O Irão prometeu vingança — e diz que até já decidiu como fazê-lo, “no tempo e local apropriados” —, os Estados Unidos dizem estar prontos. As armas dos dois países estão apontadas um ao outro desde que Donald Trump ordenou a morte de Qassem Soleimani, o homem mais poderoso do Irão, através de uma operação especial posta em prática na madrugada desta sexta-feira. É o último passo de uma tensão que vem aumentando nos últimos meses, e de forma mais visível desde 27 de dezembro. O Irão diz que vai agir contra aquilo que considera ser “um ato de guerra”. Mas como?

O drone militar, os mísseis teleguiados e o anel. Os detalhes da operação que matou Soleimani numa madrugada

Atacar posições americanas no Oriente

Em entrevista ao The Jerusalem Post, Philip Smyth, um investigador do Instituto de Washington para a Política do Oriente Próximo, considerou que o Irão “pode muito bem” atacar os países orientais diplomaticamente mais próximos aos Estados Unidos — nomeadamente disparando mísseis para as posições americanas no Iraque. Outra hipótese em cima da mesa é o Irão recrutar células do Hezbollah no Líbano ou dos Houthis no Iémen.

Se esta for a estratégia iraniana para vingar a morte do general Qassem Soleimani, então a questão passa a ser quando é que esse ataque vai acontecer. Para Philip Smyth, é possível que o Irão não responda já aos Estados Unidos, uma vez que “eles gostam muito de ser pacientes”, porque “eles sabem que nós, o Ocidente como um todo, temos um intervalo de atenção muito curto”.

Por isso, o investigador alerta que os iranianos podem aproveitar esse calcanhar de Aquiles do Ocidente para “responder conforme a agenda deles”: “Na verdade, tudo se resume ao que eles querem fazer e à eficácia que eles pensam que isso terá para obter maiores ganhos estratégicos”, conclui Philip Smyth.

O presidente norte-americano Donald Trump com Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro israelita, no Museu de Israel em Jerusalém em 2017. Créditos: MANDEL NGAN/AFP via Getty Images

Atacar diplomatas ocidentais, não só americanos

Outra opção, considerou o investigador Philip Smyth, é que o Irão ataque diplomatas ocidentais — e não necessariamente apenas norte-americanos — que estejam colocados em países do Médio Oriente, sobretudo no Iraque e em Teerão. “Os esquemas de segurança do Irão procurarão continuar a política de abrir um corredor para o Mediterrâneo”, explicou. Afugentando os ocidentais nesses país, esse objetivo fica mais próximo de ser alcançado.

Com que armas? Para o especialista, “podem tentar recuperar os dispositivos de terrorismo internacional, utilizando o Hezbollah e uma variedade de outras personagens, inclusivamente o Exército dos Guardiães da Revolução Islâmica”. “Tudo isto pode mesmo acontecer”, alertou Philip Smyth.

Donald Trump com Barham Saleh, presidente do Iraque, numa reunião em Nova Iorque em 2019. Créditos: SAUL LOEB/AFP via Getty Images

Bombardear o Golfo Pérsico

Outra hipótese é que o Irão escolha o Estreito de Ormuz, o Golfo de Omã ou o Golfo Pérsico como palco da retaliação. Esta tem sido a preocupações dos britânicos desde que perceberam que os Estados Unidos tinham levado a cabo o ataque contra Qassem Soleimani sem avisar o Reino Unido. Segundo o Financial Times, o governo teme que o Irão responda aos norte-americanos através do Estreito de Ormuz — onde, há um ano, um navio-tanque britânico foi atacado pelos iranianos.

Mais do que o impacto que um ataque nessa região do planeta causaria no trânsito de petróleo para o resto do mundo, inclusivamente para os Estados Unidos, isso afetaria o país porque há milhares de cidadãos norte-americanos a trabalhar em navios de guerra e aeronaves destacados naquele local. A vida de todos eles estaria em perigo caso o Irão retaliasse a morte de Soleimani no golfo.

Quem é Qassem Soleimani, o general de elite do Irão morto pelos EUA?

Isso mesmo alerta a Sky News, acrescentando que “seria uma ação altamente perigosa que forçaria os Estados Unidos a atacar diretamente o Irão”: “Um ataque de raiva que rapidamente correria o risco de cair em guerra”, descreve.

Quanto ao Reino Unido, um membro não identificado do governo confirmou que o Reino Unido está a ponderar se deve ou não enviar reforços para o estreito de Ormuz, que é uma região de intenso tráfego de petróleo dos produtores árabes para o resto do mundo. Essa decisão será tomada numa reunião governamental ainda esta sexta-feira.

Um mural mostra os conflitos passados ​​entre os guardas revolucionários do Irão e a marinha dos EUA no Estreito de Ormuz em 2017. Créditos: Kaveh Kazemi/Getty Images

Preparar um ciberataque nos Estados Unidos

Uma hipótese que pode estar a ser considerada pelo Irão é a organização de um ciberataque, que não exige cruzadas até outros países porque pode ser montado dentro do Irão; e porque não coloca forças iranianas em xeque. É essa a análise da Sky News: “É altamente improvável que seja feita qualquer tentativa de lançar um ataque militar convencional em solo americano, como com um míssil de cruzeiro. Mas isso não descarta a possibilidade de ataques cibernéticos”, conclui.

Isso permitiria ao Irão responder aos Estados Unidos sem arriscar entrar num conflito direto como o que poderia eclodir caso respondesse a Donald Trump a partir dos percursos do petróleo. Além disso, os iranianos já se estrearam no campo dos ataques informáticos. Em novembro do ano passado, o grupo de hackers  APT33 atacou várias empresas do ramo petrolífero dos Estados Unidos e dos aliados norte-americanos, inclusivamente a Saudi Aramco, escreveu à época a Forbes.

Um grande júri no Distrito Sul de Nova York indiciou sete iranianos, funcionários de duas empresas de computadores baseadas no Irão que realizaram trabalhos em nome do governo iraniano, por acusações de hacking numa extensa campanha de mais de 176 dias ataques distribuídos de negação de serviço (DDoS). Créditos: Alex Wong/Getty Images

Desencadear um ataque nuclear

As relações diplomáticas entre os Estados Unidos e o Irão têm sido tensas desde os tempos da Revolução Iraniana. No entanto, a animosidade entre a administração de Donald Trump e o país aprofundou-se em maio de 2018, quando o presidente norte-americano decidiu tirar os Estados Unidos do acordo nuclear com o Irão e outras potências mundiais alcançado por Barack Obama no mandato anterior.

Por isso, a Sky News considera que outra hipótese de retaliação é precisamente a partir desse acordo, que o Irão insiste em violar: “Teerão também pode cometer violações adicionais de um acordo nuclear em conflito com potências globais. Os Estados Unidos já não fazem parte, mas a Grã-Bretanha, a França e outras potências ainda veem o pacto como a única maneira de impedir que o Irão se torne um estado de armas nucleares”, terminou.

Federica Mogherini, Alta Representante da UE para Negócios Estrangeiros e Política de Segurança; e o Ministro das Relações Exteriores do Irão, Mohammad Javad Zarif, numa reunião ministerial da Rússia, China, Reino Unido, França, Alemanha e Irão para discutir a implementação de um acordo nuclear alcançado em 2015. Créditos: Alexander Shcherbak\TASS via Getty Images