“Doze zeros”. A resposta da União Europeia ao pós-pandemia vai chegar aos biliões de euros (milhões de milhões), no âmbito do fundo de recuperação, cuja criação foi acordada no Eurogrupo, disse Mário Centeno a cinco jornais europeus.

Numa entrevista ao El Mundo, ao Le Monde, ao Corriere della Sera, ao Frankfurter Allgemeine Zeitung e ao NRC Handelsblad, o presidente do Eurogrupo foi questionado sobre o fundo de recuperação, criado para financiar a economia europeia após a crise provocada pela Covid-19 e para “assegurar a solidariedade europeia com os estados-membros mais afetados”. Mas nem o montante nem a forma de financiamento foram já determinados. Mário Centeno não se compromete com valores específicos, mas garante que a resposta implicará “doze zeros”.

Na fase de recuperação, falamos de uma resposta calculada em biliões. Não sei se será 1,5 biliões, mais, um pouco menos, mas será de um tamanho muito considerável. Doze zeros. Mas não precisamos de fechar o número exato nas próximas semanas”, apontou. O fundo tem agora de ter luz verde dos chefes de Estado e de Governo da União Europeia, no Conselho Europeu.

Como se financiaria este apoio? Os coronabonds são uma opção para essa “solidariedade” europeia? “Não necessariamente, mas não os excluo“, disse o também ministro das Finanças português. “A solidariedade é algo que está no coração da conceção da UE”, disse, acrescentando que a crise atual não deve ser enfrentada olhando para “os manuais antigos”. “Temos de estar todos unidos e ajudar-nos a diluir o custo [da crise]”, frisou também.

“Temos visto reações muito favoráveis e também contrárias a determinadas soluções, como usar o Quadro Financeiro Plurianual da União Europeia para financiar a recuperação ou a emissão de dívida conjunta. Não me cabe julgar agora, mas o objetivo económico é muito claro e está no acordo: distribuir o custo ao longo do tempo e com financiamento apropriado. Temos de ser inovadores, pensar fora da caixa, ir além do convencional e dar uma resposta precisa. Precisamos de instrumentos úteis”.

Mário Centeno voltou a recusar a estratégia da austeridade para a recuperação da crise, uma “receita do passado que não funcionaria”, sendo antes preferível “distribuir o custo [do endividamento] ao longo do tempo”. E apelou à solidariedade entre os vários países: não só não deve haver uma “divisão entre norte e sul”, como temos de “entender que não vivemos numa ilha, não estamos sozinhos”. “O sobreendividamento é inevitável para todos”.

O presidente do Eurogrupo repetiu ainda que só daqui a dois anos será possível alcançar o nível de atividade económica de 2019. “As medidas serão tomadas nos próximos meses ou semanas. Esta é apenas a fase inicial e deve permanecer durante todo o ano de 2020 para se recuperar em 2021. Existem muitas perguntas, mas vamos levar dois anos completos para voltar ao nível de 2019, pelo menos. Cautelosamente, porque a dívida exige mais tempo, mas é possível que, no final de 2022, voltemos aos níveis de 2019.”

“Economicamente, o que estamos a enfrentar pode ser explicado em termos simples: é um choque de dimensões sem precedentes. Teremos uma contração de cerca de 20% do PIB no segundo trimestre para todos os países”, disse ainda.