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No mesmo dia em que um artigo no jornal Expresso afirmava que a comunidade científica acreditava ser impossível não existir um “novo ciclo de quarentena até ao final do ano”, a epidemiologista Gabriela Gomes atenuou a situação numa entrevista dada à SIC Notícias.

A “probabilidade de surgir uma nova vaga de quarentena”, na verdade, “depende do tempo que durarem as medidas de contenção”, explicou a especialista, durante uma videoconferência.

Segundo os cálculos da epidemiologista, uma epidemia que não desencadeasse uma série de medidas de contenção como as que têm estado em vigor em Portugal resultaria num afluxo de doentes “dez vezes superior” à capacidade do SNS. Este cenário, apesar de resultar num “volume de casos absurdo”, faria com que o vírus durasse apenas três meses e, depois disso, nenhuma “segunda vaga” surgiria.

Olhando para aquilo que tem acontecido, ou seja, para o cenário com várias medidas de isolamento e contenção, tudo muda: “Ao contermos estamos a reduzir o número de casos de forma a que seja possível o SNS ir tratando das pessoas. Ao mesmo tempo, porém, isso faz com que a população não esteja a desenvolver imunidade.”

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Isto pode fazer com que surja uma nova vaga, como havia sido mencionado, mas esse desfecho não é o único possível. Para Gabriela Gomes, a forma de evitar tudo isto é manter “um ano de contactos pessoais reduzidos”, estratégia que permitia manter o número de doentes a um nível correspondente à capacidade de resposta do Serviço Nacional de Saúde.

Se se mantivessem “os contactos sociais a cerca de 25% daquilo que temos numa situação normal” (por cada quatro pessoas que costumávamos ver, víamos apenas uma) seria mais fácil de gerir a situação, evitando não só a tal segunda vaga de quarentena como o entupimento do SNS. Por isso, o “isolamento social podia manter-se por um ano” a menos que antes disso se descobrisse uma vacina.

A estratégia do Reino Unido, pelo menos no início do seu combate contra o novo coronavírus, envolveu a teoria da imunidade de grupo, o tal panorama de pandemia sem medidas de contenção. Sobre isso a epidemiologista explica que “não podemos esperar desenvolver a imunidade de grupo por infeção natural” porque isso levaria ao tal volume de casos totalmente incomportável. “Temos de fazer de tudo para que esse volume de casos não se verifique”, afirmou.

E que se desengane quem achar que só os idosos são alvo de risco nesta pandemia: “Isto é uma questão de dose/resposta. Talvez uma exposição baixa seja suficiente para que uma pessoa mais idosa fique doente, mas uma pessoa mais jovem, se apanhar uma dose mais alta, também acaba por ficar doente.”