O ex-eurodeputado socialista e recém-nomeado presidente do Conselho Económico e Social (CES), Francisco Assis, deixou numa entrevista ao Público vários elogios ao antigo primeiro-ministro Pedro Passos Coelho, contra o qual se chegou a bater como líder da bancada parlamentar do PS.

“À partida não me identifico muito com um homem que vinha das juventudes partidárias, embora algumas delas tivessem tido por vezes líderes notáveis, mas a verdade é que não conhecia Pedro Passos Coelho”, refere, remetendo para o ano de 2010.

Então governado por José Sócrates, o país iniciava o rumo dos vários Pactos de Estabilidade e Crescimento (PEC), que já continham em si várias medidas de austeridade. Também nesse ano, Pedro Passos Coelho era eleito presidente do PSD — e, no ano seguinte, tornar-se-ia primeiro-ministro de um governo em coligação com o CDS-PP e com um memorando da Troika negociado pelo governo anterior.

Agora, numa entrevista à jornalista Maria João Avillez, Francisco Assis revê a ideia que formou inicialmente de Pedro Passos Coelho. “Fui-me apercebendo progressivamente que era alguém com características que superavam muito a impressão inicial. Parecia-me um homem profundamente concentrado nos seus deveres, com grande determinação naquela altura difícil”, refere.

Por isso, hoje Francisco Assis acaba por dizer: “Não nego nenhuma das divergências que tive com ele, em muitas áreas, mas acho francamente que o país lhe deve alguma coisa”. Pouco mais à frente na entrevista, reforça que Pedro Passos Coelho “é uma personalidade que deveria ser respeitada e valorizada” e acrescenta que “deveria ser muito mais”.

Na entrevista, Francisco Assis revisita dois momentos do primeiro mandato de Pedro Passos Coelho (o segundo viria a durar apenas 27 dias, após um chumbo parlamentar ao 11º, dando depois origem ao governo de António Costa apoiado pela maioria parlamentar de esquerda, conhecida como “geringonça”).

Um deles, que recorda pela negativa, é o anúncio da subida da Taxa Social Única para os trabalhadores em setembro de 2012 — medida que acabou por encher as ruas de Lisboa para a manifestação do coletivo “Que Se Lixe a Troika!”, que já tinha sido convocada previamente àquele anúncio. “A ideia da TSU pareceu-me um erro gravíssimo, não havia nenhuma razão de fundo para implementá-la, trouxe as pessoas para a rua. Foi o primeiro grande momento de rutura com o seu Governo”, diz Francisco Assis.

Já o outro, que recorda pela positiva, é o momento da demissão “irrevogável” de Paulo Portas, em julho de 2013, e que Pedro Passos Coelho não aceitou. “O país passa a olhá-lo de outra forma pelo que revelou de serenidade, sangue-frio, fortíssima capacidade de liderança”, reconhece agora Francisco Assis. “E ainda a capacidade de ter sido a primeira pessoa a meter Portas nos eixos, digamos assim. Portas é um irrequieto político, com grande imaginação, grande sentido lúdico da política, grande preocupação da gestão do poder, assentes numa dimensão teatral da vida política.”