Uma nova escalada de violência está fora dos planos dos Estados Unidos. Durante o discurso que Donald Trump dirigiu à nação, a partir do foyer da Casa Branca, na tarde desta quarta-feira, não foi feita nenhuma ameaça de retaliação. Ou melhor: nenhuma ameaça de retaliação militar, já que o Presidente norte-americano prometeu um contra-ataque, mas que passa por novas sanções económicas.

Em cinco ideias, perceba as entrelinhas do discurso de Donald Trump. No Observador, continuamos a acompanhar a situação em direto, minuto a minuto, no nosso liveblog.

“O Irão parece estar a recuar”. Trump avança com novas sanções mas arrefece crise

Trump confirma ausência de vítimas e evita escalada

“O Irão parece estar a recuar, o que é uma coisa boa para todas as partes envolvidas e uma coisa muito boa para o mundo.”

A prudência de Donald Trump já tinha sido elogiada pelo líder dos senadores republicanos, Mitch McConnell, e pelo líder dos republicanos no Congresso, Kevin McCarthy. Durante o seu discurso à nação, depois dos ataques do Irão a duas bases que albergam tropas norte-americanas, o tom manteve-se. Não houve ameaças de usar o poderio militar dos EUA sobre o Irão ou sequer de reforçar o contingente de tropas na região. Em vez disso, Trump leu na teatralidade dos ataques — que já vários jornais, citando fontes governamentais norte-americanas, disseram ter sido planeados ao detalhe para evitar baixas — a janela para travar a escalada de violência.

“Os Estados Unidos estão prontos para abraçar a paz com todos aqueles que a procurem”, sublinhou na sua intervenção, garantindo não haver mortes a lamentar e frisando que os danos materiais inflingidos às bases “foram mínimos”.

EUA não recorrem à retaliação militar, mas carregam nas sanções

“Os Estados Unidos irão, de imediato, impor novas sanções económicas ao regime iraniano. Essas sanções poderosas irão manter-se até que o Irão mude o seu comportamento.”

Sem mais detalhes, Trump prometeu aumentar as sanções económicas sobre o Irão. Tendo em conta que há vários anos que o país impõe este tipo bloqueio ao regime iraniano, órgãos de comunicação social como a CNN afirmam que é difícil de prever o que podem ainda fazer os Estados Unidos que afete a economia iraniana mais do que já foi afetada até à data.

O que se sabe e o que falta saber sobre o ataque do Irão às duas bases que abrigam tropas norte-americanas

Trump apela à UE e NATO para que Irão continue a ser barrado no clube nuclear

“Enquanto eu for Presidente dos Estados Unidos, o Irão não terá jamais uma arma nuclear.”

Tem sido uma das teclas mais pressionadas por Donald Trump ao longo da sua presidência e um dos motivos que o levou a rasgar o acordo nuclear que cinco países assinaram com o Irão: garantir que o país não entra no clube nuclear. É assim que é chamado o grupo de Estados que têm armas nucleares — EUA, Rússia, Reino Unido, França e China, segundo o Tratado de Não Proliferação Nuclear, a que se juntam Índia, Paquistão e Coreia do Norte, países que têm realizado testes nucleares.

Na sua declaração, Trump dirigiu-se aos países que assinaram o acordo nuclear com o Irão — França, Rússia, Reino Unido, Alemanha e China — pedindo-lhes que também rasguem o documento. Isso deixa os aliados europeus numa situação complicada (a UE também é signatária do acordo) já que os obrigará a tomar um partido claro na disputa entre os dois países. Já no caso da China, trata-se da principal exportadora de petróleo do Irão e há muitas nuances diplomáticas e comerciais a considerar. Mesmo sabendo que coloca os restantes países numa posição delicada, Trump não hesitou: “As hostilidades do Irão aumentaram substancialmente depois de ter sido assinado o tolo acordo nuclear de 2013”, disse.

Pelo caminho, o Presidente dos EUA avançou que também irá pedir à NATO que se “envolva mais” no processo do Médio Oriente e apelou a todos os Estados que reconheçam que o Irão tem de acabar com as suas ambições nucleares.

“O tempo chegou para a China, a Rússia, a França, a Alemanha e o Reino Unido reconhecerem essa realidade. Devem sair do acordo com o Irão. Temos todos de trabalhar em conjunto para celebrar um acordo com o Irão que torne o mundo um lugar mais seguro e pacífico”, acrescentou.

[Vídeo. Ataque contra os EUA “ainda não foi suficiente”, diz o líder do Irão:]

Sem arrependimentos: Soleimani era um “terrorista”

“Soleimani era o principal terrorista do mundo.”

Trump fez questão de sublinhar que foi ele quem ordenou o ataque com drones que, na sexta-feira passada, matou o general Qassem Soleimani, líder de uma divisão de elite da Guarda Revolucionária do Irão, um braço das Forças Armadas do país. Foi como retaliação a esse ataque, em solo iraquiano, que o Irão lançou dezenas de mísseis contra duas bases no mesmo país.

“Ele estava a planear novos ataques a alvos norte-americanos, mas nós travámo-lo”, assegurou o Presidente dos EUA. “Devia ter sido abatido há muito tempo. Enviámos uma mensagem poderosa contra todos os terroristas.”

Donald Trump sublinhou ainda que o Irão “tem sido o principal patrocinador do terrorismo” no mundo. “Desde 1979 que temos tolerado o seu comportamento desestabilizador. Esses dias acabaram.” No entanto, sublinhou que deseja um futuro harmonioso para o país. “Para todas as pessoas e líderes do Irão, queremos que tenham um futuro, e um ótimo futuro, um que mereçam. Um de prosperidade em casa e harmonia com as nações do mundo”, concluiu.

[Vídeo. O essencial do discurso de alerta ao Irão:]

Petróleo? Estados Unidos são independentes

“Não precisamos do petróleo do Médio Oriente.”

Para evitar as habituais acusações — como aconteceu, por exemplo, com as guerras no Iraque — de que os Estados Unidos só se envolvem em conflitos quando está em causa petróleo, Donald Trump quis deixar claro que não está interessado nos recursos naturais da região. “Somos o produtor número um de petróleo e de gás natural do mundo. Somos independentes e não precisamos do petróleo do Médio Oriente”, afirmou o Presidente norte-americano. Para terminar, mostrando que há vias diplomáticas que podem ser seguidas e interesses comuns que podem aproximar as duas nações, sugeriu uma aliança com o Irão no combate ao terrorismo. “Destruímos o Estado Islâmico, matámos o líder al-Baghdadi. Era um monstro. Estava a tentar reconstruir o Califado, mas falhou. O Estado Islâmico é um inimigo natural do Irão e devíamos trabalhar juntos nestas prioridades que partilhamos.”