Semanas depois de, em editorial, o Financial Times ter escrito sobre as “perspetivas brilhantes” de Portugal (e a “esperança” que estas davam a toda a Europa), o diário britânico dedica uma reportagem onde descreve o sentimento de “negligência” — no sentido de abandono — e sobre o “desconforto” que ainda hoje António Costa e o Partido Socialista sentem quando se fala sobre o interior do país e sobre os fogos que, sobretudo em 2017, afetaram várias zonas e em vários momentos.

Registando que o PS terá perdido terreno nas intenções de voto nos últimos dias, “potencialmente afastando-o do objetivo de conseguir a maioria absoluta”, o correspondente em Portugal do Financial Times, Peter Wise, viajou até ao interior para escrever sobre o “ressentimento” que perdura — e que terá levado António Costa a fazer campanha eleitoral na Nacional 2, que é comparada à “Route 66” de Portugal.

O jornal recorda os “mais de 100 mortos” que resultaram dos incêndios de 2017 — em rigor, terão sido pelo menos 116 vítimas mortais, entre as resultantes do fogo de Pedrógão Grande (distrito de Leiria), que deflagrou em 17 de Junho, e dos incêndios de Outubro na região Centro.

“Foi a crise mais grave que António Costa, o primeiro-ministro, enfrentou durante os seus quatro anos de mandato”, escreve o FT, acrescentando que “as consequências [desses incêndios] continuam a ser um tema difícil de confrontar para o Sr. Costa”.

O jornal relaciona este sentimento com a campanha eleitoral que arrancou no interior do país, com o sentimento que ficou após os incêndios — “os fogos contribuíram para um sentimento de marginalização” e de “abandono” por parte de quem vive nas zonas que estão a sofrer mais com a desertificação. A campanha na N2 espelha a “sensibilidade política” que continua a existir em torno deste tema.

O jornal falou com o presidente de uma associação de pais que liderou os esforços para evitar que fosse fechada a escola secundária de Cernache do Bonjardim, que tem cerca de 300 alunos — uma escola que tinha sido confrontada com um corte de fundos públicos. Apesar de casos como esse, o FT afirma que as “reversões das políticas de austeridade” deverão dar ao PS o resultado de partido mais votado nas eleições de domingo.

Quanto ao interior, o líder do PS prometeu aproveitar as riquezas do interior. “Mas as pessoas que lá vivem já ouviram promessas como esta no passado”, escreve o jornal.