O romance Hamnet, da escritora irlandesa Maggie O’Farrell, inspirado na vida e morte do único filho de William Shakespeare, venceu o Women’s Prize for Fiction deste ano, foi revelado esta quarta-feira. O anúncio foi feito durante uma cerimónia digital em Londres, pela presidente do júri, Martha Lane Fox. O galardão celebra em 2020 o seu 25.º aniversário.

Com esta vitória, Maggie O’Farrell deixou para trás outras fortes candidatas, como Bernardine Evaristo, autora de Rapariga, Mulher, Outra, romance vencedor do Booker Prize juntamente com Os Testamentos, de Margaret Atwood, e de duas categorias do British Book Awards, e Hilary Mantel, com O Espelho e a Luz, o volume final da trilogia sobre Thomas Cromwell e um dos favoritos ao Booker deste ano. Hamnet foi apontado como uma das obras mais prováveis de integrar a longlist deste ano do prémio de ficção, mas o romance acabou por não ser incluído.

Na corrida para o Women’s Prize estavam ainda Dominicana, de Angie Cruz, A Thousand Ships, de Natalie Haynes, e Weather, de Jenny Offill.

Martha Lane Fox descreveu Hamnet como um trabalho de ficção “verdadeiramente fantástico” e um “excecional vencedor”. A obra “expressa algo de profundo sobre a experiência humana, que parece ser tanto extraordinariamente atual como duradouro”, acrescentou a presidene do júri. Reagindo ao anúncio, a autora, Maggie O’Farrell, admitiu que era “simplesmente incrível” ganhar: “A shortlist era tão extraordinária que nunca me ocorreu”, explicou, citada pela revista The Bookseller. “Apetece-me correr para o jardim e uivar para a lua.”

Hamnet passa-se em 1596 e conta a história de Hamnet, o único filho de William Shakespeare, que morreu aos 11 anos e cuja morte se acredita ter inspirado o dramaturgo a escrever Hamlet, uma das suas tragédias mais famosas. O romance, o oitavo da escritora irlandesa, começa com a morte de Hamnet e mergulha depois na relação entre a sua mãe, Agnes Hathaway, e o seu pai, revelando como a dor leva o casamento ao limite.

“Apesar de Hamnet se passar há muito tempo, como todos os grandes romances, expressa alguma coisa profunda sobre a experiência humana que é ao mesmo tempo extraordinariamente atual e duradoura”, disse ainda a presidente do júri da edição de 2020 do prémio.

Publicado a 31 de março deste ano, Hamnet terá agora uma nova edição de 25 mil exemplares em capa dura no Reino Unido, revelou à The Bookseller a editora, a Tinder Press.

Por o livro ter sido lançado no início do isolamento social, na sequência da pandemia do novo coronavírus, O’Farrell admitiu ter agora uma relação diferente com ele: “Geralmente quando terminamos um livro, a nossa relação com ele acaba, mas nestes últimos seis meses, a minha relação [com este romance] mudou: sinto-me próxima da experiência das minhas personagens, porque os isabelinos tinham muito medo desta doença [a peste bubónica que mata Hamnet] e de outras. Passaram as suas vidas em isolamento”.

Maggie O’Farrell tem cinco dos seis oito livros publicados em Portugal. Em 2018, a Elsinore publicou um conjunto de histórias que relatam encontros com a morte, intitulado Estou viva, estou viva, estou viva.

O Women’s Prize for Fiction tem por objetivo reconhecer a ficção escrita por mulheres em todo o mundo. Criado em 1992, em Londres, capital britânica, por um grupo de homens e mulheres jornalistas, críticos, agentes, editores, bibliotecários e livreiros, procurou ser ma resposta ao facto de, no ano anterior, a lista de finalistas do prestigiado Booker Prize não ter incluído uma única mulher, situação que tem vindo a mudar — este ano, a longlist é maioritariamente composta por mulheres.

A residência ou o país de origem não são critérios de elegibilidade para o Women’s Prize for Fiction, que celebra a criatividade feminina. A vencedora recebe um prémio monetário no valor de 30 mil libras (perto de 33 mil euros).

Além de Martha Lane Fox, júri deste ano foi composto pelas autoras Scarlett Curtis, Melanie Eusebe, Viv Groskop e Paula Hawkins.