“Os estabelecimentos comerciais estão prontos para vos receber”. A mensagem do primeiro-ministro é clara: além da saúde, é preciso proteger a economia e “retomar a normalidade, agora de uma nova forma e com as cautelas que não podemos deixar de ter”. Por isso mesmo, Costa insta os portugueses a iniciarem uma espécie de “processo de ocupação da rua” em curso — o que, face ao medo existente na sociedade portuguesa, quase que se assemelha a um ato revolucionário como muitos outros do PREC de 74/75. Mas sempre com afastamento social — o que levou-o a recusar uma selfie mas a passear de mão dada com a mulher.

O apelo de António Costa é feito na rua do Carmo, no coração de Lisboa, depois de uma visita pelas lojas do Chiado: “com a mesma convicção com que pedi que ficassem em casa, o apelo que eu agora faço é que, com segurança, com cautelas, retomem o processo de ocupação da rua, de regresso à rua, de regresso às lojas, de regresso à restauração, de regresso aos cafés, porque é assim que, coletivamente, vamos poder relançar outra vez a nossa vida no país”, afirmou.

“Com a mesma determinação com que nos fechámos, temos agora de sair à rua”, acrescenta António Costa.

E a rua é agora um lugar diferente. Em todas as lojas há desinfetante, lotação fixada, e obrigatoriedade de uso de máscara. No interior ou cá fora, os clientes esforçam-se por cumprir as distâncias, mesmo que isso signifique passar para o outro lado da rua para evitar a concentração de jornalistas e câmaras de televisão. É que tirando isso, o movimento nas ruas é pouco e raros são os portugueses que se aventuram a passeios pelas lojas.

“Estamos na luta, estamos a tentar adaptar-nos e a cumprir as regras da direção-geral da Saúde”, partilhou com o primeiro-ministro um funcionário de uma ótica. Disso mesmo, rua abaixo, se queixam todos os lojistas: as lojas abriram, mas não há clientes.

O percurso do primeiro-ministro começou no largo do Chiado, junto ao café A Brasileira, e seguiu até ao Rossio. Além do autarca de Lisboa, a acompanhar António Costa está também a mulher.

A meio do percurso, e depois da Igreja da Nossa Senhora dos Mártires, param num café. À porta há um aviso: dois clientes de cada vez, no máximo. Por isso, Fernando Medina aguarda cá fora e deixa entrar o casal.

António Costa e Fernanda Tadeu pedem dois cafés e bebem cá fora, porque esta pastelaria (e todas as outras, até segunda-feira) só podem trabalhar para take-away. É a vez do presidente da câmara de Lisboa visitar a loja seguinte.

“Hoje é o aniversário da nossa filha e por isso vamos comer muitos doces à tarde”, conta a mulher do primeiro-ministro aos jornalistas  — razão para se ficarem apenas pelo café.

Seguem viagem e, neste percurso, um trajeto habitual das campanhas eleitorais, Costa vai ouvindo as mudanças a que os comerciantes se tiveram de habituar.

Alguns já passaram por muitas, como a joalharia do Carmo, fundada em 1926. O negócio já atravessou várias crises, mas agora vivem-se tempos diferentes. Hoje, há um gradeamento na porta, desinfetante no balcão, e só entra um cliente de cada vez.

“Mas quem me dera ter uma pessoa para entrar. Esta rua, que era um movimento louco, de repente é um espaço enorme vazio”, conta ao Observador Teresa Folhadela, uma das lojistas. “As vendas que fizemos foram pelo telefone ou e-mail. Recebi há dois dias uma mensagem de um senhor de Hong Kong, vendemos uma coisa para a América e fizemos uma entrega em Lisboa”.

À porta, Alberto Sampaio, o proprietário da joalharia, tenta já angariar um cliente. Depois de elogiar o trabalho do primeiro-ministro, o convite: “tem de vir cá comprar qualquer coisa. A senhora vai ficar muito contente, tem de comprar alguma coisa bonita para ela.”

A esperança é de que o Chiado volte a ganhar vida com a reabertura dos cafés e restaurantes: “Eu acho que a partir de segunda vai ser diferente”, confessa Teresa Folhadela, no interior da loja.

Ao lado, na sapataria do Carmo, Teresa Oliveira confessa que a visita do primeiro-ministro foi importante. A sapataria reabriu a 4 de maio, mas quanto aos clientes, a lojista conta ao Observador que fazem falta os turistas. “Nós trabalhamos muito com os estrangeiros e é preciso que eles voltem”, explica. “Agora é um dia de cada vez”.

Esplanadas isentas de taxas até ao final do ano

O presidente da câmara de Lisboa, que acompanhou o primeiro-ministro nesta visita às lojas do Chiado, reservou o anúncio para o final.

“A câmara de Lisboa vai estender a isenção de taxas de instalação de esplanadas até ao final do ano”, garantiu Fernando Medina, adiantando que a decisão vai ser tomada na próxima semana “em colaboração com todos os partidos” e que vai ser promovido o espaçamento nas esplanadas, nos cafés e restaurantes em que isso for possível.

Segundo o autarca, a Câmara de Lisboa pretende dar “um sinal de apoio” à restauração nesta “nova fase” de reabertura, que terá início na segunda-feira, após semanas de encerramento devido à Covid-19.

Fernando Medina acrescentou que a intenção da Câmara de Lisboa é prolongar esta isenção “com a possibilidade de — sendo isso possível, mantendo grandes canais para circulação pedonal — haver algum espaçamento das esplanadas e até alargamento”.

“O que queremos transmitir é um sinal positivo, de confiança, à restauração”, reforçou.