a área da saúde.

Esse foi um grupo, recorda Pedro Caetano, que realizou trabalho junto de hospitais, associações de doentes e médicos, o que “incluía ir às 3 da manhã para os hospitais ver como estavam as urgências dos hospitais”, conta. Quando António Costa assumiu a liderança do PS, derrubando António José Seguro, “todo esse trabalho foi desprezado, porque o grupo foi dispensado” — uma dispensa comunicada a esse grupo de médicos e profissionais de saúde pela atual ministra Mariana Vieira da Silva, que, aponta Pedro Caetano, “não tem qualquer formação em saúde”.