Ao contrário do que era esperado — e que durante muito tempo foi dado como praticamente certo —, o Papa Francisco não irá seguir a recomendação que lhe foi feita pelos bispos que participaram, no ano passado, no Sínodo da Amazónia, e não irá abrir uma exceção ao celibato obrigatório dos padres que permita ordenar homens casados como forma de combater a escassez de sacerdotes naquela região do mundo.

Também de fora da exortação apostólica “Querida Amazónia”, publicada esta quarta-feira, fica a possibilidade de estender o acesso ao sacerdócio às mulheres.

No documento, o Papa Francisco escreve que focar-se na “maior presença de ministros ordenados” (ou seja, padres) nas regiões mais dispersas da Amazónia “seria um objetivo muito limitado“. É necessário, sublinha Francisco, “promover o encontro com a Palavra e o amadurecimento na santidade por meio de vários serviços laicais, que supõem um processo de maturação – bíblica, doutrinal, espiritual e prática – e distintos percursos de formação permanente”.

O Papa admite que “são necessários sacerdotes” na Amazónia para fazer frente a um dos principais problemas da Igreja Católica na região: a escassez de quem possa celebrar missas, “o grande sacramento que significa e realiza a unidade da Igreja“. Francisco diz, porém, que o caminho deve ser atribuir mais relevância na liderança das comunidades aos leigos.

“São necessários sacerdotes, mas isto não exclui que ordinariamente os diáconos permanentes – deveriam ser muitos mais na Amazónia –, as religiosas e os próprios leigos assumam responsabilidades importantes em ordem ao crescimento das comunidades e maturem no exercício de tais funções, graças a um adequado acompanhamento”, escreve o Papa Francisco.

“Portanto não se trata apenas de facilitar uma presença maior de ministros ordenados que possam celebrar a Eucaristia. Isto seria um objetivo muito limitado, se não procurássemos também suscitar uma nova vida nas comunidades”, resume Francisco.

Num documento de 88 páginas em que a palavra “celibato” nunca é mencionada, o Papa Francisco sublinha que “é preciso encontrar um modo para assegurar este ministério sacerdotal”.

“Os leigos poderão anunciar a Palavra, ensinar, organizar as suas comunidades, celebrar alguns Sacramentos, buscar várias expressões para a piedade popular e desenvolver os múltiplos dons que o Espírito derrama neles. Mas precisam da celebração da Eucaristia”, assume Francisco. “É urgente fazer com que os povos amazónicos não estejam privados” da celebração da missa.

Ao invés de optar pelo caminho da ordenação sacerdotal de homens casados, o Papa Francisco pede a “todos os bispos, especialmente os da América Latina”, que promovam “a oração pelas vocações sacerdotais e também a ser mais generosos, levando aqueles que demonstram vocação missionária a optarem pela Amazónia”.

Relativamente à possível abertura do sacerdócio católico às mulheres, o Papa Francisco começa por sublinhar que “na região amazónica há comunidades que há muito tempo têm preservado e transmitido a fé, mesmo sem que nenhum padre se tenha cruzado no seu caminho” — e que “isso pode dever-se à presença de mulheres fortes e generosas que, sem dúvida, foram chamadas e incentivadas pelo Espírito Santo, batizaram, ensinaram, rezaram e atuaram como missionárias“.

“Durante séculos, as mulheres mantiveram a Igreja viva nesses lugares através da sua notável devoção e fé profunda”, assinala o Papa Francisco na exortação apostólica.

Por isso, Francisco diz que esta realidade deve levar os católicos a evitar “restringir o entendimento da Igreja às suas estruturas funcionais”. Para o Papa, “tal reducionismo levar-nos-ia a acreditar que as mulheres só teriam um status mais elevado e uma maior participação na Igreja se fossem admitidas às Ordens Sagradas”.

“Mas essa abordagem, na verdade, iria restringir a nossa visão e levar-nos-ia a clericalizar as mulheres, diminuindo o grande valor daquilo que elas já realizaram e, subtilmente, tornando o seu contributo indispensável menos eficaz”, argumenta o Papa Francisco.

A possibilidade de abrir uma exceção à obrigatoriedade do celibato dos padres era esperada desde outubro do ano passado, altura em que perto de 200 bispos da América do Sul se reuniram no Vaticano com o Papa e a Cúria Romana para discutir formas de responder aos problemas enfrentados pela Igreja Católica naquela região do mundo.

No documento final da reunião, os bispos participantes deixaram um conjunto de propostas concretas para a região — entre as quais a possibilidade de ordenar como padres alguns homens casados e identificar novos papéis de autoridade para as mulheres. Isto porque um dos principais problemas da Igreja Católica na Amazónia é a falta de sacerdotes que possam presidir às celebrações dos sacramentos nas regiões mais remotas.

“Afirmando que o celibato é uma dádiva para a Igreja, pede-se que, para as áreas mais remotas da região, se estude a possibilidade da ordenação sacerdotal de pessoas idosas, de preferência indígenas, respeitadas e reconhecidas por sua comunidade, mesmo que já tenham uma família constituída e estável, com a finalidade de assegurar os Sacramentos que acompanhem e sustentem a vida cristã”, pediam os bispos.

Mais à frente, os líderes católicos da América do Sul sublinhavam a importância de “identificar o tipo de ministério oficial que pode ser conferido à mulher, tendo em consideração o papel central que hoje ela desempenha na Igreja amazónica“.

Reforma polémica adiada para já

A exortação apostólica publicada esta quarta-feira é a esperada resposta do Papa Francisco às sugestões deixadas em outubro pelos bispos, ficando claro que o papa argentino não pretende abrir nenhuma exceção ao celibato, focando grande parte do documento essencialmente nas questões ambientais.

Durante os últimos meses, embora grande parte da Igreja Católica desse como praticamente certo que Francisco iria acolher a proposta dos bispos que participaram no sínodo, nos setores mais conservadores da Igreja multiplicaram-se as críticas a esta possibilidade.

A abertura de um precedente era a principal preocupação de quem se opunha — até porque entre os setores mais progressistas da Igreja Católica, a convicção generalizada era a de que, depois de aberta a exceção para a Amazónia, o celibato obrigatório viesse gradualmente a ser abolido de toda a Igreja.

Elementos associados a esta ala mais conservadora e tradicionalista da Igreja Católica, como os cardeais Walter Brandmüller, Raymond Burke e Robert Sarah e o bispo Athanasius Schneider, vieram mesmo deixar duras acusações durante o período em que o documento do Papa era aguardado com expectativa.

Numa carta de oito páginas assinada por Burke e Schneider, os dois prelados denunciavam as “heresias e erros teológicos” associados à discussão que teve lugar no Sínodo da Amazónia e pediram mesmo uma “cruzada de oração” com o objetivo de impedir que as propostas dos bispos fossem acolhidas pelo Papa Francisco.

O cardeal Walter Brandmüller, ainda antes do Sínodo, numa altura em que se conheciam apenas as propostas que estariam em cima da mesa, alertava para aquilo que dizia ser a “auto-destruição da Igreja“, transformando-a “numa ONG secular com um mandato ecológico-social-psicológico“.

A maior polémica à volta desta questão seria, mais recentemente, a protagonizada pelo cardeal guineense Robert Sarah e que envolveu o Papa emérito Bento XVI. Em janeiro, o jornal francês Le Figaro publicou um excerto de um livro, então anunciado como tendo sido escrito a meias pelo cardeal Sarah e por Bento XVI, no qual era apresentada uma defesa do celibato, apresentando-o como “indispensável“.

A notícia fez estalar a polémica precisamente pela presença de Bento XVI como autor. Em 2013, quando renunciou ao papado, o alemão prometeu obediência ao Papa Francisco, manifestando a sua intenção de se retirar para um mosteiro. Qualquer intervenção de Bento XVI após a renúncia — sobretudo sobre um tema relativamente ao qual era esperado um posicionamento oficial do Papa Francisco — corria o risco de ser interpretado como uma forma de pressão sobre o atual líder da Igreja Católica.

Percebeu-se, nos dias seguintes, que Bento XVI podia ter sido manipulado por Robert Sarah. Na verdade, mais tarde, o próprio secretário pessoal do Papa emérito anunciou que Ratzinger tinha, de facto, partilhado um texto sobre o celibato com o cardeal guineense, mas não havia autorizado a publicação de um livro sobre o tema assinado por ele.