A Associação das Empresas de Vinho do Porto (AEVP) prevê uma quebra a rondar os 25% nas vendas de vinho em 2020 e equaciona medidas, como a destilação de crise, para minorar o impacto da pandemia no Douro.

“Estamos muito preocupados e estamos a tentar fazer tudo para apontar algumas soluções”, afirmou esta terça-feira António Saraiva à agência Lusa.

As vendas de vinho estão em queda por causa da pandemia e arrastadas pela paragem do turismo, da restauração e hotelaria e pelo fecho dos mercados internacionais.

O Douro é responsável por 46% das exportações de vinho português. Em 2019, a região vendeu cerca de oito milhões de caixas de nove litros de vinho de Porto, mais 1,7% do que em 2018, registando um aumento do volume de negócios na ordem dos 2,9%.

“Não temos a mínima experiência anterior de algo deste género. Já tivemos crises mas eram localizadas, em Portugal ou na Europa, mas não pelo mundo inteiro ao mesmo tempo e, infelizmente, o vinho não é um produto de primeira necessidade. Ainda há alguns mercados que estão a responder, mas muito pouco”, salientou.

António Saraiva referiu que se perspetiva uma quebra de vendas a rondar os 25% em 2020 para o vinho do Porto, estimando um pouco mais, entre os 25 e 30%, para os DOC (Denominação de Origem Controlada) Douro.

O responsável ressalvou que se tratam de previsões e que tudo vai depender do evoluir da pandemia, referindo que se prevê também “alguma retoma lá para julho ou agosto”, o que poderá acontecer de “forma frágil e reduzida“. “Estamos a tentar prever os cenários para minorar”, frisou.

A redução nas vendas de vinho do Porto pode levar também a uma redução acentuada do quantitativo de benefício a fixar em 2020. O benefício é a quantidade de mosto que cada produtor pode transformar em vinho do Porto e é uma importante fonte de receita para os viticultores, pelo que a previsível redução está a causar grandes preocupações na região.

“Não queremos que o benefício caia de forma abrupta, para a região era um descalabro total”, referiu.

O responsável disse que os representantes do comércio e da produção estão a trabalhar em conjunto para tentar “minorar os prejuízos latentes”, e considerou que serão precisos “apoios públicos”.

Uma das medidas que a AEVP está a equacionar é a “destilação de crise”, que ajudaria a resolver o problema “sanitário” e o “excedente de vinho na região“. A vindima de 2019 “foi generosa em quantidade”, há stocks elevados de vinhos, nomeadamente de DOC, que não se estão a vender e há também, segundo António Saraiva, falta de álcool desinfetante.

A destilação de crise resolveria, por um lado, os excedentes potenciais que existam e, por outro lado, ia-nos ajudar a resolver o problema sanitário”, explicou.

Trata-se de uma medida que está a ser pensada em conjunto com a produção, o Instituto dos Vinhos do Douro e Porto (IVDP) e o Ministério da Agricultura, e que, segundo António Saraiva, já está a avançar em países como a França, Espanha e Itália.

O responsável lembrou que as empresas de vinho do Porto já doaram cerca de 60 mil litros de gel desinfetante a várias unidades hospitalares do Norte de Portugal envolvidas no combate à Covid-19.

Para o efeito, cederam a aguardente vínica que tinham em stock e foi então possível criar uma loção desinfetante que o Infarmed – Autoridade Nacional do Medicamento e Produtos de Saúde e a Direção-Geral da Saúde “aprovaram” e que já começou a ser distribuída.

“Não podemos fazer mais porque também vamos precisar dessa aguardente para a vindima”, apontou António Saraiva.

Uma outra medida defendida pela AEVP é a utilização do saldo de gestão do IVDP, superior a nove milhões de euros, para minimizar os previsíveis impactos da pandemia na Região Demarcada do Douro.

As receitas do instituto público resultam das taxas que os produtores de vinho e os comerciantes do Douro pagam durante o ano e, por isso, António Saraiva defende que essa verba deveria ser aplicada na região.

Portugal, que prolongou o estado de emergência até 2 de maio, registava na segunda-feira 735 mortos associados à Covid-19 em 20.863 casos confirmados de infeção, de acordo com os dados divulgados pela Direção-Geral da Saúde (DGS).