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Pouco dada a hipérboles ou exageros de qualquer tipo, Angela Merkel evocou dois momentos basilares da História recente da Alemanha para explicar aos cidadãos a importância daquele que o país (tal como o resto do mundo) atravessa com a pandemia do novo coronavírus: “A situação é séria. Levem-na a sério. Desde a reunificação da Alemanha, aliás, desde a Segunda Guerra Mundial que não há um desafio que exija à nossa nação um nível de ação comum e união como o atual”.

O que os números da crise do novo coronavírus sugerem é que não só a situação foi levada a sério pelos alemães e pelo seu governo, como essa postura teve resultados. Embora seja o quinto país com mais casos (32.781), a Alemanha é simultaneamente o nono país com mais mortes (157). A Alemanha tem um rácio de duas mortes por cada milhão de habitantes — ao passo que, na Europa, França tem 13, Espanha vai nas 60 e Itália, o caso mais grave de todos, chega às 113.

Como está a ser possível a Alemanha chegar e manter estes números desde o início da crise do novo coronavírus na Europa? A resposta não é simples nem consensual — e também não escapa a alguma polémica. Nas próximas linhas, exploramos algumas propostas (que podem ser complementares e por isso não se excluem umas às outras) que têm sido consideradas para avaliar a prestação alemã.

(Alex Grimm/Getty Images)

A Alemanha já estava preparada

Diz-se que em tempos de guerra não se limpam armas. Porém, o que a experiência até agora demonstra é que a Alemanha tratou de limpar todas as que tinha ao seu dispor para um cenário como este. E não são poucas armas — ou, neste caso, ventiladores. No início desta crise, a Alemanha já dispunha de 25 mil ventiladores na totalidade dos seus hospitais. Para lá destes, Berlim encomendou ainda outros 10 mil a propósito desta pandemia.

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Comparativamente, a Alemanha está muito mais preparada do que a maioria dos países europeus a este nível. Ali ao lado, França conta com 7 mil ventiladores — e já está a receber pacientes do país vizinho nos hospitais de algumas cidades de fronteira. Itália e o Reino Unido contam com 5 mil ventiladores.

E em Portugal? De acordo com o que foi dito numa conferência de imprensa da DGS, há 250 nos hospitais privados e 1.142 nos hospitais públicos — aos quais se juntarão outros 500, pelos quais o Estado português pagou dez milhões mas que, admitiu António Costa esta terça-feira em debate quinzenal na Assembleia da República, estão atrasados.

Por isso, uma resposta possível para os números relativamente positivos na Alemanha pode passar pelo grau de preparação que o sistema público de saúde germânico apresentava antes de esta pandemia sequer ter sido um surto na cidade de Wuhan. Mas este fator não explica tudo.

(THOMAS KIENZLE/AFP via Getty Images)

A Alemanha preparou-se ainda mais — e fez “testes, testes, testes”

Poucos países cumpriram e executaram tanto a recomendação da Organização Mundial de Saúde (OMS) como a Alemanha. Ou seja, a diretiva de que, perante o novo coronavírus, havia um passo essencial a dar: “Testar, testar, testar”.

“É uma questão de capacidade e a capacidade da Alemanha é muito, muito significativa. Conseguimos fazer mais de 160 mil testes por semana e isso ainda pode aumentar”, disse o diretor do Instituto Robert Koch, o centro laboratorial estatal da Alemanha, numa conferência de imprensa na semana passada.

Na Alemanha, à semelhança do que acontece também na Islândia e na Coreia do Sul, países apresentados como exemplos a seguir no que aos testes à Covid-19 diz respeito, existe a possibilidade de fazer testes em drive through — ou seja, uma pessoa que queira ser testada pode fazê-lo, sem custos, dentro do próprio carro. Basta ir para uma fila (das quais já há fotografias tiradas por satélite), esperar pela sua vez, abrir a janela do carro e esperar.

A facilitar o elevado número testes está uma legislação simplificada e que permite aos privados também eles concorrerem com facilidade para apresentarem testes e analisarem-nos, comunicando-os posteriormente às autoridades centrais — uma realidade verificada também na Islândia e na Coreia do Sul, à escala de cada um. “Na Alemanha temos uma legislação para a introdução de novos testes que é muito liberal, a rede de laboratórios é muito extensa e qualquer médico pode realizar o teste do coronavírus”, disse ao El Mundo o diretor de infecciologia do hospital de Berlim La Charité, Christian Drosten.

(Joshua Sammer/Getty Images)

A Alemanha teve sorte com a população que foi infetada

Uma consequência do elevado número de testes é que, além de se testar aqueles que surgem nos hospitais com sintomas graves da Covid-19, a Alemanha passou também por testar várias pessoas que não pertencem a grupos de risco.

Por agora, a faixa etária com mais casos é a que está entre os 35 e os 59 anos, seguindo-se a que vai dos 14 aos 34. Só depois, vêm os mais velhos, que por força da idade podem sofrer mais com esta doença, entre os 60 e os 79 anos. Esta divisão etária bate certo com aquilo que foram alguns dos primeiros casos a serem importados para a Alemanha: jovens que foram esquiar para fora do país.

“No início do surto na Alemanha vimos muitos casos relacionados com pessoas que voltavam de viagens de esqui e férias desse género. Isto são atividades praticadas por pessoas predominantemente abaixo dos 80 e que estão aptas a fazer esqui ou semelhantes. O risco de eles morrerem é comparativamente mais baixo”, explicou ao Financial Times Matthias Stoll, professor de medicina na Universidade de Hanover.

Foi precisamente esse ponto — o da idade dos infetados — que referiu numa entrevista ao Die Zeit o infecciologista Christian Drosten, procurando explicar a aparente disparidade da realidade entre o caso alemão e o caso italiano no que ao número de infetados diz respeito.

“Em Itália, os testes são, aparentemente, feitos acima de tudo a pessoas que foram internadas no hospital. Isso acontece porque as pessoas sabem que não há testes suficientes para toda a gente, por isso inicialmente ficam em casa, mesmo que tenham sintomas e só vão ao hospital se piorarem. Assumo que muitos jovens italianos estejam ou tenham sido infetados sem que alguma vez tenham sido diagnosticados”, disse. “Isso também explica porque é que o vírus tem uma taxa de mortalidade supostamente mais alta em Itália.” E, por contraste, “supostamente” mais baixa na Alemanha.

(Sean Gallup/Getty Images)

A Alemanha conta os mortos de outra maneira

Além de duas virtudes (preparação do sistema público de saúde e rápida resposta à necessidade de testar para o novo coronavírus) e possivelmente alguma sorte (a população infetada é maioritariamente jovem), existe também a possibilidade de a Alemanha estar a aplicar o mantra celebrizado na irónica citação do economista Ronald Coase: “Se torturares os dados durante muito tempo, eles dir-te-ão o que quiseres”.

A própria autoridades laboratorial na Alemanha, o Instituto Robert Koch, disse à AFP que não é prática fazer testes ao novo coronavírus após a morte do paciente — um método que outros países na Europa têm vindo a seguir. “Não consideramos que os testes post mortem seja um fator decisivo. Trabalhamos sob o princípio de que os pacientes são testados ainda antes de morrerem”, disse fonte daquele instituto à AFP.

Ou seja, pode dar-se o caso de haver gente a morrer com Covid-19 na Alemanha em cujas certidões de óbito é referida outra causa de morte — isto é, uma doença pré-existente que já tenha levado a pessoa a ser internada.

Ao The Guardian, a chefe do departamento de infecciologia do Hospital Universitário de Hamburgo, Marylyn Addo, reconheceu esse método estatístico mas negou que essa possa ser uma razão para os números na Alemanha serem radicalmente diferentes daqueles que se verificam em países como Itália e Espanha.

“Ainda não vi dados que indicassem que um grande número de mortes relacionadas com pacientes não-testados para o coronavírus não está a aparecer nas estatísticas”, disse. “As clínicas que estão a lidar com doenças respiratórias estão alertadas para o vírus há semanas, por isso seria uma surpresa se houvesse um número significativo de mortes não contabilizadas”, acrescentou.

Ao El Mundo, o chefe da equipa de doenças infecciosas da OMS, o britânico Richard Pebody, quando confrontado com a possibilidade de a metodologia utilizada pelas autoridades alemãs poder estar a subvalorizar o número de mortes causadas pelo vírus naquele país, respondeu: “Se for esse caso, naturalmente que vamos fazer uma investigação”.