O nome do ex-ministro das Finanças Luís Campos e Cunha está a ser lançado por alguns mutualistas como alguém que poderia emergir como o rosto de uma alternativa à atual administração do Montepio — uma alternativa que assumisse de forma mais frontal as dificuldades que a mutualista enfrenta e que podem tornar inevitável algum tipo de apoio público à instituição, no horizonte próximo.

Contactado pelo Observador, o economista – que foi sempre muito crítico do antigo presidente Tomás Correia – garante que, para já, não “pensou” sobre esta possibilidade nem foi “desafiado diretamente” para liderar uma possível lista alternativa aos cargos diretivos da mutualista Montepio nas próximas eleições, que estão marcadas para o final do próximo ano mas que alguns admitem que podem vir a ser antecipadas.

Mas o Observador sabe que Campos e Cunha, cujo nome já foi falado noutros atos eleitorais, tem-se vindo a interessar mais sobre o tema nos últimos tempos e pediu que lhe trouxessem as contas da mutualista, aprovadas a 30 de junho em assembleia geral, para poder analisar de forma detalhada a situação financeira da organização.

Uma coisa é certa, porém: Campos e Cunha nunca avançaria a menos que fosse convidado pelos mais altos responsáveis do poder político e que lhe fosse dado um claro respaldo sobre os termos em que o Estado estaria disponível para apoiar a recuperação da mutualista. O ex-ministro das Finanças não estaria disponível para ser chamado para uma solução de “continuidade” que, no fundo, continuasse a desvalorizar a emergência da situação financeira do Montepio e as perspetivas de uma recuperação sem intervenção pública – ainda mais no contexto de dificuldades trazidas pela pandemia, desde logo para o negócio bancário da caixa económica (Banco Montepio).

Foi, aliás, nessa assembleia geral de 30 de junho que o nome de Campos e Cunha foi avançado como um dos possíveis rostos da mudança na mutualista. A intervenção que simbolizou a mobilização (organizada) de vários críticos da atual administração foi a de Victor Baptista, ex-deputado pelo PS e ex-governador civil de Coimbra, que apontou Campos e Cunha como o candidato ideal – juntando, também, outros notáveis como o também ex-ministro das Finanças Bagão Félix e João Costa Pinto, um histórico do Banco de Portugal que é um destacado membro do Conselho Geral da mutualista (ambos foram, também, muito críticos de Tomás Correia durante longos anos).

“Não há tomasismo sem Tomás Correia”

Foram lançados esses três nomes mas Campos e Cunha é, sabe o Observador, o nome que tem estado no centro de uma mobilização de mutualistas nas últimas semanas.

Victor Baptista, contactado pelo Observador, garantiu que, antes da sua intervenção na assembleia geral, não falou “com ninguém” (entre os nomes que avançou). Mas considera que os três nomes são mutualistas “desde sempre” e é neste momento que “a associação precisa de algumas destas pessoas”. “A mutualista precisa de uma nova liderança, uma liderança credível, que não esteja fidelizada a grupos”, diz Victor Baptista, acrescentando que a atual administração, que foi eleita com Tomás Correia, “carece de legitimidade” desde que Tomás Correia saiu, no final do ano passado. “Não há tomasismo sem Tomás [Correia]”, atirou.

O Observador falou, também, com outros mutualistas que estão a participar nesta mobilização e que indicaram que “há milhares de associados, muitos dos quais com quem temos falado, que se reveem neste nome de Campos e Cunha como alguém que poderia ajudar, com a sua notoriedade e competência, a recuperar a confiança em torno da instituição e que tem o perfil de espírito de missão necessário” para esta função.

“Não faz sentido, na nossa leitura” falar em apoio público ao Montepio, garante administração da mutualista

A atual administração do Montepio, liderada por Virgílio Lima, afirmou na semana passada que, na sua leitura, “não faz sentido falar em apoio público ao Montepio”: “Não compreendemos sequer” esse debate, afirmou. Mas as dificuldades financeiras crescentes da associação mutualista são bem conhecidas, sobretudo desde que o novo auditor (a PwC) obrigou a um corte na valorização do Banco Montepio nas contas da mutualista e, ao mesmo tempo, questionou a validade dos ativos por impostos diferidos (DTA) que estão contabilisticamente a suportar o balanço da mutualista que reúne poupanças de cerca de 600 mil portugueses.

Sem esses “créditos fiscais”, que são apenas contabilísticos (não patrimoniais), a situação líquida da mutualista ficaria negativa em quase 500 milhões de euros, como noticiou o Observador a 12 de junho.

Este é um problema que o Governo tem resistido a comentar publicamente, embora já há mais de dois anos que o primeiro-ministro, António Costa, tenha garantido no Parlamento que o Estado faria “tudo para proteger as 600 mil famílias que confiaram numa instituição e que têm aí as suas poupanças”. Na quarta-feira, o ex-ministro das Finanças Mário Centeno, na audição para possível próximo governador do Banco de Portugal, ignorou por completo as perguntas que insistentemente lhe foram feitas sobre o Montepio, designadamente pela deputada Cecília Meireles, do CDS-PP.

Nas últimas semanas, circulou o nome de Edmundo Martinho, atual provedor da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, como alguém que poderia estar na calha para assumir algum protagonismo na instituição – sendo alguém próximo de José António Vieira da Silva, que ao longo de vários anos teve a tutela da mutualista através do Ministério da Segurança Social, e que negociou com Tomás Correia uma possível entrada da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa no capital do Banco Montepio com até 200 milhões de euros. Um negócio que, quando lhe foram apontados os holofotes mediáticos, acabou por passar de um negócio de milhões para um negócio de tostões.

O estranho negócio que começou nos milhões e acaba em tostões