“O teste é muito falível. O risco de falência do sistema hospitalar é altíssimo. Não estão a ser consideradas todas as hipóteses e se assim continuarmos vai acontecer a desgraça que está a acontecer em Itália”. O alerta, bastante direto e sintético, é feito por Tomás Lamas, médico dos Cuidados Intensivos do Hospital Egas Moniz, em Lisboa. O motivo para o alarme é simples: a inexistência de qualquer contenção ou proteção nas zonas denominadas “Covid negativo” nos hospitais portugueses, ou seja, as zonas que recebem os pacientes que testaram negativo para o coronavírus ou que, devido à ausência de sintomas, não constituem um caso suspeito.

“Muitos hospitais estão a seguir a orientação da Direção-Geral da Saúde, que é muito pouco explícita sobre como organizar os internamentos. Existem duas zonas: a zona “Covid positivo” e a zona “Covid negativo”, e até aí tudo bem, são os doentes identificados como positivos de um lado e todos os outros doentes do outro. O problema é que os profissionais que estão na zona “Covid negativo” estão sem qualquer proteção, sem qualquer máscara — até porque a orientação da DGS é para só usar máscara perante um doente suspeito ou positivo –, e os doentes que estão nessa zona podem ser disseminadores assintomáticos da doença. Um hospital é um ponto de encontro de pessoas”, começa por explicar ao Observador. Tomás Lamas fez um primeiro alerta na própria página de Facebook, onde partilhou uma fotografia devidamente equipado com material de proteção.

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Posted by Tomas Lamas on Wednesday, March 25, 2020

Na ótica do médico do Hospital Egas Moniz, um doente que tenha sido colocado na zona “Covid negativo”, por não apresentar qualquer sintoma ou até por testado negativo, pode ser, não obstante, um falso negativo que vai disseminar o vírus num espaço hospitalar onde os profissionais de saúde não utilizam máscaras, batas ou qualquer outro tipo de equipamento protetor. “Os testes PCR que nós fazemos para detetar a presença da Covid têm uma fraca sensibilidade. Há muitos falsos negativos, pessoas que podem ter um quadro respiratório típico e continuam a ter dois testes negativos e podem ser mal orientados. O teste em si não garante nada. Podem existir doentes que não têm sintomatologia respiratória e estão a contaminar espaços hospitalares porque não estão a ser tomadas as devidas precauções”, explica Tomás Lamas.

“Se classificarmos todos os doentes, exceto os positivos, como doentes prováveis, conseguimos logo à partida estar protegidos e evitar a disseminação dentro do hospital. Um doente que entra com uma fratura no braço ou na anca, é operado, tem alta hospitalar, pode apanhar no hospital ou pode ser disseminador porque está infetado. E depois acontece o que tem acontecido em alguns sítios, como é o caso do SAMS, e começam a aparecer focos de contágio em sítios pouco prováveis, como enfermarias cirúrgicas ou na dermatologia”, acrescenta o médico, partindo do caso do hospital do Serviço de Assistência Médico-Social do Sindicato dos Bancários, onde profissionais de saúde foram infetados por doentes que, teoricamente, não eram casos suspeitos.

Tomás Lamas garante ainda que um dos principais problemas de ter todos os profissionais de saúde devidamente protegidos em todas as zonas dos hospitais é a escassez de material protetor. “Falo com outros colegas e estão todos na mesma situação. O material não chega. Vejo as notícias e dizem sempre que ‘os aviões estão a vir, os aviões estão a vir’, com mais material, mas nunca mais aparecem. O problema desta política que está a ser assumida é que o teste é falível. Não temos um teste que dê garantias a 100%. O segredo da estratégia dos chineses foi considerar todos os doentes como potenciais infetados. E, em Portugal, o único hospital com esta estratégia é o São João, no Porto. Temos todos de seguir esse exemplo”, defende o médico intensivista.

“A máscara cirúrgica pode dar uma falsa segurança, mas a verdade é que impede o ar que exalamos de contaminar outras pessoas. Se usarmos todos a máscara cirúrgica, evita-se o efeito de contágio de grupo, mesmo que estejamos assintomáticos”, acrescenta. “Estamos a pôr toda a gente em casa, mas, se há doentes a contaminar os hospitais, existe uma quebra da quarentena e não há quebra do ciclo vicioso deste vírus. Se isto não for tomado em consciência, a estratégia vai falhar”, conclui Tomás Lamas.

O Observador aguarda ainda a resposta da DGS às declarações do médico.

O novo circuito que passa pelos centros de saúde, a possibilidade de o Curry Cabral ser “exclusivamente” Covid e a denúncia de mães e recém-nascidos em risco no Amadora-Sintra

Esta quarta-feira, na habitual conferência de imprensa para apresentação do boletim diário da DGS, Graça Freitas detalhou o novo circuito criado para responder à fase de mitigação da pandemia, que entra em vigor a partir da meia-noite. A diretora-geral da Saúde garantiu que a decisão foi “abrir totalmente o modelo” inicial, que passava pela identificação de hospitais de referência, e explicou que existem agora quatro etapas no circuito de uma pessoa possivelmente infetada — e que abrangem setor público, privado e social, sendo os IPO de Lisboa e Porto as únicas exceções.

A primeira fase é a dos casos ligeiros, com sintomas leves, que ficam em casa e são acompanhados remotamente pelos médicos de família; a segunda visa os doentes com sintomas “um pouco mais graves” mas moderados, que são encaminhados para centros de saúde Covid, com áreas dedicadas à avaliação e tratamento de pacientes (os chamados ADC Covid, Área Dedicada a Covid), com Graça Freitas a especificar que “uma determinada área geográfica pode decidir que em vez de eleger todos os centros de saúde para Covid-19, pode escolher um centro de saúde de cada freguesia”, que só receberia casos confirmados ou suspeitos; a terceira fase é a dos doentes graves, que são encaminhados pela linha SNS 24 para uma urgência hospitalar, onde a pessoa será testada e os médicos irão decidir se fica ou não internada; e a quarta e última fase é a dos casos críticos, que avançam diretamente para internamento hospitalar.

Também esta quarta-feira, António Costa visitou o Hospital Curry Cabral, em Lisboa, um dos serviços que começou por ser um hospital de referência, e admitiu que está a ser avaliada a possibilidade de se tornar “exclusivamente dedicado” a receber casos suspeitos ou confirmados de Covid-19 — alargando o serviço de doenças infecciosas para os outros serviços hospitalares, passando das atuais 36 camas disponíveis para um total de 300 camas de capacidade.

Entretanto, o Sindicato Democrático dos Enfermeiros de Portugal (SINDEPOR) alertou para os “riscos” que mães e recém-nascidos estão a correr na “transferência e internamento” no Hospital Fernando Fonseca, que abrange os concelhos da Amadora e Sintra. “Embora criados dois circuitos distintos no bloco de partos, é no seu internamento que correm grandes riscos de contágio. Uma mãe e recém-nascidos, quando são transferidos para o internamento, terão de usar os mesmos corredores que são utilizados pelos pacientes infetados, quando são transferidos para o piso 3. Nesse mesmo piso 3, existe uma enfermaria de puérperas [mães acabadas de dar à luz] e recém-nascidos não infetados, que partilham o mesmo circuito de acesso que os pacientes infetados com Covid-19″, pode ler-se na publicação feita pelo SINDEPOR no Facebook esta quarta-feira, que garante que este é um “risco desnecessário” uma “má gestão de camas”.