Dois dias depois de o jornal francês Le Figaro ter publicado excertos de um livro assinado por Joseph Ratzinger (Papa emérito Bento XVI) e pelo cardeal guineense Robert Sarah — no qual os dois defendem a importância de manter a regra do celibato obrigatório para os padres da Igreja Católica —, o jornal espanhol ABC noticia que o Papa emérito alemão pode, afinal, ter sido vítima de uma manipulação e não ter tido qualquer influência no livro que deverá ser publicado na próxima semana. Uma acusação que o cardeal Robert Sarah já veio rebater, publicando cartas trocadas com Bento XVI — embora tenha admitido que na próxima edição o livro será assinado “Cardeal Sarah, com a contribuição de Bento XVI”.

No texto conhecido na segunda-feira, Sarah e Ratzinger defenderiam, supostamente, que o celibato dos padres é “indispensável” e sublinham que “é urgente, necessário, que todos, bispos, sacerdotes e leigos, redescubram um olhar de fé na Igreja e no celibato sacerdotal que protege o seu mistério“.

O texto é particularmente sensível para a Igreja Católica devido ao momento em que é publicado. Em outubro do ano passado, os líderes católicos reunidos no Sínodo da Amazónia concluíram que a ordenação sacerdotal de homens casados deverá ser uma das soluções a adotar para combater a escassez de padres católicos naquela região do mundo — abrindo um precedente que pode levar a profundas alterações na lei do celibato, imposta pela Igreja Católica há mil anos. O documento final da reunião foi submetido à apreciação do Papa Francisco, que deverá tomar uma decisão sobre o assunto ainda na primeira metade deste ano.

A publicação, pela parte de Bento XVI, de um texto com uma posição sobre o assunto foi considerada por muitos como uma forma de ingerência nas decisões do seu sucessor e também como uma quebra do compromisso feito pelo alemão quando renunciou à liderança da Igreja Católica em 2013: manter-se em silêncio e obedecer ao novo Papa. A perspetiva da publicação de um texto assinado por Ratzinger sobre o tema do celibato foi de tal modo polémica que o próprio Vaticano se apressou a comentar o tema, sublinhando que o Papa emérito mantém obediência ao Papa Francisco.

Agora, numa peça assinada pelo correspondente no Vaticano e que cita fontes próximas do Papa emérito Bento XVI, o jornal espanhol ABC afirma que o alemão não teve nenhum papel na escrita do livro, apresentado como tendo sido feito a quatro mãos.

Segundo o jornal, o cardeal guineense Robert Sarah ter-se-á encontrado com Bento XVI há vários meses, numa altura em que o Papa emérito se encontrava a trabalhar num texto sobre o sacerdócio. Robert Sarah — que é o prefeito da Congregação para o Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos, ou seja, o responsável pelas questões litúrgicas da Igreja Católica —, que estava na altura a escrever um livro sobre o mesmo tema, terá pedido a Bento XVI para ver o texto, pedido a que o alemão acedeu.

Robert Sarah, conhecido como uma das mais influentes vozes conservadoras dentro da cúpula da Igreja Católica, terá depois produzido todo o livro agora apresentado como sendo também assinado por Bento XVI.

Na segunda-feira, ao mesmo tempo que saía a pré-publicação do livro, o cardeal Robert Sarah dava uma entrevista ao Le Figaro, em que falou de uma “crise impressionante” na Igreja Católica e sublinhou que o livro era um “grito de amor para a Igreja, o Papa, os padres e todos os cristãos”.

Na verdade, porém, a história mostra como Bento XVI foi inclusivamente o responsável pela abertura de uma das poucas exceções que existem hoje na Igreja latina. Embora tenha sempre defendido a importância do celibato — que, na verdade, não faz parte da própria natureza do sacerdócio católico, sendo portanto possível de ser revertido —, Bento XVI fez aprovar em 2009 a Anglicanorum Coetibus, um documento que permite aos sacerdotes anglicanos casados que se converterem à Igreja Católica a possibilidade de manterem as suas famílias.

Cardeal Sarah reage à polémica com provas — mas muda assinatura nas próximas edições do livro

Perante as notícias que davam conta da possibilidade de o livro ter sido escrito apenas por Robert Sarah aproveitando notas de Bento XVI, o cardeal apressou-se a responder. Primeiro, através do Twitter, onde divulgou três cartas que recebeu de Bento XVI e onde se lê que o Papa emérito aprovou a publicação do seu contributo.

No tweet, Robert Sarah escreveu: “Ataques parecem insinuar uma mentira da minha parte. Essas difamações são de excecional gravidade. Esta noite, dou as primeiras provas da minha estreita colaboração com Bento XVI para escrever este texto a favor do celibato. Falarei novamente amanhã, se for necessário”.

Numa carta datada de 20 de setembro, percebe-se que foi Robert Sarah quem interpelou Bento XVI para escrever um texto sobre o celibato. Escreve Ratzinger: “Eu já havia começado a escrever algumas reflexões sobre o sacerdócio antes da sua carta. Mas, enquanto escrevia, sentia cada vez mais que as minhas forças não me permitem mais escrever um texto teológico. Então veio a sua carta com a pergunta inesperada de um texto precisamente sobre o sacerdócio, com especial atenção ao celibato. Retomei o meu trabalho e enviar-lhe-ei o texto quando estiver traduzido do alemão para o italiano. Deixo-lhe essas anotações, cuja insuficiência sinto fortemente, caso possam ser úteis.”

A 12 de outubro, Bento XVI envia nova carta: “Finalmente posso transmitir os meus pensamentos sobre o sacerdócio. Deixo-lhos, se encontrar alguma utilidade nos meus pobres pensamentos.”

Por fim, a 25 de novembro, terceira carta: “Com todo o meu coração, gostaria de dizer obrigado pelo texto adicionado à minha contribuição e por toda a elaboração que fez. Isso tocou-me profundamente, ao entender minhas últimas intenções: na verdade, eu escrevi 7 páginas de esclarecimento metodológico do meu texto e estou muito feliz por ter sido capaz de dizer o essencial em meia página. Portanto, não vejo necessidade de enviar as sete páginas, pois o senhor expressou o essencial em meia página. Pela minha parte, o texto pode ser publicado na forma que tem prevista. Fico feliz em poder vê-lo antes de partir para a sua terra natal e expressar os meus melhores votos por seu duplo jubileu.”

Na manhã desta terça-feira, o cardeal Robert Sarah voltou às redes sociais para divulgar um novo comunicado, no qual descreve longamente a troca de cartas.

“A controvérsia que há várias horas visa sujar-me ao insinuar que Bento XVI não foi informado da publicação do livro é profundamente abjeta. Sinceramente, perdoo todos aqueles que me caluniam ou que querem opor-me ao Papa Francisco. A minha relação com Bento XVI permanece intacta e minha obediência filial ao papa Francisco é absoluta”, escreveu Sarah.

O cardeal contextualizou ainda a carta que recebeu do Papa emérito concordando com a publicação do texto na forma prevista.

“Em 12 de outubro, durante o Sínodo dos Bispos da Amazónia, o Papa emérito deu-me, sob sigilo, um texto longo, fruto do seu trabalho nos últimos meses. Quando vi a extensão deste texto, tanto em substância quanto em forma, considerei imediatamente que não seria possível propo-lo a um jornal ou revista, dado seu volume e qualidade. Então, propus imediatamente ao Papa emérito a publicação de um livro que seria de imenso benefício para a Igreja, integrando o seu próprio texto e o meu. Após as várias trocas para a preparação do livro, finalmente enviei, em 19 de novembro, um manuscrito completo ao Papa emérito, incluindo, como havíamos combinado, a capa, uma introdução e conclusão comum, o texto de Bento XVI e o meu próprio texto. Em 25 de novembro, o Papa emérito expressou sua grande satisfação com os textos escritos em comum, e acrescentou: ‘Pela minha parte, o texto pode ser publicado na forma que tem prevista'”, descreveu o cardeal.

Já depois de divulgar o comunicado, o cardeal regressou ao Twitter com uma nova informação: “Considerando as polémicas que a publicação do livro Das profundezas dos nossos corações, decide-se que o autor do livro será, em futuras edições: Card. Sarah, com a contribuição de Bento XVI. No entanto, o texto completo mantém-se absolutamente inalterado”.

Secretário de Bento XVI confirma que pediu retirada do nome de Ratzinger do livro

Já na manhã desta terça-feira, o arcebispo alemão Georg Gänswein, que é prefeito da Casa Pontifícia e secretário particular do Papa emérito Bento XVI, emitiu um comunicado sobre a confusão instalada à volta do assunto.

“Posso confirmar que nesta manhã, por indicação do Papa emérito, pedi ao cardeal Robert Sarah para contactar os editores do livro, pedindo-lhes que retirem o nome de Bento XVI como co-autor do livro, e também que retirem a sua assinatura da introdução e das conclusões”, diz Gänswein na nota.

“O Papa emérito, de facto, sabia que o cardeal estava preparando um livro — acrescentou Gänswein —, e tinha enviado um pequeno texto seu sobre o sacerdócio, autorizando-o a usá-lo como o desejasse. Mas ele não tinha aprovado nenhum projeto para um livro assinado conjuntamente nem tinha visto e autorizado a capa. Foi um mal-entendido, sem questionar a boa fé do cardeal Sarah”, conclui o arcebispo.