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André Almeida e uma ressurreição de quem viu a Luz (a crónica do Benfica-Desp. Aves)

Esteve expulso, voltou, fez o golo decisivo: André Almeida valeu a reviravolta e a vitória ao Benfica frente ao Desp. Aves no jogo em voltou à equipa depois de ausência prolongada por lesão (2-1).

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O capitão encarnado não jogava há sete jogos

LUSA

O capitão encarnado não jogava há sete jogos

LUSA

Existe a tendência para dizer, nos últimos tempos, que se vive na Luz uma aura de positivismo. Uma espécie de ideia, sempre presente e sempre constante, de que tudo está a correr bem, de que tudo está no bom caminho. O ano de 2020 e o mês de janeiro, unidades temporais que levam apenas dez dias de duração, engrossaram essa aura para um estado de confiança com raros precedentes no passado recente. De repente, o Benfica contratou um jogador por 20 milhões de euros, vendeu outro que nunca deu o rendimento esperado por mais do que aquilo que havia dado por ele, ultrapassou em Guimarães um dos jogos mais complexos da temporada e continua em primeiro.

Mas este é um estado de confiança que se estende para lá disso. É um estado de confiança institucional que se vai repercutindo no panorama desportivo: não só no futebol, que acaba por ter mais visibilidade, como nas restantes modalidades. Nesta altura, no setor masculino, o Benfica é líder no futebol, no hóquei em patins, no voleibol, no basquetebol (em igualdade com o Sporting) e no futsal; no setor feminino, repete a liderança no futebol, no hóquei em patins e no futsal. Afunilando este estado de graça para o futebol e para a equipa de Bruno Lage, o Benfica recebia esta sexta-feira o Desp. Aves, último classificado, com o conforto de saber que nem uma derrota roubaria a liderança. E com a certeza de que um deslize do FC Porto em Moreira de Cónegos, onde não ganhou nas duas últimas épocas, significaria o conquistar de uma distância pontual que dificilmente é anulada.

Ficha de jogo

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Benfica-Desp. Aves, 2-1

16.ª jornada da Primeira Liga

Estádio da Luz, em Lisboa

Árbitro: Carlos Xistra (AF Castelo Branco)

Benfica: Vlachodimos, André Almeida, Rúben Dias, Ferro, Grimaldo, Weigl (Cervi, 61’), Gabriel, Pizzi, Jota (Vinícius, 45’), Chiquinho, Seferovic (Samaris, 90+3’)

Suplentes não utilizados: Zlobin, Caio, Gedson, Tomás Tavares

Treinador: Bruno Lage

Desp. Aves: Beunardeau, Banjaqui, Dzwigala (Cláudio Tavares, 66’), Bruno Morais, Ricardo Mangas, Rúben Oliveira, Falcão, Estrela, Kevin Yamga, Mohammadi, Reko (Wellington, 84’)

Suplentes não utilizados: Szymonek, Enzo, Miguel Tavares, Afonso Figueiredo, Bruno Lourenço

Treinador: Nuno Manta Santos

Golos: Mohammadi (20’), Pizzi (gp, 76’), André Almeida (89’)

Ação disciplinar: cartão amarelo a Reko (12’), Chiquinho (23’), Banjaqui (44’), André Almeida (54’), Vinícius (72’), Samaris (90+5’)

Isto porque, por muito que o Benfica ainda tenha de visitar Dragão e Alvalade e receber Sporting, Sp. Braga e V. Guimarães na Luz, a verdade é que os encarnados já provaram que são uma equipa difícil de derrotar. Podem não ganhar, podem até empatar — mas dificilmente perdem. A eficácia demolidora demonstrada no D. Afonso Henriques, com um golo solitário de Cervi que resolveu um jogo onde o V. Guimarães até foi a espaços superior, deixou notória não só uma estrelinha de campeão cada vez mais evidente como também a capacidade assinalável do Benfica de aproveitar as oportunidades que tem. Pode não ser, por vezes, a melhor equipa em campo; pode não ser, por vezes, a equipa que melhor futebol demonstra em campo; pode ser, por vezes, a equipa que mais tempo passa a defender: mas é, quase sempre, a equipa que marca mais golos até ao apito final.

Era com esta bagagem que o Benfica recebia então, esta sexta-feira, o Desp. Aves de Nuno Manta Santos, último classificado com apenas seis pontos. Os extremos tocavam-se e Bruno Lage oferecia a titularidade a Weigl na estreia do médio alemão, também para fazer face à ausência de Taarabt, que viu o quinto amarelo em Guimarães e estava castigado. O facto de receber em casa — o sítio onde, até esta sexta-feira, apenas o FC Porto tinha conseguido marcar golos — o último terá levado Lage a efetuar algumas poupanças, também para dar mais minutos a jogadores que não são normalmente opção inicial e deixar descansar outros, numa altura em que o Benfica vai entrar num período competitivo particularmente denso. Seferovic ocupava o lugar de Carlos Vinícius, Jota era titular em vez de Cervi e André Almeida regressava ao onze depois de uma ausência prolongada por lesão, atirando Tomás Tavares para o banco de suplentes.

Os primeiros minutos mostraram desde logo que o Benfica não precisaria de acelerar muito para romper a organização defensiva do Desp. Aves e entrar nas costas do quarteto mais recuado da equipa de Nuno Manta Santos. Weigl, que tanto pode atuar a ‘6’ como a ‘8’, estava a ocupar a primeira das posições, a jogar à frente da defesa e perto de Gabriel. Chiquinho, nas costas de Seferovic, era o principal responsável pela ligação entre o setor intermédio e o mais avançado, com Jota a tombar no corredor esquerdo e Pizzi no lado contrário — ainda que o segundo procurasse mais espaços interiores do que o primeiro.

O Benfica controlou totalmente a partida durante os primeiros dez minutos, com a principal oportunidade a ficar a cargo de Seferovic, que cabeceou muito perto da trave depois de um cruzamento de Jota a partir da esquerda (7′). O jovem avançado era, aliás, o principal impulsionador do ataque encarnado: com o apoio constante de Grimaldo nas costas, Jota aproximava-se muitas vezes da zona mais recuada do meio-campo para levar jogo para a frente e depois dava-se à profundidade, aparecendo várias vezes em ótima posição para cruzar para a grande área.

O primeiro sinal de que o Desp. Aves tinha viajado até Lisboa para procurar algo mais — tal como Nuno Manta Santos tinha sublinhado na antevisão — apareceu já perto do primeiro quarto de hora. Mohammadi recebeu já na grande área, solicitado por Estrela, e cruzou na horizontal à procura de um desvio que nunca apareceu (14′). A facilidade com que o avançado iraniano apareceu em zona de finalização deixava perceber que a comunicação entre Ferro e Grimaldo, o central a jogar no lado esquerdo e o lateral esquerdo, não estava a ser a melhor: os jogadores do Desp. Aves entravam sem grande oposição na faixa entre os dois jogadores e conseguiam encontrar espaços para chegar perto da baliza de Vlachodimos. Depois do lance de Mohammadi, os avenses perderam complexos e alongaram o próprio jogo no relvado, até que o avançado iraniano conseguiu concretizar sozinho aquilo que ninguém tinha conseguido na jogada que o próprio criou.

Depois de deixar Ferro para trás com um grande pormenor individual, Mohammadi entrou na grande área sem oposição e atirou em força, quase sem ângulo, para bater Vlachodimos (20′). A surpresa estava feita na Luz e o Benfica atirou-se para o ataque até ao intervalo: Pizzi esteve perto do empate mas Dzwigala tirou em cima da linha de golo (25′) e Beunardeau frustrou tanto Seferovic como Chiquinho, tornando-se o grande guardião da vantagem avense. No final da primeira parte, já com Carlos Vinícius a efetuar exercícios de aquecimento, ficava a ideia de que o Benfica estava demasiado perdulário para todo o fluxo ofensivo que estava a criar. Com nove remates enquadrados, a equipa de Bruno Lage não conseguiu marcar — algo que é atípico nos encarnados e que deixava os encarnados preocupados.

[Carregue nas imagens para ver alguns dos melhores momentos do Benfica-Desp. Aves:]

No início da segunda parte, Bruno Lage lançou desde logo Carlos Vinícius para ir à procura do golo e tirou Jota — que estava a ser, novamente, um dos melhores elementos encarnados. A Luz voltou a gelar ainda antes de estarem cumpridos dez minutos da segunda parte, depois de os instantes iniciais após o intervalo terem sido totalmente dominados pela equipa da casa. Depois de uma entrada mais dura sobre Mangas, Carlos Xistra mostrou o cartão vermelho direito a André Almeida: numa altura em que faltavam 40 minutos para o apito final. O árbitro da partida acabou por ir rever o lance ao VAR e reverteu a decisão, mostrando apenas o cartão amarelo ao lateral direito.

O Desp. Aves recuou totalmente as linhas na segunda parte, de forma a defender a vantagem conquistada na primeira, e o Benfica assumiu o jogo, restringindo toda a partida praticamente ao meio-campo avense. O desperdício de oportunidades, porém, manteve-se igual: Chiquinho, Vinícius, Gabriel e Pizzi desdobraram-se em remates e tentativas mas a bola passava sempre por cima, ao lado ou era desviada por um defesa do Desp. Aves. Beunardeau, o guarda-redes francês da equipa de Nuno Manta Santos, continuava intransponível entre os postes e afastava todos os remates encarnados — que, a 15 minutos do apito final, já eram 20 dentro da grande área, um máximo absoluto esta temporada na Primeira Liga. Weigl deu lugar a Cervi, sendo o segundo sacrificado de uma lógica de Lage que visava colocar o máximo de jogadores no ataque, e o assalto à baliza avense prosseguia.

Face à total falta de eficácia em termos de bola corrida, o Benfica acabou por conseguir chegar ao empate através de uma grande penalidade. Carlos Vinícius foi carregado em falta por Falcão dentro da grande área e Pizzi, na conversão, não deu hipótese a Beunardeau (76′). A partir do empate, aquela que tinha sido a dinâmica do segundo tempo agudizou-se: o Desp. Aves fechou-se totalmente junto à própria baliza, para segurar o ponto que ainda tinha, e o Benfica foi insistindo cada vez mais, asfixiando totalmente a equipa de Nuno Manta Santos. O golo da reviravolta apareceu precisamente num lance de insistência, onde Carlos Vinícius recebeu de costas para a baliza já no interior da grande área e deixou a bola preparada para André Almeida, que rematou certeiro para confirmar a reviravolta e escrever uma espécie de justiça poética à sua maneira (89′).

No final do jogo, o Benfica conseguiu vencer aquele que se tornou, de forma inesperada, um dos jogos mais difíceis da temporada. Com esta vitória perante o Desp. Aves, os encarnados sabem desde já que vão pelo menos manter a distância de quatro pontos em relação ao FC Porto e somaram o 13.º resultado positivo consecutivo na Primeira Liga. Mais do que isso, a equipa de Bruno Lage voltou a mostrar uma linha de personalidade que se tem tornado fulcral: mesmo face a obstáculos, mesmo face a uma atípica falta de eficácia, a estrelinha de campeão permanece. E André Almeida, que não jogava há sete jogos, chegou a estar expulso e voltou ao jogo, foi a maior personificação disso mesmo.

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