O Presidente angolano, João Lourenço, acredita que foram desviados do erário público cerca de 24 mil milhões de dólares (cerca de 20 mil milhões de euros), mais de metade dos quais através da Sonangol – que foi liderada entre 2016 e 2017 por Isabel dos Santos, filha do antecessor de João Lourenço. A estimativa do atual regime angolona, que calcula que já tenha sido possível recuperar cerca de um quinto do valor, foi transmitida numa entrevista ao diário financeiro The Wall Street Journal (WSJ).

João Lourenço diz que “com bases nas investigações patrimoniais feitas pelo Serviço Nacional de Recuperação de Ativos, as perdas em que o Estado incorreu ascendem a 23,79 mil milhões de dólares”. Destes, acrescenta o responsável, “13,52 mil milhões foram desviados ilegalmente através de contratos fraudulentos com a [petrolífera estatal] Sonangol; 5,09 mil milhões foram retirados da Sodiam e da Endiama [empresas públicas ligadas aos diamantes]; e os restantes 5,19 mil milhões desviados de outras empresas e setores de atividade”.

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As autoridades calculam que já tenha sido possível recuperar cerca de um quinto desse valor global – 4,9 mil milhões de dólares em dinheiro e outros ativos, incluindo interesses em Angola, Portugal e Brasil. Além disso, sistematiza João Lourenço, “o Serviço Nacional de Recuperação de Ativos já pediu às autoridades de outros países para congelar ou, mesmo, apropriar ativos e dinheiro no valor de 5,43 mil milhões” em países como Portugal, Suíça, Holanda, Chipre e Reino Unido. “Esta lista de países tenderá a crescer”, avisa o Presidente angolano.

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Há cerca de um mês, a filha do ex-Presidente José Eduardo dos Santos, Isabel dos Santos, disse em entrevista que “irritou muita gente” ao anular contratos que lesavam a Sonangol. A empresária, que foi presidente do conselho de administração (PCA) da Sonangol durante cerca 18 meses e é arguida por alegada má gestão e desvio de fundos na petrolífera, falava na sexta-feira à rádio MFM numa entrevista centrada nos tempos em que liderou a empresa, entre junho de 2016 e novembro de 2017, período em que diz ter identificado e tentado resolver vários problemas. Entre 1999 e 2012 a petrolífera angolana foi liderada por Manuel Vicente, seguido por Francisco José Maria, que dirigiu a empresa (de 2012 a 2016), até ser substituído pela filha do então presidente José Eduardo dos Santos.

Tanto Manuel Vicente (suspeita de crimes de corrupção ativa) como Francisco José Maria (suspeita de branqueamento de somas obtidas ilicitamente) e Isabel dos Santos (suspeita de branqueamento de capitais) foram investigados pela justiça portuguesa.

A empresária realçou também que apresentou o diagnóstico ao executivo da altura, presidido por José Eduardo dos Santos, tendo também dado conhecimento ao então candidato à Presidência angolana João Lourenço, que a viria a exonerar, lamentando que depois da saída da sua equipa tenham regressado à Sonangol pessoas e firmas alegadamente envolvidas nos esquemas que lesavam a empresa.

Isabel dos Santos afirmou que aceitou o convite para ir “salvar a Sonangol” que se encontrava numa situação de pré-falência, sabendo que havia um “preço político” a pagar, mas com “espírito de missão”. Uma das tarefas que assumiu era a de “combater a corrupção” que existia na Sonangol, identificar para onde o dinheiro estava a ir e porque é que a petrolífera estava a perder tanto dinheiro, tendo-se apercebido que havia uma sobrefaturação em vários contratos.

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