No distrito onde foram encontradas as armas roubadas em Tancos, António Costa já não voltou ao assunto. O que tinha para dizer a Rui Rio, e a propósito da sua conferência de imprensa sobre o caso, disse em Lisboa. Já no comício da noite, em Santarém, o líder socialista ficou-se pelas políticas sociais que traz no seu programa eleitoral. Repetiu o que disse na rua a duas pessoas que lhe agradeceram o aumento das reformas: “Não têm de agradecer nada ao Governo nem ao António Costa. Têm é de dar força ao Governo, ao PS e ao António Costa para não perdermos os direitos que conquistámos e que não podemos voltar a perder”.

Reportagem do comício em Santarém - Legislativas 2019

As abordagens aconteceram em Lisboa, na arruada de Moscavide, e em Santarém, à entrada do comício na Casa do Campino. E Costa aproveitou-as para jogar a carta dos direitos que “não se agradecem, defendem-se, são próprios. Ninguém dá nada“. Na verdade era carta jogada contra a direita e o tal regresso do diabo que tinha sido atirado por Costa para o lado de lá na noite anterior, em Loulé. Nesta noite, depois da tirada dos agradecimentos, o socialista voltou a referir, de passagem, o medo que o diabo-PSD/CDS volte: “Não podemos voltar a andar para trás”.

É por isso que, por onde passa, vai pedido que lhe assegurem “quatro anos de estabilidade, porque só assim se pode acabar os compromissos que assumimos. Se esta legislatura não tivesse durado quatro anos, não podíamos estar a apresentar estes resultados. E se queremos apresentar mais e melhores, precisamos de quatro anos de estabilidade”. 

“O tempo do sobressalto acabou”, garantiu à sala cheia. Para depois dar uso à fórmula do aconteceu-isto-se-nos-derem-força-continuamos. Ora veja: “Pela primeira vez o país voltou a crescer acima da média europeia desde que aderimos ao euro e se nos derem força continuará a ser assim nos anos de 2020 e 2021”. Mais? “O rendimento das famílias aumentou 9,2% nesta legislatura e se nos derem força, vamos continuar este caminho”. E ainda: “Os índices de desigualdade nunca foram tão baixos e se nos derem força, se me derem força, vamos continuar assim”. E, claro, não faltou a bandeira que mais agita: “E sim, foi possível fazer isto tudo com contas certas. E se nos derem força, continuaremos a reduzir o défice, a dívida e a ter contas mais certas”.

Das medidas sociais que tem no programa, sublinhou o acordo que promete na concertação social para aumentar salários, mas também disse que não é só por aí que se aumenta o rendimento das famílias, mas também com medidas que trazia na manga para elencar ali, como “o alargamento do cheque dentista a todas as crianças” ou o vale para o pagamento de óculos prescritos pelo SNS para todas as crianças e jovens até aos 18 anos.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Antes de discursar, o palco já tinha sido pisado por Alexandra Leitão, secretária de Estado da Educação, que é vista no PS como uma das possíveis sucessoras de Tiago Brandão Rodrigues, caso o ministro da Educação não se mantenha no cargo se o PS vier mesmo a formar novo Governo. No entendimento de Costa — e fica o registo para o futuro próximo — Alexandra Leitão “já deu provas da sua competência e capacidade como governante”. Disse-o quando sublinhou que “pelo quarto ano consecutivo, o ano letivo arrancou sem falhas”.

A secretária de Estado e futura deputada (é cabeça de lista pelo distrito de Santarém) apontou o foco da sua intervenção sobre essa mesma área, referindo dados como o da “taxa de abandono escolar que é de 10,5%, a mais baixa de sempre no país” ou ainda os manuais escolares gratuitos e o que eles significam de poupança para as famílias.

Costa deu-lhe as boas vinda à Assembleia da República, já que a sua eleição é garantida e é candidata pela primeira fez e despediu-se de um elemento de peso no seu Governo, em 2015 cabeça de lista por este círculo: José António Vieira da Silva. “Também tinha direito à sua reforma. E merece-a”, disse o secretário-geral socialista sobre aquele que no Governo que lidera foi responsável pela pasta da Segurança Social.

Sobre Tancos, António Costa já tinha falado em Lisboa. Mas só sobre o que quis: as suspeições levantadas por Rui Rio sobre o seu envolvimento no caso. Não respondeu a perguntas, voltando a ficar sem resposta a questão sobre as declarações do seu ex-ministro da Defesa, Azeredo Lopes, que esta quinta-feira veio defender-se dizendo que a acusação do Ministério Público é “é eminentemente política, não tendo provas a sustentá-la”.

Esta sexta-feira, no Porto, o líder socialista vai fazer a tradicional arruada de Santa Catarina e por lá não deverá faltar o candidato pelo distrito, e atualmente deputado, Tiago Barbosa Ribeiro. Aquele que aparece numa interceção às comunicações de Azeredo Lopes, na investigação ao assalto de Tancos, numa das provas centrais apresentada pela acusação para sustentar que o ministro já tinha conhecimento da investigação paralela e ilícita feita pela PJ Militar ao caso. O diabo de António Costa nesta campanha é este e vai voltar à carga ao quarto dia de estrada.