Qassem Soleimani surge na fotografia ao mesmo tempo que as relações diplomáticas entre o Irão e os Estados Unidos começaram a arrefecer. Nascido em 1957 no seio de uma família pobre, filho de um agricultor, de trabalhador da construção civil — uma profissão que assumiu para pagar dívidas do pai — e amante do ginásio, Qassem Soleimani tornou-se responsável pelas operações externas da Guarda Revolucionária Iraniana — uma divisão das forças armadas em que tinha entrado logo a seguir à Revolução Iraniana. Morreu esta sexta-feira após um ataque aéreo dos Estados Unidos ordenado pelo presidente Donald Trump. Era considerado um dos homens mais poderosos do Médio Oriente.

Antes de liderar a força de elite da Guarda Revolucionária Iraniana, Qassem Soleimani também esteve no campo de batalha. Em 1980, quando a guerra entre o Irão e o Iraque disparou, foi ele quem reuniu e liderou as tropas da cidade de Kerman. Tinha apenas seis semanas de treino militar quando combateu na província de Azerbaijão Oriental. Quando o conflito terminou, Qassem Soleimani era um herói: “Entrei na guerra para uma missão de 15 dias, acabei por ficar até ao fim. Éramos todos jovens e queríamos servir a revolução”, recordou ele numa entrevista em 2013.

Ainda não tinha chegado aos 30 quando começou a emergir como um nome sonante dentro das forças armadas iranianas. Em 1998, já na casa dos 40, tornou-se líder da Força Quds — um líder discreto que “raramente levantava a voz”. Segundo o ayatollah Ali Khamenei, “durante anos foi seu desejo tornar-se um mártir”. Agora era apontado como um possível nome para assumir o comando do Irão, mas “Deus concedeu-lhe o seu mais alto cargo” ao ser abatido pelos Estados Unidos, concluiu.

Qassem Soleimani não era só um general — embora fosse o mais importante de todos no Irão e, em termos de popularidade, só ultrapassado pelo ayatollah, pois até o presidente Hassan Rohani lhe ficava atrás. Era também um diplomata na medida em que assentou no Médio Oriente uma influência iraniana que apertou laços com a Síria, onde ajudou Bashar al-Assad a combater o Estado Islâmico. Tudo isto fez dele uma das 100 pessoas mais influentes do mundo em 2017, de acordo com a análise da revista Time. E é daqui que vem a comoção iraniana perante a morte de Qassem Soleimani. “O seu sangue puro foi derramado nas mãos dos seres humanos mais depravados”, condenou Ali Khamenei.

Para os xiitas do Médio Oriente, é uma mistura de James Bond, Erwin Rommel e Lady Gaga“, escreveu o antigo analista da CIA Kenneth Pollack, sobre o perfil de Soleimani, para o número da revista Time, recorda a Agência Lusa. Já para o Ocidente, “é responsável de ter exportado a revolução islâmica do Irão, de apoiar terroristas (…) e de conduzir as guerras do Irão no estrangeiro”, notou Kenneth Pollack.

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Qassem Soleimani já tinha escapado à morte muitas vezes. Em finais de 1981, enquanto combatia na Operação Tariq al-Qods, em que o Irão libertou a cidade de Bostan, o general iraniano ficou gravemente ferido. Numa entrevista nos anos 90 veio a recordar essa missão como “muito memorável”, “a melhor” que tinha conduzido. Para ele “a guerra entre o Iraque e o Irão nunca tinha realmente acabado”, disse Ryan C. Crocker, embaixador americano no Iraque, recorda o The New York Times: “Nenhum ser humano poderia ter passado por um conflito ao estilo da Primeira Guerra Mundial e não ter sido afetado para sempre. O seu objetivo estratégico era uma vitória direta sobre o Iraque e, se isso não fosse possível, criar e influenciar um Iraque fraco”.

Esses tempos de heroísmo nacional regressaram durante a guerra civil na Síria, quando Soleimani enviou milícias iraquianas para defender al-Assad. Ao Aljazeera, Mohammad Marandi, professor de Estudos Americanos na Universidade de Teerão, diz que é daí que vem a importância nacional do general iraniano: “Se não fosse por pessoas como ele, esta região teria visto bandeiras negras voando pela região”.

Desde a entrada no mundo militar que Soleimani já esteve na mira dos israelitas, da Arábia Saudita e dos Estados Unidos. Aconteceu em 2006, quando seguia a bordo de um avião que se despenhou — um acidente que matou outros militares iranianos, mas não Qassem Soleimani. Seis anos depois, chegou a ser dado como morto durante um bombardeamento em Damasco que matou outros aliados de al-Assad. Em outubro de 2019, Teerão desmantelou um plano israelita e saudita para matar o general iraniano. Desta vez,  Soleimani sucumbiu mesmo durante um ataque norte-americano junto ao Aeroporto de Bagdade. Tinha 62 anos.

Desde 2011 que os Estados Unidos consideraram o general iraniano como um terrorista estrangeiro, acusado ​​de uma conspiração para matar o embaixador da Arábia Saudita em Washington e de gerir iniciativas que resultaram na morte de centenas de soldados norte-americanos no Iraque. A animosidade entre os norte-americanos e Qassem Soleimani é antiga, mas vincou-se em 2001 com a invasão do Afeganistão. Ryan Crocker, antigo embaixador dos Estados Unidos no Afeganistão e no Iraque, disse à BBC em 2013: “Os meus interlocutores iranianos foram muito claros quanto ao facto de, mesmo que informassem o Ministério dos Negócios Estrangeiros, no final de contas, era o general Suleimani que tomava as decisões”.