Filas intermináveis e assaltos em supermercados, centros históricos desertos, protestos em prisões. Poucas horas depois de o primeiro-ministro italiano, Giuseppe Conte, anunciar que toda a população italiana passaria a estar sob fortes medidas de restrição, destinadas a conter o surto de coronavírus no país — que, depois da China, é o mais afetado em todo o mundo —, Itália acordou esta terça-feira um país diferente.

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Na capital, Roma, as ruas do centro histórico, incluindo as zonas do Coliseu e da Piazza Navona, estavam praticamente desertas, na manhã desta terça-feira, em cumprimento do decreto governamental emitido já ao final da noite de segunda, alargando a todo o território nacional as medidas de contenção anteriormente aplicadas apenas à região norte do país (incluindo à cidade de Milão). Vídeos divulgados pela imprensa italiana mostram a cidade completamente vazia, lojas fechadas e as poucas pessoas que ainda passam nas ruas a fazerem-no com máscaras.

Mais a sul, na cidade de Nápoles, de acordo com o relato da agência italiana Ansa, multiplicavam-se as filas de perto de uma hora para entrar em supermercados, com as pessoas a manterem-se a pelo menos um metro de distância umas das outras. Nos cafés da cidade, segundo o mesmo relato, têm sido frequentes os pedidos para que o café seja servido em copos descartáveis. Nos mercados, repetem-se aos altifalantes os alertas para que sejam usadas luvas para manusear a comida e para que seja mantida a distância de segurança entre as pessoas.

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Segundo o jornal La Repubblica, esta corrida aos supermercados começou logo na noite de segunda-feira, após o anúncio do Governo. Num vídeo divulgado na segunda-feira, é possível ver dezenas de pessoas em fila, com carrinhos de compras, à espera para entrar no supermercado a meio da noite, num contexto que aquele jornal descreve como de “pânico”, com milhares de pessoas a temer ficar sem mantimentos em casa nos próximos dias.

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Este cenário, de acordo com o Corriere della Sera, está a repetir-se um pouco por todo o país, de Roma até Salerno, no sul.

A norte, na cidade de Bolonha, o pânico provocado pelas novas medidas de contenção levou um grupo de prisioneiros a organizar um motim numa cadeia de Bolonha. De acordo com o mesmo jornal, os prisioneiros subiram ao telhado da prisão e começaram um incêndio, pegando fogo a vários carros da polícia enquanto pediam para ser libertados.

Itália em quarentena

O decreto assinado esta segunda-feira pelo primeiro-ministro italiano estende as medidas aplicadas ao norte de Itália a todo o país. Segundo as regras, devem ser evitados “todos os movimentos de pessoas físicas, de entrada ou de saída” do território, “bem como dentro do território”. Apenas os “movimentos por motivos de saúde” serão permitidos.

A todas as pessoas com sintomas de infeção respiratória e com febre é “fortemente recomendado” que fiquem isolados em casa, limitando “ao máximo os contactos sociais”. Já as pessoas que tenham testado positivo para o vírus ou estejam sujeitas a quarentena por terem contactado com pessoas infetadas estão sujeitas a uma “proibição absoluta” de mobilidade, estando obrigadas a permanecer em casa.

Em todo o país, estão “suspensas todas as manifestações organizadas”, incluindo eventos em locais públicos e privados e acontecimentos culturais, lúdicos, desportivos e religiosos. Feiras, peças de teatro, cinemas, discotecas, bares — entre outros lugares similares — estão obrigados a permanecer fechados para evitar concentrações de pessoas.

As medidas estão a ter já um forte impacto económico no país e a ministra adjunta da Economia, Laura Castelli, já veio dizer esta segunda-feira que vão ser suspensos os pagamentos de hipotecas “para indivíduos e famílias”. A banca italiana está também a preparar um sistema transversal destinado a aliviar ou, pelo menos, adiar os pagamentos de dívidas de famílias e pequenas empresas que estão a ser afetadas pelo surto do coronavírus.

Norte quer medidas adicionais

Com o alargamento das medidas de contenção a todo o país, a região nortenha da Lombardia, onde neste momento se concentra a grande maioria dos casos de coronavírus registados no país, está a equacionar a adoção de medidas ainda mais drásticas. “Talvez tenha chegado a hora de apertar ainda mais as medidas”, disse o responsável regional pelas questões de saúde pública, Giulio Gallera.

Através do Facebook, o presidente da região da Lombardia, Attilio Fontana, defendeu a necessidade de adotar um recolher obrigatório absoluto durante quinze dias no norte de Itália, obrigando ao encerramento de todos os estabelecimentos, exceto os que vendem bens essenciais, e dos serviços de transporte público.

É tempo de firmeza. Encontrei-me com os presidentes de câmara da Lombardia e com o presidente da associação de municípios da Lombardia, e todos pedem o mesmo: fechem tudo agora (exceto os serviços essenciais) o mais rapidamente possível. Temos meias medidas, que, como vimos nestas semanas, não servem para conter esta emergência”, disse Fontana.

Para o líder da região, “fechar inteiramente a Lombardia durante 15 dias pode servir para reduzir ou bloquear a disseminação do vírus”. “Precisamos de uma viragem, precisamos que as pessoas parem de espalhar este contágio, precisamos que os números comecem a reduzir”, acrescentou Fontana.