A organização de conservação da natureza WWF (World Wide Fund for Nature) avisa que o risco de aparecimento de uma nova zoonose, uma doença transmitida pelos animais para o homem, “está mais alto do que nunca”. E isto devido à expansão da agricultura para terrenos selvagens, “aumentado as interações entre os homens e os animais selvagens”, pelo consumo de animais selvagens considerados de “alto risco” e ainda devido ao crescente consumo de carne que coloca pressão sobre o meio ambiente.

“A humanidade rompeu a relação com a natureza e isso tem um custo”, vaticina o relatório que tem por título “Covid-19: um apelo urgente para proteger as pessoas e a natureza”. O que se revelou, nesta pandemia, não só através da perda de vidas como também no impacto económico. A conclusão que tira é que esta é “uma oportunidade real, no meio desta tragédia, para sarar a relação com a natureza e mitigar o risco de futuras pandemias”. Esta pressão é “insustentável”, considera a organização no relatório conhecido esta quarta-feira.

As “novas zoonoses estão a aparecer a um ritmo alarmante”, já que “o impacto negativo do homem na natureza aumenta o risco de futuras pandemias”. As chaves para o aparecimento das zoonoses são “a expansão e a intensificação da agricultura e a produção animal, e o consumo de animais selvagens de alto-risco, pelo que é necessário, dita o relatório, “levar os governos, empresas e pessoas a enfrentarem estes fatores e criarem um mundo mais saudável”.

O Governo chinês proibiu, logo no final de fevereiro, o consumo de animais selvagens, mas isso, considera esta organização, “não será suficiente para prevenir a próxima pandemia – o atual sistema alimentar global é insustentável, e está a levar inúmeros espaços naturais a serem convertidos para fins de agricultura extensiva, fragmentando ecossistemas naturais e aumentando as interações entre a vida selvagem, animais domésticos e humanos”.

Nos últimos 30 anos, 178 milhões de hectares de floresta desapareceram e cerca de 10 milhões de hectares de floresta estão a desaparecer todos os anos devido à conversão das terras para agricultura e outros usos, explica a WWF. Ângela Morgado, Diretora Executiva da ANP (Associação Natureza Portugal)/WWF, diz que tem de ser reconhecida “urgentemente a ligação entre destruição da natureza e saúde humana, ou assistiremos a uma nova pandemia em breve. Não há dúvida, e a ciência é clara; temos de trabalhar em conjunto com a natureza, e não contra ela”.

Já Catarina Grilo, Diretora de Conservação e Políticas da mesma associação, considera urgente, num comunicado divulgado pela ANP/WWF, “restringir o comércio e o consumo de vida selvagem de alto risco, pôr fim à desflorestação e conversão de terra, assim como gerir a produção alimentar de forma sustentável. Todas estas medidas prevenirão a transmissão de agentes patogénicos para humanos e de outros riscos para a nossa sociedade, como a perda de biodiversidade e as alterações climáticas”.

O objetivo, diz ainda Ângela Morgado, é fazer com que “os líderes mundiais ajam urgentemente para transformar a nossa relação com o mundo natural. Precisamos de um Novo Acordo Para a Natureza e as Pessoas que inclua a natureza no caminho da recuperação até 2030 e salvaguarde a saúde humana e os meios de subsistência a longo prazo.”