Era uma vez dois soldados britânicos que foram recrutados para enfrentar os maiores perigos da I Guerra Mundial e entregar uma mensagem que, se falhasse, resultaria “numa chacina”. Esta é a história de “1917”, a produção de Sam Mendes que esteve nomeado para o Óscar de Melhor Filme, mas que perdeu perante “Parasitas”.

Parece simples, o argumento, mas não é bem assim. Quem olhar para a narrativa de “1917” e o comparar com os volumosos livros de História sobre a Guerra das Guerras vai deparar-se com algumas verdades, outras tantas mentiras e, pelo meio, umas quantas inverdades. Procurámos por todas elas para conhecer à lupa o melhor filme do ano. Está tudo aqui em baixo. Mas atenção ao alerta spoiler: nos próximos parágrafos vai encontrar revelações sobre “1917”. Se ainda não o viu e não quer ser surpreendido, o melhor é não continuar a ler este artigo.

As verdades

A história de “1917” decorre durante o dia 06 de abril desse ano, como é indicado ao espetador logo ao arrancar do filme. A data não é escolhida ao acaso. Conforme explica Doran Cart, curador sénior do Museu Nacional da I Guerra Mundial norte-americano, à Time, entre 23 de fevereiro e 05 de abril — o dia anterior aos eventos do filme —, os alemães transferiram as suas tropas para a Linha de Hindenburg e ao longo do Aisne até Bapaume, em França. Foi a Operação Alberich.

Foram precisamente essas movimentações que inspiraram a narrativa de “1917”. Os alemães retraíram da linha de combate na Frente Ocidental por uma questão estratégica, mas os Aliados começaram por interpretar aquele transferência como uma retirada que indicaria uma vantagem para eles e um insucesso para os alemães — algo que, tanto na vida real como no filme, não se veio a verificar. Além disso, o dia 06 de abril de 1917 é também aquele em que a Guerra das Guerras sofre uma nova reviravolta, com a entrada dos Estados Unidos no conflito.

A Linha de Hindenburg vista de Bullecourt, França. Créditos: Halsey, Francis W. (Francis Whiting)/ New York, London, Funk & Wagnalls Company/ Columbia University Libraries

Outra característica da I Guerra Mundial que está corretamente retratada em “1917” é a existência de mensageiros como Blake (interpretado por Dean-Charles Chapman) e Schofield (por George MacKay), personagens centrais da história. Quem fosse recrutado para essa função tinha de atravessar a Terra de Ninguém e enfrentar obstáculos mortíferos como bombas, atiradores furtivos, gases venenosas, cadáveres humanos e de animais, arame farpado e crateras gigantescas, tal como surge no filme. E, na vida real como no cinema, esses mensageiros eram enviados em pares: se um morresse, o outro prosseguia a missão.

É certo que esses mensageiros só eram chamados a atuar muito raramente, em circunstâncias extraordinárias, porque “o fogo da artilharia, metralhadoras e gás venenoso era muito pesado”: “Ninguém iria subir e atravessar a Terra de Ninguém e tentar atacar o inimigo”, conta Doran Cart. Na maior parte das vezes, quando os batalhões precisavam de comunicar entre eles, usavam-se pombos-correio, bandeiras e pistolas sinalizadoras. Em “1917”, no entanto, estava-se mesmo perante uma dessas circunstâncias extraordinárias: havia 1.600 homens em risco de morrer.

A Terra de Ninguém em 1917, localização desconhecida. Créditos: George Barnett Collection (COLL/1635) at the Archives Branch, Marine Corps History Division

As mentiras

Algo escapa à verdade nas trincheiras que surgem no filme de Sam Mendes: a diversidade racial. Nos primeiros momentos do filme, percebemos que alguns dos soldados britânicos colocados naquela trincheira eram negros e que trabalhavam em parceria com as tropas caucasianas. Na história real, no entanto, não houve a mesma irmandade. E embora isso tenha mesmo acontecido até um determinado ponto da história, desde 1915 que a segregação tinha chegado à guerra.

Durante a I Guerra Mundial, a comunidade negra em Londres cresceu com a imigração vinda das Caraíbas e das colónias britânicas em África. Vítimas da segregação em casa e de preconceitos por parte dos britânicos, muitos negros decidiram alistar-se nas formas armadas do Reino Unido na esperança que, servindo a Coroa numa altura em que faltavam homens nos campos de guerra, conquistassem mais respeito dos britânicos e capacidade de integração no Reino Unido.

Soldados dos Barbados, Jamaica e Caraíbas que faziam parte do Regimento. Créditos: Topfoto via Retronaut.

De facto, numa primeira fase, os soldados negros foram recrutados para os batalhões normais levados para a I Guerra Mundial. No entanto, a 26 de outubro de 1915, os 120 mil soldados africanos e os 15 mil homens vindos das Caraíbas foram reunidos num único batalhão, separado dos outros, chamado Regimento das Índias Ocidentais Britânicas. Esse regimento era liderado apenas por caucasianos. E os soldados negros nunca podiam ser promovidos além do posto de sargento.

Apesar de, em 1917, data em que decorre o filme, dificilmente ser possível encontrar um homem negro entre as unidades regulares das forças armadas britânicas — entre 1917 e 1918, os negros que estivessem a combater nas frentes ocidentais tinham uma probabilidade 2,5 vezes maior de serem mortos em combate do que os caucasianos —, é possível que Sam Mendes tencionasse com essa imprecisão histórica homenagear uma importante personagem da história do Reino Unido na Guerra das Guerras: Walter Tull, natural de Kent mas filho de pai caribenho que se alistou em 1914 e que, três anos mais tarde, foi promovido a oficial — o primeiro mulato a alcançar esse posto entre as unidades regulares britânicas.

Walter Tull (à esquerda) com dois outros oficiais britânicos. Créditos: Wikimedia Commons

Walter Tull foi a exceção à regra imposta em 1915, por ordem expressa em 1914 no Manual de Lei Militar, que impunha a segregação de negros, mestiços e caucasianos entre os soldados britânicos — exceção feita, em momentos de falta de soldados, às chamadas “raças marciais”, como algumas comunidades indianas, paquistanesas e iranianas. O oficial continuou nas unidades regulares do exército, lutou na Frente Italiana, comandou tropas em algumas das operações mais arriscadas dos Aliados e regressou a França em 1918, onde veio a morrer durante um conflito. O corpo de Walter Tull nunca veio a ser encontrado, mas a história dele ficou na memória da I Guerra Mundial.

Walter Tull foi dos poucos homens negros (senão mesmo o único) permaneceu no campo de batalha ao lado de soldados brancos. Sendo assim, a existência de vários soldados negros nas trincheiras tal como surge no filme não está alinhada com a realidade da I Guerra Mundial, onde até os palcos de combate eram também palcos de segregação e racismo.

As inverdades

Sim, “1917” foi baseado numa história verídica, mas os factos reais não foram introduzidos em estado bruto na narrativa de Sam Mendes. As personagens principais do filme foram inspiradas no avô do realizador, o britânico Alfred H. Mendes, cuja função era transmitir pessoalmente mensagens entre batalhões após correr pela chamada “Terra de Ninguém”.

Isso mesmo foi explicado por Sam Mendes numa entrevista à Variety citada pelo site History vs. Hollywood: “Eu tinha uma história que era um episódio contado a mim pelo meu avô, que lutou na I Guerra Mundial. É a história de um mensageiro que tem uma mensagem para entregar. E é tudo o que posso dizer. Ele contou-ma quando eu era criança e eu a ampliei-a e mudei-a significativamente. Mas tem isso na sua essência”.

Então, qual é a história verdadeira? Segundo o realizador, Alfred H. Mendes, natural das Caraíbas, emigrou para Inglaterra em 1915 e um ano depois, com 19 anos, alistou-se no exército. Quando estava em batalha na Bélgica, 484 soldados britânicos foram recrutados para recuperar a cidade de Passchendaele, que tinha sido conquistada pelos alemães. Cento e cinquenta e oito homens morreram, desapareceram ou ficaram feridos no confronto. Os que tinham sobrevivido não conseguiam comunicar as suas posições.

A vila de Passchendaele antes (à esquerda) e depois (à direita) da batalha entre alemães e Aliados em 1917. Créditos: Imperial War Museum/ Wikimedia Commons

Na esperança de recuperar os soldados sobreviventes, o comandante pediu um voluntário que se arriscasse a atravessar a Terra de Ninguém para procurar os companheiros de batalhão e regressar com informações sobre a sua localização. Alfred H. Mendes voluntariou-se, confirmou o próprio num livro de memórias: “Eu tinha feito um curso de sinalização e, apesar de ter pouca relação com o trabalho em questão, senti-me nessa obrigação para com o batalhão”. Ofereceu-se. E foi bem sucedido.

Ora, não é bem esta a história que conta “1917”, cuja narrativa se concentra antes na perigosa aventura que dois homens têm de enfrentar para “impedir 1.600 homens de caminhar diretamente para uma armadilha mortífera”. Aliás, a Batalha de Passchendaele aconteceu a 12 de outubro de 1917, não a 06 de abril. Mas a adaptação foi admitida por Sam Mendes, que nunca vendeu “1917” como uma história real, mas meramente “baseada numa história verídica”.