Esta sexta-feira, o dia foi passado no Norte do país e logo com uma coincidência, já que na aterragem no Aeroporto Francisco Sá Carneiro, no Porto, António Costa testemunhou a aterragem do primeiro avião fretado pelo Governo com material médico, vindo da China. “Nos próximos dias chegarão mais”, garantiu. Ainda na ressaca do duro Conselho Europeu do dia anterior, o primeiro-ministro não só manteve como reforçou as críticas deixadas no dia anterior aos “raciocínios repugnantes” dos governantes holandeses.

Mas isso seria à tarde. Logo pela manhã, Costa seguiu do aeroporto para Famalicão e terminou a jornada em Matosinhos, onde no CEIIA – Centro de Excelência para a Inovação da Indústria Automóvel ficou a saber que na próxima semana será lançado o primeiro protótipo de ventiladores, tendo a previsão que no fim de abril poderá produzir 100 unidades, no final do mês de maio 400 e nos próximos seis meses cerca de 10 mil ventiladores estarão em produção. Isto, no dia em que, segundo o boletim da DGS, a maioria dos casos infetados pelo novo coronavírus estão registados no norte.

Equipamento médico começou a chegar a Portugal. Máscaras e fatos de proteção aterraram no Porto

Por essa razão, o Primeiro Ministro diz estar “em contacto permanente com os autarcas de todo o país”, mas ainda esta sexta-feira, ao fim do dia, terá uma reunião em videoconferência com todos os presidentes das comunidades intermunicipais da região Norte “para fazer o ponto de situação”. A intenção é conhecer “as principais prioridades”, que por sua vez “exigem uma coordenação transversal muito grande”.

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“Os autarcas têm tido um papel excecional nesta articulação, vamos ver o que é que podemos todos fazer para melhor responder às necessidades dos próximos dias”, revelou António Costa.

Sobre a situação “particularmente grave” que se vive em lares também situados a norte, como Resende ou Vila Real, o Primeiro-Ministro garante estar a trabalhar “com grande proximidade”, de forma a que seja possível “prevenir ao máximo” a contaminação dentro dos lares de idosos”.

“A União Europeia ou faz o que tem a fazer ou acabará”

António Costa reforçou as críticas às declarações do ministro das Finanças holandês, Wopke Hoekstra, que defendeu que a Comissão Europeia devia investigar países, como Espanha, que afirmam não ter margem orçamental para lidar com os efeitos da crise provocada pelo novo coronavírus, que classificou de “repugnante”.

Confrontado com a possibilidade de ser excedido nas palavras, Costa reagiu dizendo, “está a brincar comigo?”. “A União Europeia (UE) ou faz o que tem a fazer ou acabará. Quanto ao senhor ministro da Holanda se alguém se excedeu foi manifestamente no que ele disse”, sublinhou.

Da “mesquinhez” ao “discurso repugnante”: Costa ataca ministro dos Países Baixos

As criticas não ficaram por aqui. “É precisão não ter a menor noção do que é viver num mercado interno como aquele que vivemos para alguém poder ter ilusão que consegue resolver o problema da pandemia na Holanda se o problema se continua a generalizar em Itália, Espanha ou em qualquer outro sítio”.

Para Costa, “não há nenhum país da UE que esteja preparado, à partida, para enfrentar situações com esta dimensão”, acrescentando que “quando toda a economia mundial paralisa é muito difícil exportar”.

Evocando o espírito de união entre países e criticando “raciocínios repugnantes” como o do ministro holandês, o líder do Governo não dúvida de que “a última coisa que qualquer político responsável pode fazer neste cenário é não compreender que a prioridade das prioridades é salvar as vidas e combater este vírus”.

“Quem quer estar numa União Europeia de 27 tem de perceber estar numa união não é viver em isolamento, é partilhar com os outros as dificuldades e as vantagens”, rematou.

[As declarações de Costa sobre “discurso repugnante” dos Países Baixos:]

10 mil ventiladores serão produzidos em Portugal nos próximos seis meses

O dia do Primeiro-Ministro a Norte foi dedicado a visitar centros industriais que adaptaram a sua atividade para produzir equipamentos médicos, segundo ele, “essenciais para o combate à Covid-19”. De manhã esteve em Famalicão, no Centro Tecnológico das Indústrias Têxtil e do Vestuário de Portugal, onde pode testemunhar o trabalho de confeção na produção de equipamentos de proteção individual, como mascaras, botas ou toucas.

Da parte da tarde passou por Matosinhos, onde no Centro Centro para a Excelência e Inovação na Indústria Automóvel uma equipa de 70 pessoas está, há dez dias, focada em criar um protótipo de ventilador para ser produzido em Portugal. “Esta pandemia vai exigir um número crescente de ventiladores”, disse o líder do Governo, considerando a aquisição deste tipo de produto “uma batalha a nível mundial”. “Além da sua colocação nas nos hospitais tradicionais, podemos ter de vir a recorrer aos hospitais de campanha que estão a ser montados. Temos que multiplicar muito a disponibilidade de ventiladores.”

Além dos aviões que vão chegar a Portugal “nos próximos dias” com equipamento e material médico, representando a compra no mercado global, António Costa defende que é necessário “aproveitar a capacidade e industrial nacional para produzir o que é necessário”.

Já no debate quinzenal desta semana, o Primeiro-Ministro mencionou o trabalho desenvolvido em Matosinhos na produção de um ventilador pulmonar. Segundo Tiago Rebelo, diretor de engenharia do CEIIA, trata-se de “um novo modelo open source de ventiladores, de baixo custo, montagem simples e produção local”, cuja industrialização será descentralizada.

Produzido com materiais e componentes disponíveis em Portugal, compatível com a infraestrutura hospitalar e de utilização fácil e intuitiva, a equipa garantiu a Costa este ser um ventilador “seguro e fiável”. “Não estamos a fazer o melhor ventilador do mundo, estamos a fazer o melhor possível para responder a um problema de uma forma rápida e eficaz”, assegura Tiago Rebelo, acrescentando que o desafio “é complexo” e que em condições normais demoraria um ano a ser desenvolvido. “Não precisamos de nos motivar, a causa em si já é uma motivação.”

Após cumprir os requisitos médicos, o projeto foi testado, estando neste momento previsto ser lançado o primeiro protótipo na próxima sexta-feira, 3 de abril. No fim de abril a intenção é conseguir produzir 100 unidades, no fim de maio 400 e a partir daí poder descentralizar para a indústria nacional, de forma a que nos próximos seis meses possam existir 10 mil ventiladores em produção.