O príncipe Lourenço da Bélgica defendeu esta semana o antigo rei Leopoldo II, cujas estátuas têm sido alvo de ataques e petições para que sejam removidas devido ao papel do antigo monarca nas atrocidades cometidas no Congo entre o fim do século XIX e o início do século XX, classificadas por muitos (mas não pela Bélgica) como genocídio.

Numa entrevista ao jornal belga Sudpresse a propósito do debate sobre a “descolonização do espaço público” (motivado pelos protestos anti-racismo na sequência da morte de George Floyd nos EUA), o príncipe Lourenço, que faz parte da família real belga e é, por isso, descendente de Leopoldo II, argumentou que o antigo rei nunca se deslocou fisicamente ao território congolês.

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Ele nunca foi ao Congo, não vejo como é que poderá ter feito as pessoas de lá sofrer“, defendeu Lourenço. “Basta ver o que o rei Leopoldo II fez pela Bélgica e vai entender. Devíamos ter em conta que houve muitas pessoas que trabalharam para Leopoldo II e, verdadeiramente, abusaram. Mas não é por isso que Leopoldo II abusou”, acrescentou o príncipe.

Recentemente, uma estátua do rei Leopoldo II com mais de 150 anos foi removida da cidade belga de Antuérpia devido aos protestos contra as homenagens ao antigo rei. Várias outras estátuas do rei por todo o país têm sido vandalizadas, numa altura em que as estátuas que evocam o passado colonialista do Ocidente têm sido alvo de violentos protestos.

O príncipe Lourenço da Bélgica defendeu o rei Leopoldo II, seu ascendente

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Em Portugal, uma estátua do padre António Vieira em Lisboa foi vandalizada na quinta-feira com a palavra “descoloniza“.

O reinado de Leopoldo II é ainda hoje considerado um dos mais brutais regimes colonialistas na história europeia — e não pode, na verdade, ser atribuído a mais ninguém além do próprio rei. Entre 1877 e 1908, Leopoldo II estabeleceu no território que atualmente corresponde à República Democrática do Congo o chamado “Estado Livre do Congo”, um reino privado que não era uma colónia belga, mas uma propriedade pessoal do rei.

Leopoldo II quis explorar os muitos recursos naturais daquela região e conquistou o território pela força, tendo subjugado a população e forçado os homens que ali viviam a trabalhar na recolha de borracha, óleo de palma e marfim.

A forma como os congoleses foram tratados durante o regime de Leopoldo II é ainda hoje recordada pelas célebres fotografias de escravos negros sem mãos. O corte das mãos era um castigo comum imposto pelos capatazes àqueles que se rebelavam contra o regime. Espancamentos e chicotadas eram comuns, bem como a destruição de aldeias inteiras quando os habitantes não cumpriam as quotas de recolha de borracha impostas pelo exército privado de Leopoldo II.

“Descoloniza”. Estátua de Padre António Vieira, em Lisboa, foi vandalizada

Era comum também que os agentes daquela força paramilitar raptassem famílias inteiras de congoleses para as usar como moeda de troca pelas quantidades certas de borracha. Se as quotas não fossem cumpridas, era também habitual que os soldados de Leopoldo cortassem as mãos aos familiares dos homens.

A chacina do povo congolês foi de tal ordem que se estima que a população do território ocupado por Leopoldo II tenha diminuído, em apenas duas décadas, de 20 milhões para 8 milhões de pessoas. A exposição, na imprensa internacional, dos detalhes das atrocidades cometidas pelo rei dos belgas no Congo pressionou Leopoldo II a passar o controlo do território para o estado belga em 1908, ano a partir do qual o Congo Belga passou a ser uma colónia.

A morte do cidadão afro-americano George Floyd, no fim de maio, às mãos da polícia norte-americana, espoletou uma onda de protestos contra o racismo em todo o mundo, incluindo em Portugal. Uma das faces desses protestos tem sido o ataque a estátuas de várias figuras relacionadas com o passado colonialista da Europa.