Prémios literários e iniciativas culturais patrocinadas pelos Emirados Árabes Unidos registam há algumas semanas a deserção de artistas e intelectuais árabes em protesto contra o acordo de normalização de relações com Israel e em apoio à causa palestiniana.

“Considerando que se a arte não está intimamente ligada a questões humanitárias e de justiça não tem valor, cancelo a minha participação na vossa exposição”, escreveu o fotógrafo palestiniano Mohamed Badarne dirigindo-se à fundação de arte de Charjah, um dos sete Emirados da federação.

A 13 de agosto, os Emirados Árabes Unidos (EAU) anunciaram a normalização das suas relações com Israel no quadro de um acordo negociado pelos Estados Unidos, tornando-se o primeiro país do Golfo e o terceiro país árabe a estabelecer laços oficiais com o Estado hebreu, depois do Egito (1979) e da Jordânia (1994). Os palestinianos protestaram contra a “traição”, insistindo na posição tradicional dos árabes de que a paz entre palestinianos e israelitas deve ser um pré-requisito para qualquer normalização.

A viver em Berlim, Mohamed Badarne tomou rapidamente a decisão de se retirar da exposição em Charjah. “Enquanto povo sob ocupação, devemos tomar posição contra qualquer coisa que tenha a ver com a reconciliação com o ocupante” israelita, disse à agência France Presse.

Nas redes sociais, personalidades do mundo cultural de vários países árabes, como a Argélia, Iraque, Omã, Tunísia e os próprios Emirados, criticaram a posição de Abu Dhabi. “Um dia triste e catastrófico”, comentou na rede social Facebook Dhabiya Khamis, escritora dos Emirados, quando o acordo foi anunciado, adiantando: “Não à normalização entre Israel e os Emirados (…) Israel é o inimigo de toda a nação árabe”.

Os Emirados investiram fortemente nos últimos anos no setor cultural, nomeadamente com a abertura no final de 2017 de uma extensão do museu parisiense Louvre em Abu Dhabi. Várias recompensas literárias são financiadas pelo rico país petrolífero, como o prémio xeque Zayed, com o nome do antigo presidente dos Emirados.

A escritora marroquina Zohra Ramij, que concorre com o seu romance “A sala de espera”, anunciou a retirada “em solidariedade com o povo palestiniano. O poeta marroquino Mohammed Bennis retirou-se do comité de organização do prémio. “Seria um pecado obter um prémio” dos Emirados, considera o autor palestiniano Ahmed Abu Salim, que se retirou da competição pelo Prémio Internacional da Ficção Árabe (IPAF na sigla em inglês). “Sou um intelectual defensor da causa palestiniana, seja qual for o preço a pagar”, afirmou à AFP. Apoiado pela fundação do Booker Prize em Londres, o prémio é financiado pela Autoridade do Turismo e da Cultura de Abu Dhabi.

Numa carta, antigos laureados e membros do júri pediram aos responsáveis do IPAF para deixarem de aceitar financiamento dos Emirados. Um dos signatários do texto, o intelectual palestiniano Khaled Hrub, indicou à AFP que também abandonou o júri. Contactado, o IPAF não reagiu.

Este boicote é “uma resposta natural e patriótica dos intelectuais árabes”, considera Omar Barghuti, um dos responsáveis palestinianos do movimento BDS (boicote, desinvestimento, sanções). E se alguns pensam tirar proveito do acordo Israel-Emirados “verão as suas empresas (…) boicotadas”, alerta.

Este movimento, acusado de antissemitismo por Israel, apela ao boicote económico, cultural e científico do Estado hebreu pelo fim da ocupação e da colonização dos territórios palestinianos. O poeta palestiniano Ali Mawassi sublinha que mesmo quando os Estados decidem normalizar as suas relações, as populações não se sentem necessariamente obrigadas a fazer o mesmo.

Muitos artistas egípcios e jordanos “ainda recusam associar-se a qualquer coisa relacionada com Israel”. Mas, segundo o poeta, “numerosos artistas vão ficar calados (…) para aproveitar as oportunidades que o dinheiro dos Emirados traz”.