É o quarto dia seguido com números abaixo dos de 21 de março e a OMS já arrisca falar na chegada ao pico do surto. No sábado passado, Itália registou o maior número de novos casos positivos desde que o vírus entrou no país. Foram então contadas 6.557 novas infeções de SARS-CoV-19 e, apesar de os números não estarem em queda absoluta (quarta-feira registaram-se mais casos do que na terça), aquele patamar não voltou a ser ultrapassado. Se a tendência se mantiver, é uma das notícias mais importantes dos últimos tempos: a pandemia pode ter atingido o seu ponto mais alto no país.

Ninguém quer deitar foguetes antes do tempo e muitos epidemiologistas italianos já recusam fazer previsões quando a imprensa faz essa pergunta. “Por favor, não me perguntem quando será o pico. Os modelos de previsão da Covid-19 são como os da previsão do tempo. Funcionam durante 24 horas, são bons durante 48 horas, e deixam de ser confiáveis ​​a partir de 72 horas”, escrevia Pierluigi Lopalco, da Universidade de Pisa, no Twitter a 17 de março.

Esta quarta-feira, é a própria Organização Mundial de Saúde, pela voz do seu dirigente Ranieri Guerra, a assumir que o pico poderá ser alcançado esta semana. “A desaceleração na taxa de crescimento é um fator extremamente positivo. Em algumas regiões estamos perto do ponto de queda da curva e, portanto, provavelmente o pico poderá ser atingido esta semana para, em seguida, começar a cair”, disse aos microfones da italiana Rádio Capital.

Os próximos dias, defendeu o médico italiano, serão decisivos. “É agora que as medidas governamentais tomadas há 15 e há 20 dias começam a fazer efeito.”

Itália arrefece, EUA e Espanha aquecem

Uma coisa é certa. Itália, que se tornou o novo foco da pandemia depois de a China ter atingido o pico, já tem menos casos ativos do que os Estados Unidos (57,521 contra 61,238) e Espanha está cada vez mais próxima dos seus números (38.809).

O país também deixou de encabeçar a lista de Estados com maior número de casos registados nas últimas 24 horas (5.210), com Estados Unidos (7.649) e Espanha (5.552) a apresentar números absolutos mais altos. Apesar disso, quanto se compara os números com a população de cada um dos três países, os EUA têm 189 infetados por milhão de habitantes, Espanha tem 1.018 e Itália, à frente, 1.230. É o fim do pico, ou não?

Durante vários dias, os especialistas italianos recusaram fazer essa leitura, até porque a forma como o coronavírus se disseminou pelo país não foi igual. Na mesma data, diferentes regiões viviam diferentes curvas de propagação. Isso mesmo disse o epidemologista Giovanni Rezza, que coordena resposta à pandemia no país, ao Corriere Della Sera. “Não faz sentido falar sobre o pico da epidemia se estivermos a falar do país como um todo. Temos de ver de que parte de Itália falamos. Na Lombardia estamos a viver uma incidência máxima em Brescia e Bergamo, enquanto que na região de Lodi já superámos o pior.” As declarações foram feitas há cinco dias, a 20 de março, véspera de Itália ter atingido a sua marca mais alta de novos casos por dia.

Já nessa altura, Franco Locatelli, presidente do Conselho Superior de Saúde, alertava para o mesmo que Ranieri Guerra, dirigente da OMS, disse esta quarta-feira: “O que vemos hoje reflete a situação em termos de propagação da infeção que tivemos há 12/14 dias.” Ou seja, com o coronavírus nada é imediato e baixar a guarda pode ter consequências duas semanas depois.

Atingir o pico não significa que o perigo tenha passado, alerta, ao mesmo jornal, Paolo Bonanni, professor do Departamento de Ciências da Saúde da Universidade de Florença. “Na China, tudo poderia começar de novo através da importação de casos de outras regiões do mundo. Agora nós é que somos o perigo para eles. O problema é a não-sincronia de surtos epidémicos em todo o mundo”, diz, acrescentando que é preciso que a redução de casos seja visível em todo o mundo. “As medidas devem ser mantidas por um período significativamente longo para garantir que a epidemia não regressa.”

O balanço desta quarta-feira da Proteção Civil revelou um total de 7.503 mortes no país e 74.386 infetados (número acumulado). Os números apontam para mais 683 mortes só nas últimas 24 horas em Itália e mais 5.210 casos positivos. Entre os casos resolvidos, 9.362 doentes já recuperaram e os casos ativos são atualmente 57.521.