A Direção-Geral de Saúde  (DGS) considerou que é preciso um “Plano B” ao bullying nas escolas e lançou um concurso para financiar planos que combatam este tipo de violência em contexto escolar. A associação Plano i venceu o concurso, por ter uma “equipa jovem, mas muito profissional”, considerou Conceição Almeida, psicóloga e assessora do Programa Nacional Para a Saúde Mental da DGS.

Focado no 2º e 3º ciclos de escolaridade, o plano de intervenção apresentado esta quinta-feira, na escola secundária João Gonçalves Zarco, em Matosinhos, engloba 40 turmas de nove agrupamentos de escolas da Figueira da Foz, de Matosinhos e do Porto.

Numa primeira fase, está a ser feito um levantamento do contexto de cada escola, para “perceberem, da parte da escola e dos educadores, o que é que entendem pelo fenómeno, qual a sua prevalência, de que forma acontece, porquê e que medidas é que a escola já implementou”, explica a psicóloga Ana Luísa Abreu, coordenadora do projeto. “Já temos, por exemplo, uma escola que nos falou de desfasar os intervalos do primeiro ciclo com os do terceiro ciclo”.

No plano de ação, com a duração de um ano, será integrado um programa estruturado de sete sessões com alunos.

Quase 16% dos jovens de 11 a 15 anos foram vítimas de ‘bullying’ pelo menos uma vez por mês

O fenómeno bullying em contexto escolar é trazido, em parte, a reboque de uma “banalização da violência” socialmente aceite. “Quando falamos, por exemplo, em papéis de género, é esperado até que um rapaz seja violento, seja viril, tenha uma certa agressividade que é valorizada socialmente”, aponta Ana Luísa Abreu.

Nos últimos anos, relatórios alertam que, em contexto escolar, cerca de 15,9% dos jovens entre os 11 e os 15 anos foram vítimas de episódios de bullying pelo menos uma vez por mês.

A prevalência deste tipo de violência não tem aumentado. No entanto, o fenómeno tem mudado de contornos com o surgimento do cyberbullying, o bullying feito através de dispositivos digitais, da internet e das redes sociais.

“O ‘cyberbullying’ vem trazer novas configurações aos impactos [que o bullying pode ter] por causa da questão do anonimato, a possibilidade de um pequeno comportamento se viralizar, o distanciamento que agressores têm em relação às vítimas, a empatia. Há variáveis que mudam a forma como olhamos para o fenómeno hoje”, reflete a psicóloga Ana Luísa Abreu.

No mesmo dia, foi lançado o Observatório Nacional do Bullying

Pela necessidade de conhecer o fenómeno na sua totalidade e pela resistência à denúncia, a associação Plano i lançou também o Observatório Nacional do Bullying. Trata-se de um questionário online com vista à denúncia informal e anónima por parte de quem sofreu ou testemunhou casos.

“Sabemos que muitos destes casos não são reportados, não figuram nas estatísticas oficiais. Nós acreditamos, até pelo que sabemos do Observatório Nacional da Violência do Namoro, outro projeto do Plano i, que com este observatório vamos conseguir mapear o fenómeno, que não é mapeado por outras vias”, garante Sofia Neves – diretora da Associação Plano i.

A associação não governamental escolhida pela Direção-Geral de Saúde para monitorizar as questões do bullying nas escolas compromete-se a fazer relatórios anuais dos resultados.