Em 1995, António Guterres pôs na história dos sons de campanha o autor Vangelis, com a escolha do tema “1492, the conquest of paradise”. Foi, por isso, de estranhar que nos altifalantes do comício da noite do PS, em Loulé, soasse outro tema do mesmo músico (e a sonoridade típica de outras noites socialistas) quando o speaker apresentava o atual líder do PS e recandidato nestas legislativas. Provavelmente estranhar não é a palavra certa, já que a estratégia até se cola ao do outro utilizador de Vangelis: nunca, jamais, pedir a maioria absoluta. Aliás, o que António Costa fez esta noite foi até a reagir ao arrefecimento do PS nas sondagens, mobilizar para o voto, isto se querem que o “país não volte para trás”, disse, diabolizando (e a expressão é escolhida a dedo) um regresso do centro-direita ao Governo.

Reportagem do comício de Loulé - Legislativas 2019

Ao som da banda sonora de Chariots of Fire (“Momentos de Glória” na versão nacional), composta por Vangelis, Costa subiu ao palco numa noite algarvia fria — até na plateia pouco animada com os discursos — e, nesta altura, até já parece pouco preocupado em igualar os 112 deputados que Guterres conseguiu depois dessa campanha de 95, a quatro da maioria absoluta. É que há sondagens a mostrar um PS em descida e um PSD a subir. “Há muita gente a fazer contas sobre as eleições, mas há uma coisa que nós sabemos: elas não se perdem nem se ganham em sondagens, só nas urnas e quem vai votar vota no partido que deseja que governe. Quem quer mais quatro anos de estabilidade do Governo do PS deve votar no PS”.

Eis a estratégia do momento numa síntese do próprio socialista habitualmente pouco dado a falar de estudos de opinião — e ainda menos em períodos eleitorais. Uma coisa é certa, este argumento só chega às campanhas por uma de duas razões: ou porque o desempenho do partido é bom e existe medo de desmobilização dos eleitores ou porque os números são maus e é preciso mostrar que do outro lado há um perigo.

O discurso de Costa apontou exclusivamente ao adversário de centro-direita, ou seja, ao Governo PSD/CDS, falando mesmo no que pode acontecer se regressarem ao poder. “Como têm tanto medo do diabo nada nos garante que chegando ao poder não façam tudo isto andar para trás”, disse o líder socialista depois de explicar as medidas o PS que podiam ser revertidas caso o PSD e o CDS — que o PS insiste em dizer que há quatro anos acenou com o diabo — ganhassem as eleições.

Não, connosco o diabo não vem, mas o país também não volta a andar para trás”, atirou depois de já ter prometido ao poeta algarvio, Nuno Júdice (que discursou antes), continuar a ter o “otimismo irritante” que é seu apanágio, segundo o Presidente da República. E há quatro anos, garantiu ainda, “era preciso ser otimista”, disse, para marcar o estado do país e colocando-se na posição de “fazer o que ainda não está feito”. O apelo ao voto de Costa vai para os que querem que o PS seja Governo, para que não dispersem o voto a contar com a vitória.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Começou por dar exemplos locais para sublinhar a importância de manter o PS no poder: “para que a eletrificação da linha do Algarve não fique para trás”; “para que os estudos do hospital central do Algarve cheguem ao fim”; para investir no Serviço Nacional de Saúde; continuar a aposta no sistema de transportes; para combater as alterações climáticas, com o discurso conservador de Donald Trump em mente: “Não podemos imitar os presidentes de alguns países e achar que as alterações climáticas são uma fantasia”.

Algumas das medidas do Governo para a região já tinham sido apontadas pela cabeça de lista do PS por Faro, Jamila Madeira, que também aproveitou o momento para falar de portagens na Via do Infante e atirar a Rui Rio nesta matéria. “Nós queríamos mais do que os 15% de redução dos preços de portagens para os algarvios”. E a socialista comprometeu-se mesmo a “continuar a reduzir”. Não sem nomear o culpado da existência de portagens nessa auto-estrada que atravessa o Algarve: “Ninguém se engane sobre o que pensa Rui Rio sobre esta matéria. Se se recordam da implementação das portagens também se lembram que não estava previsto que ficassem na Via do Infante. Mas foi Rui Rio, na Câmara do Porto, que gritou que houvesse revolta se o Algarve não tivesse também portagens na Via do Infante”.

António Costa seguiu nessa mesma estrada até Espanha, para apontar um exemplo de instabilidade governativa — recorrente nesta campanha — e também aí puxar dos galões de quatro anos no poder. Disse mesmo que só o voto no PS “permite enfrentar desafios que temos e manter a tranquilidade do dia a dia dos portugueses e a confiança do que hoje investem”. Saiu ao som do mesmo tema de Vangelis, à espera de ter, finalmente, o seu “momento de glória” eleitoral em legislativas.