Estima-se que por ano haja mais de 420 milhões de contentores a circular em todo o mundo, transportados por terra (seja em estrada ou de comboio) e sobretudo em navios de carga. É naquelas “caixas” de 2,60 metros de altura e uma área que vai dos 5 aos 28 metros quadrados que transita cerca de 90% dos bens comercializados em todo o mundo.

E, no meio dessa avalanche de números, está ainda outra dura realidade: é também naqueles contentores que circulam, além de armas e drogas, pessoas que são vítimas de tráfico humano. Embora os números e situações daqueles que chegam com vida aos sítios para onde são levados sejam desconhecidos, ao longo dos últimos anos não têm faltado casos em que são encontrados migrantes e vítimas de tráfico humano mortos num destes contentores.

Foi esse o caso de 39 pessoas, todos adultos à exceção de um adolescente, que foram encontrados sem vida dentro de um contentor transportado por um camião búlgaro e registado numa empresa irlandesa. A rota feita por aquele camião e o contentor por ele transportado é até agora desconhecida. Sabe-se apenas que o camião chegou ao porto de Holyhead (no Reino Unido) chegado da Irlanda. Antes da Irlanda, é possível que o camião e o contentor tenham embarcado num de quatro portos: Roterdão (Holanda), Zeebrugge (Bélgica), Cherbourg ou Roscoff (França) ou ainda Santander (Espanha).

O caso está a ser investigado (a Justiça belga, por exemplo, já abriu uma investigação para saber se o camião saiu de Zeebrugge), sendo que a polícia britânica deteve o condutor do camião, um homem identificado como Mo Robinson, cidadão britânico da Irlanda do Norte. É suspeito de homicídio.

Numa altura em que a morte destas 39 pessoas está a ser investigada, recordamos outros casos recentes em que também se registaram mortes de pessoas, migrantes e vítimas de tráfico humano, que foram transportadas ou fechadas em contentores ou em camiões de carga.

Janeiro de 2000 – 3 mortos em contentor da China para Seattle

É um dos registos mais antigos de migrantes mortos em carregamentos feitos com recurso a contentores de carga: três chineses morreram durante uma viagem que os levou do seu país de origem até Seattle, cidade costeira no noroeste dos EUA. Além das três vítimas mortais, havia outros 15 homens a serem transportados naquelas condições, mas que sobreviveram.

De acordo com aquilo que escreveu o The New York Times à altura, viajavam todos sob a promessa de pagaram dezenas de milhares de dólares em futuros salários. O Los Angeles Times também escreveu então que aqueles homens estiveram cinco dias dentro de um contentor numa cidade costeira na China à espera de serem transportados para um cargueiro, tendo chegado aos EUA apenas duas semanas depois.

Este caso chamou a atenção para os contentores com cidadãos chineses que partiam para cidades costeiras dos EUA e também da Europa — uma realidade que atingiria proporções inéditas meses depois, no Reino Unido.

Junho de 2000 – 58 chineses mortos entre carregamento de tomate para o Reino Unido

Até hoje, foi o caso mais mortífero do Reino Unido: 54 homens e quatro mulheres de nacionalidade chinesa foram encontrados mortos num contentor de carga no porto inglês de Dover. Dentro de um contentor onde seguia também um carregamento de tomate que tinha partido do porto de Zeeburgge, na Bélgica, aqueles migrantes terão estado 18 horas dentro daquele contentor. Apesar de estar equipado para ser refrigerado, o contentor estava à temperatura ambiente — um fator letal, tendo em conta que estavam 32 graus no dia em que aquele contentor de metal chegou a Dover.

Houve apenas dois sobreviventes, ambos do sexo masculino, a bordo daquele contentor. O condutor, um cidadão holandês de 33 anos identificado como Perry Wacker, foi detido no local e mais tarde condenado a 14 anos de prisão por participar num grupo organizado de tráfico de seres humanos.

Abril de 2009 – 62 mortos em contentor no Paquistão

Eram mais de 100 as pessoas que foram encontradas num contentor de carga no sudoeste do Paquistão. Na altura em que o contentor foi descoberto pelas autoridades daquele país, 35 das vítimas já estavam mortas. Esse número viria ainda a subir para 62, com pessoas que não foram levadas a tempo para um hospital ou que morreram apesar de lhes terem sido prestados cuidados médicos. A maior parte das vítimas eram afegãos, que se preparavam para serem enviados para o Irão.

Agosto de 2014 – 1 morto entre 35 pessoas num contentor em Tilbury (Inglaterra)

Um grupo de 35 sikhs afegãos foi descoberto dentro de um contentor de carga nas docas de Tilbury, em Essex, as mesmas onde se descobriram as 39 pessoas mortas a bordo de um camião búlgaro. O grupo incluía pelo menos nove homens e oito mulheres entre os 18 e os 72 anos e, além disso, tinha também treze criança, entre um e 12 anos. Destes todos, morreu uma pessoa: um homem de 40 anos, identificado como Meet Singh Kapoor. A vítima mortal fez aquele trajeto juntamente com a mulher e os dois filhos, com nove e 12 anos. Estiveram todos 18 horas dentro daquele contentor, ao fim das quais várias pessoas estavam já à beira de ficarem inconscientes por falta de oxigénio.

Agosto de 2015 – 71 mortos em camião abandonado em auto-estrada na Áustria

É a conta mais mortífera até à data deste tipo de incidente: em agosto de 2015, foram encontradas 71 pessoas mortas a bordo de um camião de carga que tinha sido abandonado numa auto-estrada da Áustria. Eram 59 homens, oito mulheres e oito crianças, entre as quais uma bebé com menos de um ano. A maioria das vítimas era de nacionalidade iraquiana, mas também havia pessoas do Afeganistão e da Síria dentro daquele camião registado na Hungria.

A carrinha húngara onde morreram 71 sírios, iraquianos e afegãos era conduzida por um búlgaro e parte de uma rede coordenada por um homem do Afeganistão (Vladimir Simicek/AFP/Getty Images)

O caso foi alvo de um julgamento na Hungria em que quatro homens diretamente envolvidos com aquela ocorrência foram condenados a penas de 25 anos de prisão: um cidadão afegão, identificado como líder de um gangue de tráfico de seres humanos; além de três búlgaros. Além disso, foram condenados outros dez búlgaros, também declarados culpados do crime de tráfico de seres humanos, mas que tiveram penas mais leves.

O tribunal determinou que os traficantes de seres humanos ignoraram os murros e outras pancadas que as suas vítimas deram à estrutura da carrinha a partir de dentro, como sinal de pânico. O líder do grupo (um afegão de 31 anos identificado como Samsoor Lahoo) terá mesmo dito ao condutor da carrinha (um búlgaro de 27 anos residente na Hungria e identificado como Mitko) para não ligar aos gritos das vítimas e seguir caminho.

Janeiro de 2019 – 13 migrantes sufocados em contentor na costa da Líbia

Um total de 13 migrantes e vítimas de tráfico humano foram encontrados mortos num contentor de carga que estava ao largo de Khoms, localidade costeira na Líbia. Além destas vítimas mortais, outros 14 migrantes morreram depois de se afogarem. Foram ainda retiradas daquele contentor 56 pessoas com vida, mas feridas, inclusive com fraturas.

Este não é caso único na Líbia, país onde atuam várias redes de tráfico de seres humanos e um dos sítios mais críticos da passagem dos migrantes que tentam chegar à Europa vindos do Norte de África. Em julho de 2018, foram encontradas oito pessoas mortas entre outras 90 que estavam escondidas num contentor, ao largo de Zuwarah.