“Gostaríamos de ver Nova Iorque em quarentena porque é um foco de contágio — Nova Iorque, Nova Jérsia, talvez um ou dois outros sítios, algumas partes do Connecticut. Estou a pensar nisso. Podemos não ter de o fazer mas existe a possibilidade de termos de implementar uma quarentena, em formato temporário, duas semanas”. Foi assim, sem grande margem para segundas interpretações, que Donald Trump pareceu anunciar este sábado que estava em cima da mesa a quarentena no estado de Nova Iorque, o mais fustigado pela pandemia nos Estados Unidos. O problema apareceu horas mais tarde, quando o governador nova-iorquino deu a conferência de imprensa diária sobre o coronavírus no Estado.

“Não falei com o presidente sobre nenhuma quarentena”, disse Andrew Cuomo, que começou por revelar que tinha falado com Trump horas antes mas sobre a ida de um navio-hospital para Nova Iorque e a construção de quatro hospitais de campanha. “Quarentena obrigatória… Nem sei o que é que isso significa. Não sei como é que seria uma obrigação legal. E, de um ponto de vista sanitário, não sei o que é iria ser alcançado. Posso dizer que nem sequer gosto de ouvir falar nisso. Nem sequer entendo o que é”, acrescentou o governador de Nova Iorque, Estado onde já morreram mais de 800 pessoas, 450 na própria cidade de Nova Iorque.

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Pouco depois, o presidente dos Estados Unidos insistiu na ideia que tinha veiculado horas antes, na Casa Branca. “Estou a considerar uma QUARENTENA nos focos de contágio em desenvolvimento. Nova Iorque, Nova Jérsia e Connecticut. Uma decisão será tomada, de uma forma ou de outra, em breve”, escreveu Trump no Twitter. Depois de várias semanas a relativizar a gravidade da pandemia mundial, o presidente norte-americano tem mostrado uma preocupação crescente com a evolução da propagação do vírus nos Estados Unidos — que já é o país do mundo com mais casos positivos, 121.043, e que já soma 2.020 vítimas mortais. Ainda assim, nada disso o impediu de este sábado ir assistir à partida do USNS Comfort, precisamente o navio-hospital que saiu rumo a Nova Iorque, em Norfolk, a mais de 300 quilómetros de distância de Washington D.C.

“Tenho espírito para o país. Nós temos marinheiros, temos médicos neste navio. Temos tudo. Não vou andar aqui aos saltos, mas sim, acho que é um ótimo sinal. E acho que é uma coisa boa eu aparecer e agradecer. Não significa que vou andar a abraçar pessoas e não significa que vou andar a cumprimentar toda a gente, mas acho que é um sinal positivo quando o presidente pode aparecer e agradecer. Por isso, tenham cuidado”, disse Donald Trump, quando questionado sobre se era necessário deslocar-se a Norfolk para ver a partida do navio.

E foi precisamente em Norfolk, enquanto o USNS Comfort partia rumo a Nova Iorque — é o segundo navio-hospital que chega ao Estado, onde a rede de hospitais está a ficar assoberbada com a propagação do coronavírus –, que o presidente norte-americano voltou a falar sobre a possibilidade de uma quarentena local. “Não vamos parar por nada para proteger a saúde dos nova-iorquinos e a saúde das pessoas do nosso país. Estou a considerar, e vou tomar essa decisão muito rápido, muito em breve, uma quarentena nas zonas de Nova Iorque, Nova Jérsia e Connecticut”, repetiu Trump.

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E Andrew Cuomo, entretanto, voltou a responder — desta vez em declarações à CNN. “Isto não seria uma quarentena, seria um isolamento. Se vamos confinar as pessoas geograficamente, isso é um isolamento. E depois seríamos Wuhan, na China. E isso não faria qualquer sentido. O presidente diz que quer reacelerar a economia, Nova Iorque é o setor financeiro, se restringirmos geograficamente um Estado, então vamos paralisar o setor financeiro. A Dow Jones iria cair como uma pedra”, afirmou o governador de Nova Iorque. “É uma ideia absurda. Seria o caos. Se o presidente estivesse a considerar isto, garanto que me teria telefonado”, concluiu Cuomo.

Donald Trump repetiu três vezes num único dia a intenção de colocar Nova Iorque, Nova Jérsia e partes do Connecticut em quarentena — na Casa Branca de manhã, no Twitter pouco depois e em Norfolk já durante a tarde. Andrew Cuomo, por seu lado, recusou a ideia duas vezes. O capítulo final só deverá aparecer quando Trump, “muito rápido, muito em breve”, anunciar se quer avançar com a quarentena geográfica.