Londres está dividida em duas metades. Na verdade, Londres está dividida em várias partes — mas as maiores, as mais óbvias, são as que estão naturalmente delineadas pelo rio Tamisa. Norte de Londres de um lado, sul de Londres do outro, North London e South London, na designação original. A história mais recente ensinou-nos que o melhor futebol, o futebol de Premier League, o futebol que nos entra pelas televisões todos os fins de semana, está na metade norte: Arsenal, Tottenham e Chelsea estão todos sediados desse lado do rio. Do outro lado, o misticismo já ultrapassa os feitos palpáveis e os clubes, apesar de históricos e reconhecidos, andam arredados das principais decisões, como o Crystal Palace, o Charlton, o Millwall e o Wimbledon.

O rio Tamisa, além de dividir a cidade, parece dividir também o sucesso, o poderio e a qualidade dos clubes que ficam nas margens. E esta divisão, até há pouco tempo, separava não só equipas como jogadores: de forma normal, a maioria dos jovens londrinos que acabava por aparecer a brilhar na Premier League e a saltar para os melhores clubes da Europa era do norte da cidade e tinha começado a formação no Arsenal, no Tottenham, no Chelsea, no Fulham ou em qualquer outro emblema daquele lado de Londres. Este paradigma — que tem, obviamente, as suas exceções, como é o caso de Ian Wright — acabava por causar também uma espécie de preconceito em relação ao sul da capital. O norte, invariavelmente, era mais rico, mais educado, mais sofisticado. No sul, aglomeravam-se os bairros. Mas quem olha para o futebol há algum tempo e quem tem presentes histórias como as de Cristiano Ronaldo, Lionel Messi, Eusébio, Pelé e afins, sabe que é precisamente aí, onde a esperança por vezes escasseia, que o talento acaba por proliferar.

Tammy Abraham, avançado do Chelsea que é atualmente o melhor marcador da Premier League, começou a jogar no sul de Londres

Atualmente, o futebol inglês está a assistir a um boom de jogadores de South London que estão a aparecer nos principais clubes e a ganhar espaço tanto na Premier League como na própria seleção. A geração que se estende desde os últimos anos do século XX até aos primeiros do novo milénio está a tomar de assalto a Europa e em Inglaterra o viveiro está precisamente no lado sul do Tamisa. A revista Versus publicou há pouco tempo uma lista dos 25 melhores jogadores do sul de Londres que estão a chegar ao futebol profissional — num grupo onde estão, entre outros, Callum Hudson-Odoi do Chelsea, Joe Gomez do Liverpool e Wan-Bissaka do Manchester United — mas existe uma história, contada na primeira pessoa, que explica em toda a linha porque é que esta zona da capital inglesa cria tantos jogadores de qualidade.

Reiss Nelson, jogador do Arsenal, contou ao The Players’ Tribune como foi crescer do lado sul de Londres e explicou a importância das cages — jaulas, na tradução literal –, os pequenos recintos onde as crianças começam a jogar futebol na rua com os outros miúdos dos bairros mais próximos. Foi nas cages, onde passava a maioria dos dias, que Reiss Nelson conheceu Jadon Sancho, outro jovem de South London que está a causar furor no futebol europeu ao serviço do Borussia Dortmund. “Eu sou daí, das jaulas. As jaulas, na verdade, são pequenos quadrados de cimento — muito mais pequenos do que um campo de futebol, mais como um court de basquetebol — que estão por todo o lado. Tinham grades de metal à volta. Duas balizas de cada lado. Eu e os meus amigos íamos para lá, desenhávamos uma linha de fundo e era aí que a magia começava”, contou o avançado de 19 anos, que está agora às ordens de Unai Emery depois de um empréstimo ao Hoffenheim.

“Quando eu era pequeno, estava nas jaulas todos os dias depois da escola. Era o melhor sítio porque era onde os miúdos podiam ir e ser eles próprios, sem serem julgados por outros. Essa é a questão sobre vir de um sítio como aquele do qual eu venho. As pessoas que não vivem lá não entendem. Desvalorizam-te, Sempre que eu deixava o bairro para ir jogar a outro campo ouvia sempre: ‘Olha para ti. Vê de onde vens. Isso é tudo aquilo que alguma vez vais ser'”, acrescentou Reiss Nelson, que além de Jadon Sancho — que o motivou a aceitar ser cedido ao Hoffenheim para ganhar experiência –, conheceu ainda Tammy Abraham nestes jogos em South London.

Jadon Sancho e Callum Hudson-Odoi, de Borussia Dortmund e Chelsea, conhecem-se desde os tempos em que jogavam futebol em South London

Em outubro do ano passado, o The Guardian decidiu explicar exatamente porque é que o futuro da seleção inglesa está no sul de Londres e entrevistou Harry Hudson, um antigo treinador das camadas jovens do Crystal Palace, que sublinhou a existência de uma “verdadeira mistura de pessoas que faz com que muitas culturas acabem por estar a jogar juntas, com certos elementos de cada cultura a surgirem”. “Se olharem para o Jadon Sancho ou para o Callum Hudson-Odoi, eles não são jogadores tradicionalmente ingleses, como o David Beckham ou o Paul Scholes, têm um jogo que tem mais a ver com o talento deles. É tudo muito competitivo no sul de Londres. Há uma certa resiliência que os jogadores têm de ter para ser bem sucedidos. É muito cada um por si”, concluiu Harry Hudson. Contas feitas e o entrosamento desta nova geração de ingleses é fácil de explicar: conhecem-se todos há vários anos, jogam juntos e uns contra os outros há vários anos e sabem as grandes valias e os handicaps de cada um há vários anos.

Reiss Nelson, Jadon Sancho e Tammy Abraham, que há poucos anos estavam a jogar uns contra os outros nas cages do sul de Londres, são os senhores que seguem no futebol europeu e na seleção inglesa. Correção: são os guerreiros que se seguem. “Aquela área pequena cria mais talento do que aquilo que se pode imaginar. E há mais aí a aparecer. Por isso, quando as pessoas me perguntam pelo sul de Londres, eu falo das jaulas. E digo-lhes que os guerreiros vêm do sul de Londres. Um pequeno império de guerreiros”, escreveu Reiss Nelson.