É um projeto piloto em Portugal e no grupo francês Auchan: no hipermercado do centro comercial Alegro de Alfragide, na Amadora, há um robô a passear pelos corredores, sozinho, que faz o trabalho que antes era feito por três pessoas. Ao Observador, Carla Moutinho, uma das responsáveis pelo projeto e diretora adjunta num dos hipermercados, afirma: esta máquina torna a equipa “mais eficiente” ,permitindo que se foquem noutras tarefas.

Ver esta máquina a funcionar faz lembrar robôs como o Wall-E, do filme com o mesmo nome da Disney/Pixar, ou o R2D2, o fiel droide da saga “Guerra das Estrelas”. Para quem não os conhece, pode pensar num aspirador Roomba, da iRobot, com uma torre presa no topo com várias câmaras e um ecrã.

[Veja no vídeo abaixo o TASC a andar pelos corredores do hipermercado enquanto vê os produtos nas prateleiras]

Esta máquina chama-se “TASC”, siglas para “tecnologia ao serviço do cliente” (um nome “carinhoso” ainda está a ser decidido, assume Carla Moutinho). Para já, o robô não tem como missão salvar a terra, uma galáxia muito, muito distante ou aspirar uma sala mesmo suja. A tarefa do TASC nos corredores de Alfragide é saber que produtos estão na prateleira e identificar se estão ou não com o preço certo.

“O objetivo é aumentar o grau de fiabilidade” e garantir que está “o preço em tudo”, explica a responsável da Auchan. Para isso, o TASC passa por cada corredor do supermercado e, através de três lentes de câmaras Canon na parte lateral esquerda da torre central do robô, identifica o que está na prateleira. Através de um sistema que recorre a algoritmos de inteligência artificial, a máquina aprende o que deve ou não estar em cada corredor — ou “linear”, como explica a responsável da Auchan — e avisa os funcionários para irem fazer a reposição ou correção.

Quando o TASC cumpre a tarefa que tem em mãos, volta à base de carregamento, que fica numa das pontas da loja, mas sempre visível, caso os clientes o queiram ver. “Estavam três pessoas alocadas a esta recolha de informação que agora transitou para o TASC, estas pessoas foram reconduzidas para tarefas de valor acrescentado”, como ir corrigindo os erros que o robô deteta, refere Carla Moutinho.

O TASC tem três câmaras laterais para identificar os produtos nas prateleiras

Com conta Sebastião Zaragoza, responsável comercial da Trax Retail, a empresa francesa que criou o software e vende estas máquinas, ao todo, o TASC tem autonomia para 10 horas. “É um robô completamente  autónomo desde o dia um. Liga-se a uma bateria e ao Wi-Fi. Mapeia a loja toda e diz que que zonas é que interessam”, explica. Isto permite que funcione sempre que é preciso, estando a loja aberta ou fechada.

Testámos todas as situações. Já trabalhamos com clientes de retalho há dois anos e meio e a maior parte dos clientes escolhe trabalhar com a loja aberta”, diz.

Para garantir que tudo funciona, cada loja tem um funcionário desta empresa alocado para fazer até coisas simples como desencravar as rodas do TASC caso tenham algum detrito, como cabelos. Além disso, há uma equipa com 30 pessoas em Paris que gere as operações para toda a Europa . Além de Portugal, a Trax Retail já tem este tipo de soluções no Reino Unido, França, Israel, Ucrânia, Alemanha, Singapura, Austrália e “projetos nos EUA”, tendo acabado de concretizar “um negócio bastante grande com uma empresa no México e no Perú”.

Como é que funciona o TASC?

O TASC é apenas desenhado pela Trax Retail. Quem faz a máquina é uma empresa alemã chamada MetraLabs. Na prática, a base redonda inferior, onde estão as rodas e outro mecanismos, serve como estrutura para o resto das necessidades que os clientes possam ter. Por exemplo, no caso do robô de Alfragide, há uma torre construída com materiais impressos em impressoras 3D. Com isto, além das câmaras da Canon, foi também adicionado um ecrã com informações para os clientes, outros sensores e dois botões para emergências.

É através dos sensores que o TASC tem embutidos que o robô consegue desviar-se dos clientes enquanto está a fazer o seu trabalho e perceber em que sítio da loja é que está. De acordo com a Trax Retail e a Auchan, o robô só recolhe dados que o permitam fazem funcionar melhor, não gravando o percurso ou a cara dos clientes.

Caso um cliente se cruze com o TASC, há um ecrã no lado lateral esquerdo que explica quem é este robô

Depois de recolher as imagens de cada corredor, o TASC envia as fotografias que tirou para uma app que os funcionários da loja têm. É com este registo que os trabalhadores podem aprovar mais ações para o robô, perceber se este errou — nada é 100% certo, mesmo na robótica — e garantir que tudo está inventariado.

Numa segunda fase do projeto, tanto a Trax Retail como a Auchan assumem que esta máquina pode passar a ter opções para poder interagir com os clientes. Imagine que não sabe onde é que está um produto. Em vez de ver na app do hipermercado, poderá eventualmente perguntar a máquina desta que, depois, o acompanhará até onde tem de ir. O cenário fictício, para já, torna-se mais futurista com a Trax Retail a assumir que até está a fazer testes com drones.

Falando no futuro, é possível que o TASC vá mudando a sua aparência e funções, qual armadura do Homem de Ferro. O caso mais claro para exemplificar isto é o do botão de emergência. Caso exista a necessidade, máquina tem dois botões salientes, um no topo e outro na base do robô, semelhante aos que têm as escadas rolantes. Porém, como explica Sebastião Zaragoza, “havia muitas crianças a carregar nos botões”. Antes, se se carregasse, o robô parava e só podia voltar a funcionar quando um funcionário fosse reativá-lo. Agora, se se carregar no botão, o TASC pára apenas uns segundo, analisa o cenário, e “foge” do local sem tocar em ninguém para poder continuar a funcionar.

Dá sempre para pará-lo com o botão de emergência. Mas vai sempre fugir, porque tem os sensores”, explica Sebastião Zaragoza.

Um robô que “no pico da pandemia” mostrou a sua importância

A importância deste projeto de robótica, como explica Carla Moutinho, ganhou maior relevância devido à pandemia de Covid-19. A ideia estava a ser negociada com a Trax Retail desde setembro e, no final de 2019, concretizou-se. Contudo, com o “boom do comércio online” a partir de março, impulsionado pela quarentena, o tipo de trabalho que o TASC precisou de ser ainda mais preciso.

Tanto a Auchan como a Trax Retail não revelam quanto é que um investimento destes pode custar. No entanto, Carla Moutinho diz já que o “objetivo [deste projeto] é que até ao final do próximo ano seja desmultiplicado pelas 34 lojas em Portugal, o total de pontos de venda da Auchan“. Ou seja, pode nem passar um ano e vai cruzar-se com um robô em cada loja desta marca.

Cada funcionário que trabalha com o TASK tem uma app na qual recebe a informação recolhida pelo robô e define as próximas ações

Ao identificar as prateleiras, este robô também permite à Auchan saber com maior precisão onde é que está cada produto. Mesmo quando fazemos uma compra online, um funcionário tem sempre de ir buscar ao corredor certo no hipermercado. Sabendo onde é que está cada coisa, o algoritmo consegue definir o melhor trajeto para estes procedimentos. “Contabilizámos 45 minutos ganhos por dia”, revela Sebastião Zaragoza.

A Auchan, além do TASC, assume que continua a investir noutras inovações para as compras nos supermercados. Atualmente, através da app da marca, é possível registar cada produto com o smartphone para evitar ficar em filas no final.

O objetivo não é um despedimento de pessoas, é sim a complementaridade de tarefas: abandonar o que eram as tarefas mais rotineiras para conduzi-los para tarefas de valor acrescentado”, afirma.

Em relação a outras invenções que têm surgido em Portugal, como sistemas que veem em tempo real o que o cliente põe no carrinho, a empresa diz apenas que é “algo que está a ser pensado”. Não obstante e para já, o que se vai ver nas lojas é mais robôs, isso parece quase garantido. Em relação ao papel dos funcionários, Carla Moutinho garante que vão continuar nas lojas e “não se vai reduzir a equipa”. Vão é estar mais “focados” noutras necessidades, promete.