Por debaixo das fardas nasce o desgaste e a pressão pelo desconhecimento de onde e quando estarão nas operações especiais do estado de emergência. Entre os agentes da PSP, acumula-se o cansaço de muitas horas de “pé firme” nas estradas.

“Neste ambiente que estamos a viver há cerca de quatro semanas começamos a notar algum cansaço”, assume o comissário José Ferreira, chefe da Divisão de Trânsito da PSP do Porto, que diz falar em seu nome pessoal e em nome das dezenas de agentes que coordena neste tempo do novo coronavírus.

Com um cargo de gestão, José Ferreira diz que o dia de folga “continua a ser um dia em teletrabalho efetivo” e em que “às vezes se trabalha mais do que quando está no terreno”, só que em condições mais precárias e com a família em casa.

A racionalidade, a paz e ordem para lidar com a pressão e o stresse no cargo são encontradas no ‘mindfulness’ (conceito relativo a um estado mental caracterizado pela autorregulação da atenção), confessa José Ferreira, 43 anos, nascido e criado na freguesia de Campanhã, no Porto, casado e com dois filhos de 2 e 11 anos.

É uma coisa que não é estudada, é uma coisa quase inata, ou seja, eu tento abstrair-me de muita coisa e concentrar-me naquilo que estou a fazer e tirar partido, mesmo que sejam tarefas domésticas e rotineiras, para tentar ter alguma racionalidade e não me perder”, explica o adepto dos benefícios do ‘mindfulness’, que ora coordena a operação “Páscoa em Casa”, ora pega na esfregona e no aspirador e cozinha as refeições em casa.

Os dias “mais desgastantes” são os que antecedem as operações especiais, como o caso da “Páscoa em Casa” ou o arranque da fiscalização para o estado de emergência.

“Posso-lhe dizer que na quarta-feira [08 de abril], foram mais de 50 telefonemas que fiz e recebi, estando em casa”, conta, recordando que as comunicações eletrónicas caíam de cinco em cinco minutos e só às 18:00 é que soube finalmente o horário do efetivo policial para o dia seguinte, quando arrancou o plano da época festiva.

A chegada de informação à PSP é muito tardia, lamenta o comissário, remetendo o atraso para questões políticas que não se coadunam com o planeamento operacional, fazendo com que a pressão de estar na primeira linha no terreno seja “ainda maior”.

“Isto é um desgaste tremendo, é uma pressão tremenda que nós temos, porque o efetivo também tem de saber minimamente com o que é que pode contar para o dia seguinte”, desabafa José Ferreira, acrescentando que “felizmente não são todos os dias assim”, como o de 8 de abril.

A tristeza pelo afastamento da família, por medo do contágio, é outros dos sentimentos dominantes. Muitos optaram por isolar-se numa divisão da casa, enquanto outros agentes foram viver para uma segunda habitação. Atualmente, José Ferreira tem dois agentes da divisão com teste positivo de covid-19 e alguns em quarentena.

Para animar a equipa, liga por vezes a camaradas de profissão e conta-lhes que está a tentar conciliar o teletrabalho e as dezenas de telefonemas com “o aspirador, a esfregona” e um “assado no forno”, num espírito positivo.

Entre manter a casa limpa e arrumada, dar atenção às crianças, resolver problemas relacionadas com as aulas virtuais dos professores e os programas no computador, e conciliar tudo isso com “50 telefonemas por dia” é preciso “arranjar alguma ordem e alguma paz”.

Em entrevista à Lusa, a investigadora Cristina Queirós, da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto, explica que a organização por turnos mais longos e uma rotação com menos sobreposição de pessoas “pode diminuir o risco de contágio” entre os agentes, mas vai, por outro lado, aumentar o cansaço físico e o desgaste/exaustão emocional.

“A emoção de culpa de poder contagiar a família também agrava o mal-estar psicológico dos agentes, pois leva ao afastamento físico e isolamento, seja porque a família vai para longe, seja porque não vão a casa, e o suporte social e o local de conforto diminuem quando mais eram necessários”, avisa a psicóloga, referindo que se está a assistir a situações antes impensáveis para o trabalho de um polícia, o que implica uma “adaptação constante”.

A autora do estudo científico “Burnout e indicadores psicopatológicos em polícias”, de 2015, realizado em conjunto com psicólogos da Divisão de Psicologia da PSP, conta que vários agentes policiais lhe ligam nesta fase de pandemia para “perguntar como ajudar colegas”, relatando múltiplas angústias.

Gerir tarefas diferentes das funções tradicionais de polícia, como por exemplo fazer cerco sanitário de localidades ou zonas, controlar deslocações dos veículos em estado de emergência com as devidas distâncias e proteções, tentar que os cidadãos respeitem o confinamento ou perceber se quem está infetado está a desrespeitar o isolamento são novos desafios para a polícia, enumerou.

“A profissão, que já era muito exigente emocionalmente, com stress e perigos diários, de repente ganha uma dimensão brutal de incerteza na exposição. Ao stress intenso de incidentes críticos no policiamento ou ao stress crónico (‘burnout’) assiste-se a uma ansiedade constante perante esta incerteza e a uma angustia do futuro”, conclui Cristina Queirós, recordando que um dos agentes comentou sentir que o “inimigo [vírus] podia estar ali sempre pronto a atacar” e que isso o angustiava muito porque não tinha controle nem sabia prevenir o ataque.

Portugal registou hoje 470 mortos associados à covid-19, mais 35 do que na sexta-feira, e 15.987 infetados (mais 515), indica a Direção-Geral da Saúde.