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Quando aterrou no Aeroporto Internacional de Bagdad, no Iraque, o general iraniano Qassam Soleimani, acabado de chegar do Líbano ou da Síria, juntou-se ao comandante Abu Mahdi al-Muhandis numa escolta. Os dois estavam a ser levados para uma reunião com os líderes das milícias iraquianas quando um drone militar MQ-9 Reaper disparou “vários mísseis” teleguiados sobre o carro em que seguiam. Os dois morreram no início da madrugada desta sexta-feira (hora de Lisboa).

Uma fonte militar iraquiana disse à Associated Press que, quando os soldados das Forças de Mobilização Popular se aproximaram do local do ataque, numa estrada de acesso ao aeroporto, o cadáver de Qassam Soleimani estava desfeito. O corpo do general iraniano, o mais poderoso do país e um herói nacional, só foi identificado por causa do anel que costumava usar. Já os restos mortais de al-Muhandis ainda não foram identificados.

Na televisão governamental, ao anunciar a morte do general, o pivô recitou uma oração islâmica — “De Deus viemos e para Deus regressamos” — com uma fotografia de Soleimani atrás dele.

A autoria tinha sido do Comando de Operações Especiais Conjuntas, uma unidade de operações especiais das forças armadas norte-americanas. Um oficial envolvido na preparação do ataque explicou ao The New York Times que a equipa já estava a postos desde quinta-feira. Sabiam onde estava Soleimani graças a pistas confidenciais disponibilizadas por informadores, aeronaves de reconhecimento, satélites de espionagem e intercepções eletrónicas. Só faltava colocar o plano em prática.

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Na quinta-feira à noite, três mísseis foram disparados junto ao aeroporto sem provocar feridos. Nesta sexta-feira, poucas horas depois do primeiro ataque, a força de elite foi mais certeira.

Primeiro, os militares norte-americanos deixaram dois carros aproximarem-se do avião em que Soleimani seguia, que entrou num deles enquanto o outro estava ocupado por Abu Mahdi al-Muhandis. Depois, deram tempo para a escolta começar a sair do aeroporto de Bagdad. Só aí é que lançaram “múltiplos mísseis”. Pouco depois, Donald Trump publicava a imagem da bandeira norte-americana no Twitter. E Mark Esper, secretário de Estado da Defesa, reivindicava a autoria do ataque.

[Irão pede vingança, iraquianos celebram morte de Soleimani:]

O ataque de 3 de janeiro foi o culminar de sete dias de particular tensão na relação entre os Estados Unidos e o Irão — uma tensão que, na verdade, já remonta a maio de 2018 quando Trump saiu do acordo nuclear com o Irão. A 27 de dezembro, precisamente há uma semana, um americano morreu e seis pessoas ficaram feridas — quatro americanos e dois iraquianos — quando 30 mísseis atingiram uma base militar em Kirkuk. Dois dias depois, 24 membros de uma milícia iraniana morreram no Iraque e na Síria por causa de uma série de ataques aéreos norte-americanos.

Em resposta, a 31 de dezembro, uma milícia pró-iraniana atravessou a ponte sobre o rio Tigre, entrou na Zona Verde de Bagdad, seguiu pela Rua Al Kindi e, depois de incendiar a recepção e o posto dos seguranças, entrou na embaixada norte-americana no Iraque e fez reféns os representantes dos Estados Unidos no local. Foi em resposta a esse ataque, que durou 24 horas, que Donald Trump ordenou ao Comando de Operações Especiais Conjuntas para abater Qassam Soleimani.

Essa é a justificação da Defesa norte-americana, que em conferência de imprensa confirmou: “O general Soleimani estava ativamente a desenvolver planos para atacar diplomatas americanos no Iraque e na região. Ele e a Al-Quds foram responsáveis pela morte de centenas de americanos e elementos da coligação e pelo ferimento de outros milhares. Orquestrou ataques a bases da coligação no Iraque nos últimos 7 meses, incluindo o ataque de 27 de dezembro, que culminou com a morte e ferimentos de mais pessoal americano e iraquiano. Também aprovou os ataques desta semana à embaixada americana em Bagdad. O ataque teve como objetivo travar novos planos de ataque iranianos”.