Os jogadores do plantel principal do Sporting vão ter cortes salariais de 40%, como consequência da crise provocada pela paragem da I Liga por causa do novo coronavírus. Se entretanto a Liga retomar essa redução será de 20%, sendo restituídos 20% caso o clube consiga o apuramento para a Champions. Estes cortes fazem parte de uma estratégia conjunta dos três grandes, Benfica, FC Porto e Sporting, segundo apurou o Observador. Tiago Pinto, diretor-geral do futebol do Benfica, disse este sábado à BTV que o tema está “a ser estudado”.

A notícia da redução salarial no Sporting foi avançada pelo jornal O Jogo e confirmada pelo Observador que soube ainda que este valor foi alvo de negociação com os jogadores, tendo a primeira proposta da Direção, ainda no início da semana sido de um corte de 50%, soube o Observador. Esta proposta foi recusada, as negociações prosseguiram com uma base de 30% e só ao final da tarde deste sábado é que se chegou ao acordo de 40% de corte nos vencimentos dos jogadores válido por três meses, de abril a junho.

Quando as competições regressarem, a redução passa de 40% para 20%, não existindo nenhuma cláusula de haver um corte noutra dimensão se os jogos forem todos à porta fechada como está previsto, por exemplo, na redução do B. Dortmund. A negociação foi feita com sobretudo dois jogadores do plantel leonino, Coates e Neto. A decisão não foi consensual, com alguns dos jogadores a oporem-se aos 40%, mas os capitães acabaram por decidir pela maioria.

Em relação a esses 20% de diferença, ficou acertado que metade será paga até ao final de 2020 e a outra parte até ao final da temporada de 2020/21. Os outros 20% poderiam ainda ser “devolvidos”, o que acertaria todas as contas, mas com um objetivo desportivo anexado: a chegada da equipa a um dos dois primeiros lugares da Liga.

Também a administração da SAD do Sporting, que apesar da primeira recusa não ponderou qualquer cenário de lay-off na sociedade, vai seguir o exemplo e cortar nos próximos três meses o vencimento em 50%. A medida já é também aplicada a André Bernardo, que substituiu no final do mês Miguel Cal na administração executiva. Além dele, fazem ainda parte da parte executiva da SAD Frederico Varandas, Francisco Salgado Zenha e João Sampaio. Nuno Correia da Silva, representante da Holdimo, é administrador não executivo.

O Observador sabe que Benfica, FC Porto e Sporting têm tentado abordar de forma conjunta vários problemas que afetam (e vão continuar a afetar) o desporto a breve prazo. A negociação de cortes salariais, por exemplo, foi uma delas, pela acentuada quebra de receitas por causa da paragem da Primeira Liga de futebol. E também nas modalidades essas negociações são seguidas, como aconteceu no andebol (posição conjunta para que a Liga fosse cancelada e os lugares europeus distribuídos com a atual classificação ainda que sem haver um campeão, ainda dependente de parecer da Federação) ou no futsal (posição conjunto para que a prova terminasse, algo que acabou por ser “abortado” por decisão da Federação). Outras modalidades de pavilhão estão em discussão.

Este sábado, o diretor-geral do futebol do Benfica, Tiago Pinto, recusou em declarações à BTV que exista um plano para cortes salariais de 50%. “O Benfica é uma marca desportivamente sólida. O presidente e Domingos Soares Oliveira estão a avaliar tudo isso [eventuais cortes] num círculo muito restrito. Desde o impacto nas receitas, às despesas que continuaremos a ter, como será o comportamento do clube e do próprio futebol se estivermos um, dois, três ou cinco meses parados em função do vírus”. Neste momento, disse o diretor-geral do futebol do clube, “o que há é uma reflexão do impacto que a crise terá no Benfica. Se houver decisões a tomar, será feito internamente”.

Fonte oficial do clube explicou que, numa primeira fase, a prioridade dos encarnados passou por agir perante a pandemia, equipar as casas dos jogadores para que pudessem continuar a trabalhar à distância e assumir também um papel social no combate ao novo coronavírus. Depois, numa segunda fase, os responsáveis começaram a fazer a avaliação do impacto da Covid-19 no desporto, em particular no futebol, e nas finanças. A OPA caiu. Os cortes salariais poderão ser o próximo passo, à semelhança do que aconteceu em todas as ligas europeias.

Também o FC Porto está a discutir, nesta altura, com os jogadores soluções para fazer face à crise que decorre da Covid-19. O Observador apurou que o corte parece agora inevitável, estando o clube a estudar a melhor maneira de o fazer e a forma mais célere de tentar restabelecer o vencimento a 100%. A par dos três “grandes”, grande parte dos clubes está em negociações ou já acordou um corte salarial (como o P. Ferreira, recentemente), ao passo que o Belenenses SAD foi o primeiro clube do principal escalão a avançar para um regime de lay-off parcial.

Lá fora, nas principais ligas europeias, houve várias formas de reagir às quebras de receitas motivadas pela pausa na competição, sendo o caso espanhol o mais parecido com o português na medida em que os clubes têm chegado a acordo com os respetivos plantéis com valores diferentes (Real entre 12% e 20%, Barcelona ou Atl. Madrid de 70%).

Na Alemanha, além de haver acordo entre administrações e plantéis em alguns casos por sugestão dos próprios jogadores, Bayern, B. Dortmund, RB Leipzig e Bayer Leverkusen acordaram dar 20 milhões de euros a outros clubes de menor dimensão para conseguirem equilibrar as suas contas. Em Itália, depois do acordo entre Juventus e plantel, os outros 19 clubes acordaram uma redução de um terço dos salários. Em França, o corte é feito tendo como base o vencimento dos jogadores, que manterão os 100% até aos 10 mil euros e ficarão com apenas 50% a partir dos 100 mil euros mensais. Por fim, em Inglaterra continua ainda a discutir-se a melhor decisão entre os representantes da Premier League e da Associação de Jogadores, sendo que o Southampton apresentou já uma proposta de corte de 30% ao seu plantel depois do lay-off de quatro clubes apenas aos funcionários.