O Banco de Portugal revê em alta o crescimento previsto para este ano que deverá atingir os 2%, contra a estimativa de 1,7% antecipada em junho deste ano. No entanto, esta revisão em alta resulta, no essencial, do efeito da alteração das contas nacionais pelo Instituto Nacional de Estatísticas (INE) que levaram a corrigir em alta o valor do produto interno bruto desde 2016, explica o banco central. “A incorporação deste nova informação tem implicações significativas sobre o nível de crescimento e o perfil intra-anual dos principais agregados macroeconómicos, pelo que a projeção não é diretamente comparável à publicada em junho”.

Afinal, Portugal cresceu mais. Qual é a explicação, porquê agora e o que vai mudar?

O Boletim Económico do Outono, apresentado esta quinta-feira, sublinha que o crescimento apontado para a economia portuguesa está 0,9 pontos percentuais acima das estimativas do Banco Central Europeu. No entanto, o produto vai crescer abaixo do verificado em 2018, que foi de 2,4% — já após revisão em alta feita pelo INE do Produto Interno Bruto — confirmando o contexto de desaceleração dos principais motores da economia, e que resulta sobretudo de uma conjuntura externa mais desfavorável e com uma procura externa revista em baixa. E esse abrandamento sente-se já na economia que deverá crescer 1,9% no segundo semestre, abaixo dos 2% da primeira metade do ano.

O banco central avisa ainda que “este diferencial positivo de crescimento positivo, que se observa desde 2016, deve ser enquadrado numa perspetiva mais longa. De facto, nos últimos 25 anos o PIB per capita português não se aproximou dos valores médios observados na UE (União Europeia)”. Num capítulo dedicado à análise da convergência real da União Europeia e desempenho relativo da economia portuguesa, os economistas do banco central concluem que, na comparação entre o PIB per capita dos países da União Europeia, Portugal registou “uma descida da sua posição relativa, passando de 16º em 1995 para 21º em 2018. 

A lista continua a ser liderada pelo Luxemburgo, mas a Irlanda substitui a Alemanha como o segundo país da UE com o maior PIB per capita. O BdP mostra ainda a evolução do produto per capita por região dentro de Portugal, concluindo que a área metropolitana do Porto caiu do terceiro lugar para o sétimo lugar dentro nas regiões NUTS.

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Depois de constatar que houve um período de convergência longo entre 1060 e os anos 90, o Banco de Portugal realça que esse processo não prosseguiu depois de meados dos anos 90. O resultado é que em 2018, o PIB per capita estava abaixo do verificado em 1995. A análise associa ainda a estagnação da convergência à “evolução relativa desfavorável da produtividade total de fatores, assinalando contudo o contributo positivo do capital humano neste período.

Sobre os indicadores que puxam pelo crescimento este ano, o Banco de Portugal destaca o investimento (formação bruta de capital fixo) que deverá acelerar 7,2% este ano, uma progressão maior do que a verificada no ano passado, mas que fica mais de um ponto percentual abaixo da estimativa feita em junho. Aceleração é atribuída sobretudo à construção de que deverá manter a performance muito favorável no segundo semestre, mas também mais negativa que na primeira metade do ano.

As previsões revistas pelo Banco de Portugal limitam-se ao cenário económico para este ano.

As exportações de bens e serviços que devem subir 2,3% este ano, ainda que abaixo dos 3,8% do ano passado e da estimativa avançada em junho e que remetia para 4,5%. O banco central espera que as empresas portuguesas continuem a ganhar quotas de mercado externo, sobretudo no turismo e produção automóvel. E refere a manutenção do contributo da procura interna líquida, com mais investimento e uma ligeira redução do contributo do consumo.

O Banco de Portugal assinala ainda uma redução acentuada da inflação prevista para este ano, que deverá baixar para 0,4%, contra os 1,2% de 2018, o que reflete “a queda no preço dos bens energéticos e a desaceleração dos serviços”, que resulta da incorporação de informação mais recente e revisão de cenários externos. E indica uma redução da capacidade de financiamento da economia portuguesa para 0,5% do produto, contra 1,4% no ano passado. A balança de bens e serviços deverá chegar ao final do ano com um défice de 0,7%, quando no ano passado o saldo era positivo em 1,2%.

Os grandes riscos a este cenário são de origem externa.

  • A desaceleração mais acentuada nos principais mercados de exportação, sobretudo da União Europeia
  • Intensificação de tendências protecionistas
  • Saída sem acordo da União Europeia por parte do Reino Unido
  • O agravamento dos conflitos geopolíticos.