O Manchester City foi goleado em casa, o Manchester United também perdeu em Old Trafford antes de arrancar um triunfo fora no décimo minuto de descontos, o Chelsea evitou males maiores frente ao WBA conseguindo um empate após ter estado em desvantagem por três golos, o Tottenham de Mourinho voltou a marcar passo em casa sofrendo uma igualdade nos descontos. Para quem achava que a imprevisibilidade da Premier League tinha ficado circunscrita à última temporada sobretudo depois da pandemia, o arranque da nova temporada mostrou que os crónicos candidatos aos primeiros lugares sentem cada vez mais dificuldades nos seus jogos, ao mesmo tempo que equipas de segunda linha como Everton ou Leicester vão fazendo campanhas mais regulares. E era a esta dupla que o vencedor do Liverpool-Arsenal iria juntar-se no topo da classificação à terceira jornada.

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No plano teórico, e olhando para qualquer tipo de análise, os reds partiam como favoritos. Pelo passado recente de conquistas, pela dinâmica coletiva, pelo próprio momento e pela consolidação de processos numa ideia de jogo que se consegue perceber mas que raramente tem sido travada, podia haver maior ou menor peso mas o Liverpool ia sempre na frente. No entanto, os dois últimos encontros entre ambos contaram uma história diferente, com o Arsenal a ganhar na 36.ª jornada do derradeiro Campeonato (um triunfo que custou aos comandados de Klopp a possibilidade de juntar ao título o recorde de pontos numa só época) e a conquistar também a Supertaça no início da presente temporada, após desempate nas grandes penalidades. Aos poucos, Mikel Arteta conseguiu algo que os gunners estavam a perder com o tempo: capacidade de competir com os melhores.

“Queremos responder a esses últimos resultados. Estamos nesta situação e podemos melhorar dependendo da forma como conseguirmos utilizar isso. O Arsenal não nos esmagou nesses jogos, não foi como nada como se não tivéssemos oportunidades para marcar. Por isso, eles sabem também que será um encontro diferente, assim como nós sabemos que será um encontro diferente”, destacou no lançamento da partida Jürgen Klopp, entre muitos elogios ao adversário. “O Mikel [Arteta] está a fazer um trabalho soberbo. As exibições e os resultados mostram que conseguiu impor as suas ideias, a equipa tem uma identidade clara. O Arsenal tornou-se também um grupo vencedor em pouco tempo, ganharam uma Taça e uma Supertaça. Têm um grupo excecional de jogadores. Não é bom para mim porque me dá mais trabalho mas é bom para a Premier League”, assumiu.

“Sabemos do nível que o Liverpool colocou no Campeonato, sabemos da consistência que têm mantido. É por isso que dominam quase todos os aspetos de jogo. Precisamos estar ao nosso melhor nível, precisamos de ser uma equipa realmente competitiva e sinto o grupo preparado para isso. Parece-me que eles estão cada vez melhores, com menos fraquezas. São uma equipa fantástica. Vamos ter de sofrer em alguns período do jogo mas, mais importante que tudo, devemos acreditar que temos capacidade para ir a Anfield e ganhar, devemos acreditar que temos capacidade para ir lá e ganhar”, salientou Mikel Arteta, um técnico cada vez mais elogiado pelo trabalho realizado pelo Arsenal e que começou de forma consistente a primeira época desde início no clube.

Na quinta-feira, o Liverpool fará o quarto jogo frente ao Arsenal entre os últimos oito oficiais que disputou (para a Taça da Liga). Até aqui, perdera um e empatara outro com derrota nas grandes penalidades. Mas seria essa a prova de que a equipa londrina tinha voltado a ser o que era? Sadio Mané fez um fact check a essa informação e deu o veredicto: falso. O avançado senegalês que também já foi alvo de notícias falsas a circularem nas redes sociais (neste caso devido a afirmações que não fez em relação aos luxos recusados enquanto profissional de futebol – sendo verdade ainda assim a parte em que financiou uma escola e um hospital em Bambali) foi um dos elementos mais desequilibradores no triunfo dos reds por 3-1 em Anfield e mostrou que existe ainda uma diferença em relação aos dois conjuntos na mentalidade competitiva e vencedora de um campeão numa prova de regularidade, algo expresso pela forma como virou uma desvantagem injustificada em poucos minutos.

Os minutos passavam e as linhas mais recuadas do Arsenal continuavam a condicionar e muito a construção do jogo ofensivo do Liverpool, incapaz de passar do bola-para-o-lado-bola-para-o-meio-bola-para-trás que marcou os primeiros dez minutos de um encontro sem balizas contra um adversário mais preocupado em não sofrer em transições do que propriamente interessado em fazer sofrer através de transições. Wijnaldum tentava vir buscar jogo mais atrás, Naby Keita procurava espaços entre linhas mais à frente mas acabaram por ser os movimentos de Sadio Mané, para trás para ter bola ou para o corredor sem bola, que desequilibraram a organização visitante. A seguir, e em 15 minutos, os reds tiveram quatro boas oportunidades: Virgil Van Dijk, de cabeça após cruzamento da direita, viu David Luiz desviar o remate para canto (11′); Sadio Mané rematou na passada para grande defesa de Leno após nova jogada pelos corredores laterais (15′); Alexander-Arnold acertou na trave de fora da área (21′); e Wijnaldum tentou também a meia distância mas saiu à figura do guarda-redes alemão (24′).

O golo do Liverpool parecia inevitável mas Robertson, autor de tantas assistências para os companheiros, fez um passe para o 1-0… de Lacazatte: após uma boa saída rápida do Arsenal (a primeira no jogo), o cruzamento de Maitland-Niles foi cortado de forma atabalhoada pelo lateral esquerdo e acabou nos pés do avançado francês, que não desperdiçou a oferta para inaugurar o marcador (25′). Também aqui, o Liverpool mostrou a diferença entre uma equipa com mentalidade vencedora e uma equipa que consegue vencer: apenas dois minutos depois, na recarga a um primeiro remate de Salah travado por Leno, Mané fez o empate (28′); a seguir, após um cruzamento de Salah na direita, Robertson surgiu sozinho ao segundo poste para a reviravolta (34′).

No segundo tempo, o jogo mudou de características muito por influência das alterações de Arteta, que colocou os avançados a explorarem mais a profundidade do que as transições rápidas a três/quatro toques. Lacazette, por duas ocasiões, apareceu isolado na cara de Alisson mas permitiu a defesa ao guarda-redes brasileiro (sendo que na primeira parecia adiantado em relação à defesa contrária), enquanto o Liverpool aproveitava a mobilidade das unidades ofensivas para ocupar os espaços que iam ficando descobertos e criar lances de perigo, incluindo dois de Diogo Jota que, após substituir Mané aos 79′, teve um remate ao lado e outro que foi às malhas laterais numa estreia prometedora pelo conjunto de Anfield onde mostrou já uma ligação interessante com Salah. O português estava com a corda toda e conseguiu mesmo marcar, aproveitando uma segunda bola à entrada da área para um remate rasteiro sem hipóteses para Leno que fez o 3-1 aos 88′. Para aqueles que colocaram em causa os 50 milhões pagos pelo português, Diogo Jota começou a responder logo no primeiro jogo a esse fact check.