Marques Mendes defende que o poder político “deu maus exemplos” na abordagem às comemorações do 1.º de maio. “O que fica para o conjunto dos cidadãos é que a uns aplicam-se regras, a outros abrem-se exceções”, disse o antigo líder social-democrata, acrescentando que “isto mina a credibilidade do poder político” e que o episódio pode acabar por levar algumas pessoas a desrespeitar as indicações das autoridades, devido à indignação.

Para Marques Mendes, os “maus exemplos” dividiram-se em duas ocasiões: primeiro quando foi recomendado que se evitem concentrações e aglomerações de pessoas mas foi aberta uma exceção para o 1.º de maio; e depois quando voltou a abrir uma exceção para os autocarros da CGTP que viajaram rumo a Lisboa para participar nas comemorações, durante um fim de semana em que as deslocações entre concelhos estavam proibidas. Ainda assim, o antigo líder do PSD “reconheceu” que a CGTP fez um “esforço” para cumprir as normas sanitárias.

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No habitual espaço de comentário depois do Jornal da Noite, na SIC, Luís Marques Mendes considerou que a Igreja Católica teve “bom senso e enorme sentido de responsabilidade” na decisão de suspender as celebrações do 13 de maio — bom senso e sentido de responsabilidade que, segundo indica, “faltaram à CGTP e ao poder político”.

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Sobre o início gradual do regresso à atividade, que arranca esta segunda-feira, disse que o plano de desconfinamento progressivo apresentado pelo Governo é “bem desenhado e bem estruturado”. Ainda assim, o ex-líder social-democrata deu conta de um ponto crítico, o dos transportes públicos, que exige “sentido cívico das pessoas e fiscalização constante das autoridades”, e uma omissão “compreensível nesta fase”, a questão dos lares, onde a população mais envelhecida está impedida de receber visitas. “Os idosos passam a não morrer da doença para morrer do isolamento e da solidão”, sublinhou. Luís Marques Mendes delineou ainda três “condições fundamentais” para o sucesso desta fase: a disciplina cívica, a confiança e a reabertura das várias economias da Europa. “Reabrir a atividade é mais difícil do que fechar. A condição essencial está na cidadania”

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Enquanto balanço da resposta política à primeira fase da crise, Marques Mendes garantiu que existiram “bons e maus exemplos”. Os bons são principalmente na saúde, devido à “tarefa heróica dos profissionais de saúde”, à “transparência” e ao “consenso político e social” — engrossados por uma “ideia inovadora e importante” do primeiro-ministro, as reuniões no Infarmed com epidemiologistas; e o maus são na economia, “sobretudo no layoff“, cuja execução foi uma “trapalhada”. Quanto aos dois protagonistas, Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa, defendeu que estiveram ambos “globalmente bem” e que existiu “solidez institucional”, que gera “confiança” nos cidadãos. Marques Mendes revelou também que, esta segunda-feira, o Jornal de Notícias e a TSF terão uma sondagem da Pitagórica que coloca a aprovação dos cidadãos ao primeiro-ministro nos 74%. “Com esta popularidade, [António Costa] vai ter os orçamentos aprovados e vai ter garantido que o Governo fica até ao fim da legislatura, algo que não era garantido há dois meses”, antes da pandemia, atirou.

Sobre a eventual nacionalização da TAP, o antigo presidente do PSD sublinhou que existem principalmente dois problemas — a “falta de liquidez” e a “falta de confiança” entre o Estado e os restantes acionistas. Assim, Luís Marques Mendes garante que o Governo terá de tomar uma decisão quando à TAP “o mais tardar até ao final de maio” e explica que existem três fatores-chave que terão de ser tidos em conta: o valor a injetar na companhia aérea nacional, a solução a adotar (que, de acordo com o político, não será nem a nacionalização nem um empréstimo com garantias do Estado) e o controlo da gestão. “A solução pode passar por uma combinação de dinheiro injetado, que poderá entrar através de um aumento de capital, e uma segunda parte, outra injeção de capital, que poderá ser através da emissão de obrigações convertíveis em ações”, explicou.

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Por fim, Marques Mendes comentou um tema que foi notícia durante a semana. Cláudia Santos, deputada à Assembleia da República pelo PS, faz parte da lista de recandidatura de Fernando Gomes à presidência da Federação Portuguesa de Futebol, no cargo de presidente do Conselho de Disciplina do organismo que regula o futebol português. Segundo o político, já existe mesmo um projeto de parecer de aprovação por parte da Comissão de Transparência da Assembleia da República. Para o social-democrata, este é um “sério exemplo de degradação da vida política” e a deputada deveria suspender ou renunciar ao mandato no Parlamento, já que a acumulação de cargos “até pode ser legal” mas é “eticamente censurável” e representa a “promiscuidade e a ligação perigosa” entre a política e o futebol.

Marques Mendes destacou ainda a venda da Brisa por parte do Grupo José de Mello e do fundo de investimento Arcus, uma “operação de grande envergadura”. “Ainda para mais, feito em tempo de crise, é notável. É uma aposta do investimento estrangeiro em Portugal, mesmo em tempo de crise, o que é um sinal de confiança”, concluiu.